Uma das perguntas mais frequentes que recebo aqui no blog sobre o meu mochilão é sobre ser mulher e viajar sozinha:

É seguro mulher viajar sozinha pela América Latina?

A resposta é sim. Não tem muito segredo, de verdade. Basta tomar exatamente as mesmas precauções que você costuma tomar quando anda sozinha no Brasil. Só isso.

Pra pegar dicas de segurança no local em que você está, converse sempre com o pessoal do seu hostel, hotel ou outra hospedagem. Eles moram na cidade e conhecem as áreas mais tranquilas, as que devem ser evitadas à noite, e os golpes mais comuns na praça. Sem erro, sem neura, sem grilos. Informe-se e se jogue. Rapidinho você entra na vibe de se virar sozinha e fica mega esperta com tudo!

Deixa eu contar o meu relato pessoal pra vocês, porque a decisão de ir desacompanhada foi crucial pra minha viagem. Se você está em cima do muro, ou pensando em desistir da sua trip porque não achou companhia, espero que isso seja o empurrãozinho de que você precisava.

Por que eu escolhi viajar sozinha

No ano e meio antes da #mochigrinação, eu passei por um processo intenso de tratamento emocional e espiritual porque, dentre outras coisas, eu tinha uma dificuldade imensa em aceitar a inconstância dos relacionamentos humanos. Isso, unido a uma forte tendência a querer controlar tudo e todos, me gerava muita ansiedade e, portanto, sofrimento.

Pra ser bem sincera, tudo o que eu queria depois de tanto rachar a cuca e o coração nesse processo era tirar umas férias dos outros e, mais importante, da pessoa que eu sou quando em contato com os outros. Basicamente, queria me divertir fazendo tudo o que eu quisesse, da forma que eu quisesse e na hora em que eu quisesse. Parece bem libertador, né?

Deserto de Siloli, Bolívia, e toda a liberdade de viajar sozinha
Deserto de Siloli, Bolívia, e toda a liberdade de viajar sozinha

E foi mesmo. Foi divertido e libertador e deu uma levantada honesta na minha autoconfiança. Mas viajar sozinha foi tão maravilhoso que, como se não bastasse ter alcançado esse objetivo, eu ainda aprendi coisas de que eu precisava desesperadamente pra complementar todo esse meu processo de cura. Coisas sobre pessoas, sobre o outro e sobre mim, que eu fui aprendendo um pouquinho com cada pessoa querida que encontrava o meu caminho.

E acredite, as pessoas que encontram o seu caminho quando você viaja sozinha são verdadeiros presentes do universo.

A leveza das amizades de viagem

No começo, eu conhecia as pessoas, interagia, me divertia, me permitia confiar. Só fiquei sozinha quando eu realmente queria, e em nenhum momento me senti solitária. Mas eu encarava todos esses encontros como amizades de viagem, com toda a leveza que isso traz.

Eu estava sempre consciente de que cada uma das pessoas que eu conhecia estava no mesmo caminho que eu, cada um a seu modo. Em algum ponto da estrada nos encontramos e compartilhamos algo: uma Paceña, um passeio, uma piada, boas conversas, uma aventura, fotos. Em breve, cada um iria pro seu lado, levando consigo uma lembrança boa do outro e nada mais. E isso não era de forma alguma triste, era um presente poder ter convivido com aquelas pessoas e feito parte (mesmo que pequena) de uma viagem que provavelmente mudou a vida delas, da mesma forma que viajar sozinha e vivenciar esses encontros mudou a minha.

Eu me sentia muito aliviada e orgulhosa por finalmente estar em paz com o desapego que eu tanto buscava. Mas ele não vinha sem o contraponto do distanciamento pra balancear. De fato, não é difícil desapegar quando você nem se aproximou muito, pra começo de conversa.

Viajar sozinha = muitas selfies. Mas se elas tiverem a Salkantay ao fundo, tá valendo.
Viajar sozinha = muitas selfies. Mas se elas tiverem a Salkantay ao fundo, tá valendo.

Quando fiz a Trilha Salkantay, exatamente na metade do mochilão, tive um momento muito intenso (e até um pouco místico) de contato com uma energia de amor e paz que me tocou profundamente. Pode ser que tenha sido coincidência, mas até hoje eu acredito que aquela proximidade com o sagrado da montanha, o Apu, mexeu em algumas estruturas. Dali em diante, senti uma diferença muito grande na minha forma de levar as relações.

A vida enquanto estrada

Começou quando eu conheci o Brianum dia antes da trilha, no tour do Vale Sagrado dos Incas. Sempre tem muita gente legal nos tours e a gente acaba conversando com todo mundo, mas naturalmente a gente se identifica mais com algumas pessoas do que com outras.

Eu e o Brian nos demos super bem logo de cara, e quando eu voltei da trilha passamos o dia todo em Cusco passeando e comendo bem. A identificação foi tanta que, como ambos estávamos indo pra Arequipa, decidimos seguir viagem juntos dali em diante. Uma decisão e tanto pra quem queria liberdade.

Assim, visitamos Arequipa e o Canyon do Colca em 3 dias juntos. Conviver com o diferente, o outro, é sem dúvida a maior escola que a gente pode ter. Essa convivência exige abrir mão do controle, porque já não sou mais só eu que decido. E não era justamente isso o que eu queria aprender?

No Canyon do Colca, não precisei mais tirar selfie
No Canyon do Colca, não precisei mais tirar selfie

Nesses 3 dias, porém, eu comecei a sentir falta de toda a liberdade e desprendimento que eu tinha alcançado até então. Viajar acompanhada estava indo contra tudo o que eu tinha sonhado praquela viagem tão importante. Era hora de ouvir e respeitar a mim mesma.

A nossa despedida foi triste, mas o insight maravilhoso que ela trouxe pros dois fez com que fosse, também, um dos momentos mais significativos da viagem:

Quando estamos na estrada, encontramos pessoas, compartilhamos algo, e nos separamos. E a gente aceita com leveza, porque sabemos que é assim que é a estrada. O fato de nos separarmos não significa que não houve uma troca importante, que não houve valor adicionado pras duas partes. A mesma coisa acontece na vida, que não deixa de ser uma grande estrada.

O mais louco disso tudo é que tínhamos roteiros meio parecidos, então a gente acabou se encontrando sem querer em vários pontos. Em Sucre, a gente chegou a se esbarrar na rua! Esses encontros renderam mais conversas super produtivas e rolês super divertidos.

Conviver com ele também foi essencial pra ter uma base de comparação entre viajar sozinha x viajar acompanhada. Isso foi essencial pra curar o meu medo crônico de “ficar sozinha na vida”. Eu senti na pele que dividir os dias com alguém é maravilhoso, mas ficar sozinha não é pior. É apenas uma situação diferente, sendo que ambas têm suas vantagens e desvantagens. Ainda em Arequipa, em um dado momento me dei conta de que eu estava sorrindo o tempo todo, mesmo sozinha. Eu não precisava mais ter medo, porque a minha própria companhia era, de fato, muito agradável.

Também foi através do Brian que eu acabei conhecendo outra grande amizade da viagem, o Paul. Topando viajar junto com outra pessoa novamente, com o Paul eu vi o outro lado de Santa Cruz (que a princípio eu tinha odiado) e topei mudar o roteiro e ir pra Assunção, atravessando o Chaco paraguaio na viagem de ônibus mais bizarra da minha vida.

Depois, em San Pedro de Atacama, no contato com outros amigos queridos que chegam, vão embora e deixam e recebem um tanto, eu recebi outro tanto de sabedoria. Esse aprendizado veio pra corrigir uma visão extremamente equivocada que eu tinha do outro, que me impedia de ser uma pessoa melhor.

O que vou levar da experiência de viajar sozinha

Hoje, pra mim, fica bastante clara a minha progressão ao longo da viagem. Eu comecei me permitindo interagir e confiar nas pessoas, mas sem deixar me aproximar muito; e terminei dando abertura pra criar vínculos mais profundos e duradouros com as pessoas que eu encontrava e lugares que eu conhecia.

E aí é que vem a parte importante:

Esse aprofundamento não vinha mais com aquele apego exagerado que me causava tanto sofrimento. Agora, ele vinha com a aceitação de que os encontros acontecem e passam, mas a troca, as coisas boas, essas ficam, independentemente do que aconteça depois.

Ainda mantenho contato frequente com o Brian, estive na casa dele em São Francisco, e até dei rolê com ele no Burning Man.

Viajar sozinha te leva a conhecer caras fabulosos e glamurosos
Viajar sozinha te leva a conhecer caras fabulosos e glamurosos

No fim, viajar sozinha me trouxe: a) grandes amizades; e b) aprendizados de que eu precisava muito. Sério, gente, tava feia a coisa. Precisava mesmo de um chacoalhão desses. E sou muito grata por ter sido um chacoalhão dos bons, dos divertidos, dos amorosos. Porque a gente aprende demais na dificuldade, mas aprender na alegria é melhor, né?

E aí? Decidida a viajar sozinha?

Se você ainda não se convenceu, o blog 360meridianos tem um post muito bacana com relatos de sete mulheres que viajam sozinhas, pra te inspirar.

Além delas, a Carol Moreno do Mochilão Trips é expert em viajar sozinha, já deu até a volta ao mundo, e conta todas as maiores vantagens de sair sozinha por aí.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.