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Turquia Parte 4: A hospitalidade turca

Muito se fala sobre a hospitalidade turca, tão conhecida no mundo todo quanto a hospitalidade brasileira. E que delícia que é ouvir coisas boas sobre um país, chegar lá e ver que era tudo verdade.

O que não faltou foram turcos atenciosos fazendo de tudo pra eu e a Julia nos sentirmos em casa e ajudando sempre que a gente precisava. Oferecer çay era o básico pra agradar, todo mundo oferecia.

O çay, maior símbolo da hospitalidade turca. Foto:  http://uskudaragideriken.com/uskudarlilar-gunde-5-bardak-cay-prostat-kanserini-engelliyor/

O çay, maior símbolo da hospitalidade turca. Foto: http://uskudaragideriken.com/uskudarlilar-gunde-5-bardak-cay-prostat-kanserini-engelliyor/

Esse traço cultural não é exclusividade da Turquia, mas é comum aos países do Oriente Médio. A primeira vez que tivemos maior contato com isso foi quando entramos em uma agência de viagem em Taksim para pesquisar preços de passagens de ônibus para a Capadócia.  Não lembro por que não fechamos as passagens ali, mas lembro muito bem que o senhor que nos atendeu foi extremamente atencioso, se esforçou no inglês, nos contou tudo sobre a cidade, tirou todas as nossas dúvidas,  ficou encantado por a gente ter vindo de um país, estar estudando em outro, visitando um terceiro, e falando a língua de um quarto. Até nos deu de presente um guia de Istambul super bonito!

Guia de Istambul que a gente ganhou :)

Guia de Istambul que a gente ganhou 🙂

Mas o mais legal de tudo foi que depois de muita conversa ele nos convidou para tomar çay na casa dele e conhecer a esposa dele. Aqui a reação automática do nosso desconfiômetro é apitar, né? Por que esse cara quer que a gente vá na casa dele? Mas é parte da cultura mesmo.

A noção de hospitalidade dos países do Oriente Médio é marcante pra nós pelo fato de ela ser claramente direcionada a “estranhos”, a hóspedes de fora da comunidade. Isso faz diferença porque, sendo uma pessoa de fora e não um membro da família que se vê com frequência, não existe expectativa de reciprocidade.  E é uma necessidade tão forte de agradar, que é como se a dívida fosse deles para com o hóspede, e não o contrário.

Na Índia, dizem que “O hóspede é Deus“. Não sei se também falam isso no Oriente Médio, mas mesmo que não falem, tenho certeza de que sentem. A dívida não é para com aquele hóspede específico, mas para a ideia de “amor ao próximo” vista na figura do hóspede.

No fim, ficamos com receio e acabamos não aceitando o convite, mas me arrependo muito disso. Se isso tivesse acontecido hoje, depois da minha epifania da confiança, eu teria ido com certeza. Além disso, na hora a gente não sabia, mas é uma desfeita recusar um convite por lá. Toda a dinâmica da hospitalidade inclui também as responsabilidades do hóspede. Aceitar um convite não é “ser folgado e comer de graça”, é honrar o anfitrião com a sua confiança.

Por sorte, tivemos outras oportunidades incríveis de experimentar essa cultura.

Na nossa penúltima noite em Istambul, encontramos a Ayçin, minha amiga da High School e uma das pessoas que fez nascer em mim a fascinação pela Turquia. A Ayçin morava do lado asiático de Istambul, a parte mais moderna da cidade, e nós estávamos hospedadas do lado europeu. Pois não é que ela pegou um táxi, atravessou a ponte e foi até o nosso albergue nos buscar? Depois ela nos levou de volta para o lado asiático no mesmo táxi, passamos por aquela ponte enorme e linda e toda iluminada à noite. Não era pouca distância, foi coisa de uma hora de viagem. Tudo isso para nos encontrarmos com os amigos dela num bar boladão que ficava numa rua mais boladona ainda.

Bagdat Caddesi. Foto: http://www.rihtimotel.com/yakin-cevremiz.html

Bagdat Caddesi. Foto: http://www.rihtimotel.com/yakin-cevremiz.html

A Bagdat Çaddesi (Rua Bagdá) é uma avenida larga inteira decorada com luzes, e inteira ladeada com bares e restaurantes. Uma parada alto nível. Não é uma rua de pedestres igual a Istiklal, mas as calçadas são bem largas e chega a ser ainda mais agradável.

Era aniversário de um dos amigos dela, e eles nos ofereceram bolo, que comemos com gosto, e a Ayçin pagou todas as nossas cervejas (Efes amor verdadeiro amor eterno <3), mesmo depois de insistirmos para cada uma pagar o seu. Hoje suspeito que essa insistência toda em não deixar a anfitriã nos agradar também não tenha sido muito educado da nossa parte 😛

Depois disso, ela nos convidou pra ir pra casa dela, que ela dividia com a irmã e uma amiga. Pegamos outro táxi, que ela também não nos deixou pagar. No caminho, ela fez o táxi parar numa vendinha, desceu e ficou uns 20 minutos lá dentro. E a gente  batendo altos papos em linguagem de mímica com o taxista. Ela voltou da vendinha com uma sacola cheia de delicinhas turcas que ela fazia muita questão que a gente experimentasse.

Raki

Raki na casa da Ayçin

Suco de cenoura fermentado

Suco de cenoura fermentado

Chegamos na casa dela e comemos e bebemos de tudo. Tomamos raki, que é a bebida turca clássica. Você mistura com gelo e um pouco de água e ela fica meio esbranquiçada, tem gosto de anis. Comemos charutos de folha de parreira e arroz em conserva, uma delícia. Mas pra mim o mais sensacionalmente diferente foi o suco de cenoura fermentado. É uma bebida preta e salgada. Você está literalmente bebendo cenoura podre. E o mais legal: é uma delícia!

Depois de comer e beber todas, aprender um pouco de turco e conhecer o que mais estava bombando de música turca na época, era hora de ir embora.

Ela chamou um táxi pra gente, explicou pro taxista onde ficava o albergue e pagou antecipado. Fiquei realmente impressionada com essa recepção incrível e vontade infinita de agradar e fazer o convidado se sentir especial, sem nunca pedir nada em troca. Eu era uma velha amiga que ela não via há anos, e a Julia ela nem conhecia, mas mesmo assim ela fez questão de nos dar essa noite incrível e apresentar a cultura dela pra gente.

Mas a gente ainda não tinha se acostumado o suficiente com esse tratamento e ficamos impressionadas com outro fato legal que aconteceu.

Na viagem de 11 horas desde Istambul até Göreme, na Capadócia, a uma certa altura o ônibus parou em um posto/parada de beira de estrada. Do lado de fora havia um letreiro escrito PISMANYIE, um luminoso gigante piscando loucamente. Na mesma hora, entrou um vendedor no ônibus, anunciando o produto em alto e bom tom: “Pismanyie, pismanyie!” (Fala-se pishmaníe.) E todo mundo no busão comprando pismanyie, acho que tava rolando alguma promoção porque todo mundo comprava sempre 4 caixas, e todo mundo comendo pismanyie, a criançada pirando no pismanyie, e a gente pirando mais ainda querendo saber o que era o pismanyie!

A gente devia estar dando muita bandeira da nossa curiosidade, porque uma menina de uns 10 anos na poltrona da frente percebeu tudo. Ela virou pra trás e nos deu uma das 4 caixas que a mãe dela tinha comprado. Ela não entendia uma palavra do que a gente falava, mas teve a sensibilidade pra entender a situação, e a generosidade de compartilhar aquilo com a gente. Tenho certeza que ela também entendeu nossa gratidão mesmo sem saber o que é “obrigada”.

Pismaniye com pistache. Foto: Foto: Gene Lee.

Pismaniye com pistache. Foto: Gene Lee.

A propósito, pismanyie é o chamado “algodão doce turco”. É uma massinha desfiada de farinha e açúcar. Bizarro e delicioso.

Essa menina, o senhorzinho da agência de viagem e a Ayçin, nenhum deles esperava nada em troca. Eles estavam só agindo como foram ensinados, passando pra frente uma tradição antiga e honrando a ideia de “amor ao próximo”.

E de quebra ainda fazendo a gente amar o país deles 🙂

Veja o relato completo:

Turquia Parte 1: Expectativa x realidade em Istambul

Turquia Parte 2: Sultanahmet, a Istambul dos meus sonhos

Turquia Parte 3: Os bazares de Istambul e o banho turco

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