Causos e reflexões Estados Unidos

Sobre o efeito “magia” da Disney

Estou aqui na ansiedade para a segunda entrevista pro Super Greeter na segunda-feira, e estava olhando algumas fotos do meu ICP e lembrei de algo bem interesante sobre ser Cast Member.

Quando você vai pra lá como guest, tudo é lindo e mágico e você volta a ser criança e enxega aquilo tudo como verdade. A impressão que dá dentro de um parque da Disney é que você está em outra dimensão, fora da realidade. Isso também acontece quando você visita os parques como CM, mas é um pouco diferente.

Certo, todos somos adultos e todos sabemos que tem uma pessoa comum dentro daquela roupa de Mickey, mas quando somos guests nosso cérebro se esforça para esquecer isso e emocionar você quando você vê o rato ou sua princesa preferida.

Foi o que aconteceu comigo da primeira vez que visitei os parques. Eu tinha nove anos e meu irmão, seis. Apesar de ser criança e ter esperado aquela viagem como nunca tinha esperado algo na vida, eu já sabia que nada daquilo era de verdade. Mas chegando lá, esqueci tudo e me senti a criança mais importante do Magic Kingdom quando as fadas de A Bela Adormecida sacudiram as varinhas cheias de pixie dust na minha direção durante a parada Spectromagic.

Meu irmão, sendo mais novo, acreditou em tudo, a ponto de ter um ataque de pânico no brinquedo do Tubarão da Universal, e de ter a história mais fofa do universo. No Epcot, almoçamos no restaurante Garden Grill, do pavilhão The Land, onde o Mickey, a Minnie, o Tico e o Teco vestidos de fazendeiro ficam andando pelas mesas e brincando com os guests. Tiramos fotos e pedimos autógrafos, naturalmente. No dia seguinte, em outro parque, vimos o Mickey passando, e ele se virou para o meu irmão e deu um tchauzinho. Nisso, meu irmão solta “Olha mãe, ele lembrou de mim!”

Dez anos depois, voltei para a Disney, mas para trabalhar, e a coisa mudou de figura. Como CM você vê a realidade muito mais de perto. Você pode ter amigos que trabalham como character (eu conhecia um Gênio da lâmpada e um Tigrão), pode entrar nos backstages dos parques e ver coisas que quebram a ilusão de qualquer um (vi a Cinderella fumando, a Ariel toda maquiada e pronta mas de camisa xadrez e o Pato Donald carregando a cabeça debaixo do braço, e há quem tenha visto dois princípes se beijando), e é inevitável ficar sabendo de alguns truques e lendas do complexo (você sabia que a Sininho que desce voando da torre do castelo durante o Wishes é interpretada por um homem?).

Eu cheguei lá sabendo de tudo isso. Não deixava de ver a beleza nas coisas e de me emocionar mesmo assim, mas o tempo todo eu estava consciente de que era tudo mentira. A mentira mais bonita e feliz e divertida do mundo, mas uma mentira.

Até que, faltando uma semana para terminar o ICP fui assistir pela segunda vez ao show da Bela e a Fera do Disney’s Hollywood Studios. Já havia visto na primeira semana do programa e achado bonitinho porém chato. Quando vi pela segunda fez, o efeito da saudade por antecipação foi arrebatador. Eu não via atores e cantores profissionais, eu via a Bela, via a Fera, via Gaston e todos os outros. Chorei do começo ao fim do negócio e saí de lá tremendo me sentindo com 9 anos de idade de novo.

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Aos seis anos, como era o caso do meu irmão, é compreensível que se veja tudo aquilo como real. Mas eu não sei o que causa nosso cérebro a fazer essas coisas depois que já somos adultos. Só posso dizer que ainda bem que faz, porque acreditar que o mundo é lindo e perfeito e mágico, mesmo que só por duas semanas ou dois meses, faz bem pra saúde.

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