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Turquia Parte 1: Expectativa x realidade em Istambul

Quando morei na França tive a oportunidade de fazer algumas viagens ali por perto, vamos chamar de “mochilão com pit stop”. Já contei pra vocês o meu incrível feito de passar três dias na Itália com 30 euros no bolso e agora vou contar outra das minhas viagens preferidas: a Turquia!

A motivação

Quando fiz um semestre de High School nos EUA, conheci dois turcos. Uma era intercambista como eu e ficamos muito amigas, e o outro era de família radicada nos EUA e foi meu par no baile da escola <3. Os dois eram as pessoas mais bonitas e estilosas e legais de toda a escola, e isso me deixou como uma impressão da Turquia muito diferente daquele pré-conceito que está no imaginário popular do brasileiro, o do turco bigodudo e habibento da lujinha do brimo. Eu via as fotos da Ayçin e da família dela e ficava enlouquecida pra conhecer o lugar.


Eta Tarkan maravilhoso!

Desde essa época eu desenvolvi uma pira com tudo o que fosse turco, desde a encantadora arte e arquitetura otomanas <3 até o lindo do Tarkan <3, passando pelos fonemas maravilhosos do idioma turco moderno <3 e o batuque da música turca <3. Observando a quantidade de <3 neste post vocês já conseguem entender por que Istambul estava no topo da minha wanderlist, e por que eu não podia perder a oportunidade de ir durante meu intercâmbio, estando ali pertinho.

A preparação

Meu plano era ir no final do intercâmbio, quando já estaria mais quente, eu estaria mais na vibe férias e teria mais tempo pra guardar dinheiro. Desde cedo fui avisando todos os meus amigos que eu ia pra Turquia, vários falaram que iam comigo e no final desistiram. Não interessava, eu ia para a Turquia. Surgiu uma promoção da EasyJet e comprei as passagens com quatro meses de antecedência. Lyon não tinha muitos destinos diretos então não era tão barato viajar de lá porque sempre precisava fazer conexão. A ida e volta saiu por €128, com espera de vin-te-ho-ras em Londres. Mas tudo bem, porque isso acabou me rendendo um dia inteiro passeando em Londres, que eu não conhecia (e continuo não conhecendo porque 20 horas numa cidade tão cheia de cultura só dá pra dar um gostinho).

Eu estava com tudo preparado pra ir sozinha, inclusive o psicológico. Só que chegando mais perto da viagem minha amiga Julia decidiu ir junto, e vou dizer pra vocês que foi bem mais legal ter ido com uma companhia, porque ela sugeriu que a gente visitasse coisas que eu nem sabia que existiam, além de insistir que a gente fizesse outras que a princípio eu não queria fazer. Viajar sozinho é legal, mas ir com um amigo enriquece bastante a experiência.

Primeiras impressões

Estreito de Bósforo, nossa recepção na Turquia

Estreito de Bósforo, nossa recepção na Turquia

Chegamos na manhã do dia 16 de maio de 2010 no aeroporto secundário da cidade, Sabiha Gökçen, que como a maioria dos aeroportos servidos pela EasyJet ficava longe. Esse era tão longe que ficava em outro continente!

Istambul é dividida pelo Estreito de Bósforo, que separa a Europa da Ásia. A área que era a antiga Constantinopla, sede do império Bizantino, e que portanto tem os pontos turísticos mais interessantes para se ver, fica na parte Europeia. O aeroporto em que nós pousamos fica no lado Asiático.

A princípio isso nos causou um certo transtorno para sair do aeroporto. Queríamos pegar o ônibus público (é o E9, custa 2 TL), mas não encontramos e ainda estávamos um pouco intimidadas na chegada, então acabamos pagando 10 TL cada uma por um serviço privado de shuttle. Do lado de fora, esperando o ônibus, aquele sol e calor maravilhosos que era exatamente o que nós esperávamos da Turquia depois de 6 meses de inverno em Lyon.

No começo da viagem de ônibus eu achei que tínhamos ido parar no Brasil porque a estrada era muito parecida, pelo menos com as estradas aqui no Sul. Muito mato na beira da estrada, algumas casas bem simples apareciam aqui e ali. A diferença é que aqui tinha a bandeira da Turquia pendurada em todo lugar, vermelha e linda.

Mas aí vimos pela primeira vez o Bósforo, e atravessamos, e ele é gigantesco e lindo e eu só via azul turquesa pra todo lado! Ter descido no aeroporto mais longe acabou sendo uma recepção linda que já encheu os olhos logo na chegada.

O ônibus deixou a gente na praça Taksim, que é o point do lugar. Lá que rolou os protestos do final do ano passado, a praça realmente é o centro cultural da cidade. Ela parece mais um largo muito grande, carro só chega até um certo ponto, e depois é só a praça enorme. A continuação dela é uma rua de pedestres chamada Istiklal que bomba demais de lojas e restaurantes e a juventude. Dessa rua principal, sai um emaranhado de ruelas pequenininhas mas muito mais charmosas, também de pedestres, com restaurantes e barraquinhas.

Rua Istiklal

Rua Istiklal

A Istiklal é uma ladeirona, e lá fomos nós subindo com as mochilas nas costas até o nosso albergue, desviando da horda de gente e morrendo de calor. Ficamos no World House, que era tranquilo, limpinho e com bom café da manhã, além do fato de ter custado €8 por noite por pessoa! Ele fica bem pertinho da torre Galata, que é muito bonita mesmo mas não recebe toda a atenção que ela mereceria. Dava pra ver a torre da janela do nosso quarto 🙂 Do outro lado da rua tinha uma vendinha que fazia suco natural na hora por 1 TL o copo, e quando chegamos estava tocando Tarkan na vendinha. Achei que foi outra boa recepção. Tudo muito bom, mas se eu fosse voltar hoje, escolheria um albergue mais perto de Taksim ou em Sultanahmet.

Largamos as coisas lá, botamos shorts pra aproveitar o calorzinho e saímos explorar! A intenção era sair a esmo, explorar as redondezas e nos localizar. O erro foi o shorts. Mesmo num dia de calor, todas as mulheres na rua usavam calça. A Turquia é um estado laico bastante ocidentalizado, por isso apesar da população majoritariamente muçulmana achamos que não teria problema nenhum andar de shorts, mas tinha sim. Não aconteceu nada além de olhares estranhos e provavelmente nem iria acontecer. Tinha várias gringas andando de shortinho, mas a gente se sentiu mal. Nos outros dias saímos de calça.

Fomos primeiro na torre Galata, já que estava ali do lado, e achamos muito bonita. Houve boatos de que a vista lá de cima também era bonita, mas achamos a entrada cara e decidimos não subir.

Torre Galata ao fundo

Torre Galata ao fundo

O preço das coisas pra turistas é bem alto por lá. O valor de 1 lira turca na época era praticamente o mesmo de 1 real, e como na época eu recebia em euros, achei que eu ia virar sultana por lá, mas quando chegamos descobri que ocorre o mesmo fenômeno que no Brasil: a moeda é desvalorizada com relação ao euro e ao dólar mas as coisas são caras. Tudo, tudo, tudo que fosse minimamente atraente pra turistas cobrava entrada, e uma entrada bem cara. Muitas coisas tivemos que optar e deixamos de ver, como a vista da torre Galata. Comida em restaurantes ajeitados era a mesma coisa. A gente se acabou de comer os melhores kebabs de rua (em toda esquina) e os mais fresquinhos sucos naturais feitos na hora em banquinha de rua (em toda esquina também), que tinham preços locais. A um certo ponto chegamos a comer um kebab de 1,50 TL (2 TL o combo com ayran, uma bebida de leite fermentado que eles tomam muito pra acompanhar a comida) mas eu recomendo dar valor ao seu paladar e desembolsar mais 2 TL por um kebab decente.

Mesmo não subindo no topo da torre, ela fica em uma região alta e conseguíamos ver o mar lá de cima. Fomos seguindo naquela direção na rua mais larga que encontramos e quando chegamos lá em baixo vimos que tinha um cais com alguns barcos que serviam de lanchonete, era tipo carrinho de dog só que na água! Eles vendiam o balik-ekmek, um sanduíche simples de peixe. Mas na real o lugar estava meio vazio, só tinha pescadores ali.

Era um cais comum como outro qualquer, com cheiro de porto, barcos velhos, gente pescando, peixe morto nas caixas de isopor e sujeira nas ruas ao redor. Eu tinha na minha cabeça uma ideia besta e inocente de que só ia ver palácios e tapeçarias e que todas as construções seriam de mármore, mas é claro que o que existe em volta dos antigos palácios é uma cidade de verdade, gente de verdade, vidas de verdade acontecendo. O pedala que minhas expectativas levaram nessa hora serviu pra eu ver quão pequena minha visão de mundo ainda era (algum dia deixa de ser?), e descobrir de uma vez que abraçar a realidade é uma parte de qualquer viagem tão importante (se não mais!) quanto tirar foto de cartão postal. Falando agora parece óbvio, mas na época foi uma descoberta pra mim.

Refletidas num dos cafés sob a ponte Galata. Foto: Julia Zettel.

Refletidas num dos cafés sob a ponte Galata. Foto: Julia Zettel.

Passado o choque de realidade, seguimos adiante. Logo em frente estava a ponte Galata, que atravessamos primeiro por cima, tentando desviar das linhas das centenas de pescadores na calçada ao longo dos dois lados de toda a ponte e cuidando com as caixas de isopor deles cheias de peixes. Do outro lado fica o distrito de Sultanahmet, a cidade velha. Queríamos ver essa parte com calma e já estava ficando tarde, então resolvemos voltar. Só que dessa vez viemos pela parte de baixo da ponte, que é cheia de bares e restaurantes de ambos os lados, a maioria com pufes enormes e pessoas esparramadas neles fumando narguile, que seria ideal para um fim de tarde e fim de passeio se a gente tivesse dinheiro pra beber ali hehe.

No dia seguinte, aí sim eu vi a Istambul do meu imaginário. E essa fica para um próximo post 😉

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