Causos e reflexões

Uma aventura por ano

Quando a gente fala em viajante, aventureiro, travel monster etc. logo imagina aquele personagem bem nômade, que nunca estabeleceu raízes em lugar nenhum, que mora alguns anos em cada lugar e sobrevive de bicos ou de vender artesanato. A gente pensa no Alexander Supertramp de Na Natureza Selvagem. A última figura que nos vem à mente é a da funcionária pública com a segurança profissional que ela tanto almejou e batalhou pra conseguir, ou a do pai de família que tem filho pequeno pra criar.

Na Capadócia conheci um argentino que era a personificação do primeiro exemplo. Ao contrário do que você pode estar imaginando, ele era um cara tranquilíssimo, com um jeitão bem na dele. Ele me contou que ficava no mesmo lugar enquanto estivesse gostando, sem pressa pra ir pro próximo nem pressão pra ficar no mesmo. Trabalhava com hotelaria e, portanto, era relativamente fácil arranjar emprego cada vez que se mudava. O máximo que ele já havia ficado em um mesmo lugar era dois anos. De vez em quando voltava para visitar a família, coisa rápida.

Devo dizer que esse estilo de vida sempre me pareceu muito romântico, o do nômade, mas era uma ideia muito remota para mim, com esse monte de responsabilidades que todo mundo tem.

Até que em 2011 saí de um emprego que eu odiava para poder trabalhar exclusivamente como freelancer. Todo o meu trabalho era feito pela internet, o que me abria um leque de possibilidades literalmente do tamanho do mundo. Estava aí minha oportunidade de viver como meu amigo argentino, levando apenas meu computador em baixo do braço, trabalhando em qualquer lugar que oferecesse uma conexão à internet. E de fato, no ano seguinte viajei em todos os feriados e fiz um intercâmbio. Porém, embora esse mundo de possibilidades de locomoção devesse, em teoria, ser libertador, eu me sentia presa!

Talvez fosse minha zona de conforto querendo me segurar, mas na hora em que a vida nômade se tornou uma possibilidade real para a minha vida, congelei. Entre muitas outras questões práticas que esse estilo de vida levantaria, só pensar em procurar lugar pra morar cada vez que eu me mudasse — lidar com imobiliária, arranjar fiador, procurar um bom quarto pra alugar, contar com a sorte de achar um bom roomate, tudo isso — já me dava um desgosto. Além disso, não ter nada de concreto que me prendesse em lugar algum (um emprego, no meu caso) provou ser um peso muito maior do que eu imaginava. Se eu não preciso ficar aqui, por que estou aqui? E se eu não quiser ficar aqui, vou querer ficar onde, então? A liberdade realmente assusta, e entendi por que a “zona de conforto” tem esse nome, ela é realmente muito confortável.

Então, em 2013, tudo mudou. Fui contratada! Quando recebi a oferta de emprego, o que mais pesou na hora de tomar a decisão foi a perda da minha autonomia de freelancer. A vida nômade que eu achava linda porém intimidadora não estaria mais à minha disposição! Eu tinha um trabalho travel monster por definição e precisaria abandonar isso se quisesse a segurança do proletariado.

Freelanceando no avião indo pra Genebra ano passado

Um trabalho tão travel monster que dava pra trabalhar no avião a caminho da próxima viagem

Só que não é bem assim. Uma coisa não exclui a outra. É perfeitamente possível ter sua segurança, sua estabilidade, e continuar vivendo pela filosofia travel monster. Você pode estar lá batendo cartão todo dia em horários rígidos, mas existem férias, existem fins de semana, existe a hora do almoço para fazer uma coisa diferente todo dia. Seu emprego não precisa ser uma prisão se você gosta dele o mínimo que seja.

O mais importante é tomar o máximo de cuidado para saber exatamente se o estilo de vida que você escolheu é o que te deixa mais feliz, e não só mais confortável, mais conformado. Todo dia você precisa parar e se perguntar se isso é o que você quer ou se é o que a sociedade espera de você. No dia em que você acordar e se der conta de que está vivendo no automático, com base nos princípios de outra pessoa, aí sim é hora de experimentar e tentar encontrar outra coisa. E esse é o único jeito de encontrar: experimentando.

Acabou que aceitei o emprego e gosto muito dele. Um dia ainda vou tirar um tempo sabático para sair por aí pulando de cidade em cidade, experimentar um pouquinho de como é a vida do meu amigo argentino, mesmo tendo plena consciência de que uma hora vou cansar e me restabelecer. Mas por enquanto estou satisfeita com a ideia de ter uma aventura por ano, inclusive já planejando a de 2014. E confesso que a ideia de ser paga pra ter 30 dias de aventura no ano é deliciosamente confortável.

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5 Comentários

  • Responder
    Caio
    4 de janeiro de 2014 às 01:45

    Simplesmente animal esse texto, Tete. Conseguiu resumir a vida de muita gente em um texto simples e gostoso de ler. Congrats!

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      4 de janeiro de 2014 às 02:27

      Obrigada, Caio, que bom que vc gostou! 😀 Continue acompanhando!

  • Responder
    Ludio
    4 de janeiro de 2014 às 02:24

    Ferias pagas é realmente um “upgrade” na vida daquele que ama viajar. Não sei o que é isso há 7 anos, por escolha própria mas com aquela invejinha dos amigos que tem esses 30 dias garantidos pra sumir no mundo. Tem que aproveitar meeeesmo

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      4 de janeiro de 2014 às 02:26

      Na minha visão essa escolha entre freelancer/funcionário é difícil porque ambas as opções tem coisas boas e ruins. Isso das férias é uma vantagem, mas ter horário fixo é uma desvantagem de ser contratado, por exemplo! Então a gente acaba escolhendo um lado ou outro mas as coisas boas do lado “contrário” sempre dão uma invejinha mesmo hehehe

  • Responder
    A Capadócia e por que hostels são tão, tão legais | Travel Monster
    14 de abril de 2014 às 23:00

    […] bastante a interação. Havia o israelense, os dois australianos, a americana, o italiano, o argentino nômade, o americano que morava na França, e a gente, as brasileiras que moravam na França. A conversa […]

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