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Slow travel: uma forma diferente de viajar

Na minha primeira viagem à Europa, fui com minha avó e minha tia em uma excursão organizada por uma agência de viagens. Visitamos 5 países e 13 cidades em 15 dias. Amei tudo naquela viagem, afinal eu estava realizando um sonho junto com pessoas que amo, vendo coisas novas e tendo a oportunidade maravilhosa de praticar de verdade meu francês e meu italiano ainda pouco desenvolvidos.

Mas foi só depois de voltar pra lá, num intercâmbio, que eu percebi que na verdade não havia conhecido muito bem nenhuma daquelas cidades. Claro, o ônibus da excursão nos levou para todos os pontos turísticos considerados importantes, fomos a bons restaurantes e fizemos passeios incríveis, sempre junto com o grupo. Mas tudo naquele esquema: desce do ônibus, 10 minutos pra tirar foto, volta pro ônibus. Nas cidades menores e que tinham menos atrações de cartão postal, não chegávamos a ficar nem uma tarde inteira.

Posso dizer que já estive em Pádua, na Itália, por exemplo, mas não posso dizer que conheço Pádua porque não vi literalmente nada além da Basílica de Santo Antônio. Posso dizer estive em Verona nessa mesmo viagem, mas foi só quando voltei lá e passei um dia inteiro, rodei tudo a pé e dormi na estação de trem pra ver um show de rock na Arena que eu pude me sentir mais segura pra dizer que conheci Verona razoavelmente bem.

Ângulo da Basílica de Santo Antônio: única foto que tirei em Pádua

Ângulo da Basílica de Santo Antônio: única foto que tirei em Pádua

Tenho pra mim que a diferença entre estar de passagem em uma cidade e realmente conhecê-la depende de um simples fator: o tempo.

Quando a gente viaja, o mais comum é querer ver tudo o que há pra se ver, no menor espaço de tempo possível, pra fazer valer o rico dinheirinho que a gente investiu nas nossas férias.

O slow travel é uma maneira de viajar que prega o contrário disso.

“Viajar devagar” é uma tendência de estilo de viagem que vem se tornando cada vez mais popular. Ela permite que você se insira no ambiente como parte dele, e não como espectador que vê tudo de fora, normalmente pelas lentes da câmera ou do celular. Sentar pra tomar um café e ficar horas ali observando o movimento, em vez de comer correndo porque você ainda tem 4 igrejas para visitar naquela tarde antes que escureça, é só um entre infinitos exemplos.

Uma cidade linda que tive a oportunidade de conhecer devagar foi Barcelona.

Eu e minha amiga Patrícia ficamos 8 dias lá, mesmo ouvindo de todo mundo que “não tem nada pra fazer lá esse tempo todo”. Bom, se não tinha, a gente inventou o que fazer, porque foram 8 dias de disfrutar de la vida al maxim i ser feliç, como diriam os catalães.

Os catalães é que sabem viver

Os catalães é que sabem viver

Encontrar nossa hospedagem através do Couchsurfing ajudou muito nesse ~desfrute. Primeiro porque a casa do nosso anfitrião ficava longe, e com isso a gente demorava bastante pra ir e voltar de lá. Se tivéssemos menos dias na cidade, teríamos visto essas viagens como a perda de um tempo precioso, mas em vez disso, todas as vezes encontrávamos alguma coisa no que reparar dentro do metrô, fossem as placas em catalão ou os usuários do transporte público. Segundo porque às vezes dependíamos dos horários do Javito, o que nos lembrava à força de que estávamos em uma cidade de verdade onde as pessoas vivem e trabalham, e não dentro de um gigantesco cartão postal com pontos turísticos, praias e baladas.

Ter mais tempo também nos permitiu fazer amigos de formas menos convencionais.

Quando fomos ao Parc Güell, estávamos justamente discutindo como essa viagem estava sendo bem aproveitada por causa do fator tempo. Naquele dia, acordamos às 11, fizemos um brunch na casa do Javito, e quando chegamos ao parque ficamos rodando por lá meio sem rumo, como quem visita um parque só pra ficar no sol e curtir a natureza, sem muita pressa pra ver todas as instalações do Gaudi uma depois da outra.

Depois de alguns minutos de caminhada resolvemos nos dar ao luxo de parar e sentar para comer um lanchinho. Barcelona é uma cidade incrivelmente musical, e a cada tantos metros no parque havia uma banda de músicos de rua se apresentando. Sentamos bem na frente de uma delas, que por sinal estava arrasando demais num fusion de reggae com jazz, performando com uma energia maluca. Estávamos curtindo demais o som, e ficamos lá até a hora da banda fazer uma pausa.

Banda Mananers destruindo o contrabaixo no Parc Güell

Banda Mananers destruindo o contrabaixo no Parc Güell

Nessa pausa, eles arrumando os instrumentos e conversando, o cara do cajón  veio falar com a gente. Descobrimos que ele era brasileiro de Salvador e já morava em Barcelona vivendo de música havia anos. Eles nos deram um dos CDs da banda que eles estavam vendendo e ainda chamaram a gente pra uma jam session naquela noite.

Nos outros dias, muitas vezes a gente parava em algum parque ou praça só pra ficar à toa descansando, apesar de acordar tarde todo dia. Ter sempre água e um lanchinho na bolsa era sempre uma boa desculpa pra um piquenique 🙂 Acho que só no Parc de la Ciutadella fomos duas vezes, com o objetivo de não fazer absolutamente nada.

Dando um relax no Parc de la Ciutadella

Dando um relax no Parc de la Ciutadella

Outro rolê que demos só porque tínhamos tempo pra isso foi descer do Castell de Montjuïc a pé. Podíamos ter pego um ônibus, mas foi muito mais legal (e de graça!) descer a pé. No caminho, passamos pelo  Jardim Botânico e gente, que coisa maravilhosa.

Vista do Jardim Botânico de Montjuïc

Vista do Jardim Botânico de Montjuïc

Se estivéssemos com o tempo contadinho, acho que nem o Castelo a gente teria visto, quanto mais esse lugar lindo.

Mas você não precisa ter tempo sobrando pra viajar devagar

Nem sempre dá pra viajar e ficar uma ou duas semanas na mesma cidade, né? Às vezes a gente viaja com o tempo que tem, nem que seja só um fim de semana. Mas mesmo com menos tempo, é completamente possível ter uma experiência de slow travel. 

Observe: não tente ver e fazer tudo. Tire um tempo pra sentar no banco da praça, ou no café do exemplo lá de cima, e só observar o movimento.

Evite hotéis: busque uma hospedagem que te obrigue a fazer compras e cozinhar sozinho, por exemplo, e interagir com os moradores vizinhos. Couchsurfing e Airbnb são ótimas opções.

Fale com as pessoas: nem que seja um bom dia esperando o metrô, pedir ajuda pra se localizar etc. Você pode se surpreender com o que sai dessa interação. Foi numa dessas, por exemplo, que encontrei companhia pra assistir ao show do Ligabue em Verona.

Vá a pé, de bike ou de transporte público: demora mais, mas a sua relação com a cidade é completamente outra.

E o que eu considero o mais importante:

Faça o que você faria em casa: se passeando pela sua cidade você normalmente faria um piquenique no parque, faça isso na cidade que você está visitando também. Já pensou em cortar o cabelo ou fazer uma tattoo nova durante uma viagem? Também é uma experiência legal.

O importante é não se afobar. Nenhum ponto turístico é “imperdível”. Você pode deixar de ver aquele museu, sem culpa, se isso significa que você terá mais tempo pra curtir de verdade aquela pracinha que você amou, ou para conversar melhor com a vendedora daquela loja que tem uma história interessante pra contar. São essas coisas que fazem uma viagem ser realmente memorável.

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2 Comentários

  • Responder
    Patrícia
    7 de abril de 2014 às 01:02

    Eu tenho um amigo que sempre diz “deixa pra ver depois, é um motivo pra voltar…”
    Enquanto eu lia só pensava em como a gente conseguiu gastar horas tirando foto pulando no Museu de Arte Moderna. Deve ter umas 20, mas não consigo apagar nenhuma porque todas estão hilárias. Enfim, são só fotos clichês de viagem, mas me fazem lembrar da gente rindo muito do próprio ridículo e se lixando pra quem tava sentado olhando a gente fazer a mesma coisa mil vezes, sair correndo, dizer que ficou ruim e repetir.
    Mas o que mais me marcou foi o Bairro Gótico. Acho que a gente passou por ele todos os dias. O primeiro contato foi aquele com um amontoado de prédios bonitos e a obrigaçao de tirar foto de tudo. O segundo foi durante o walking tour e a gente de cara a cada parada (quase chorei na frente da igreja cheia de tiros). Depois disso era se dar ao luxo de passar de novo, conhecendo a história e juntando com alguns “causos” pessoais.
    Um outro exemplo (esse não foi com você =/ ) foi ter reclamado um percurso inteiro de que era inútil desperdiçar um dia em Pisa, já que uma parada rápida pra tirar foto da torre bastava. A primeira coisa foi ter ficada de queixo caído porque ao vivo impressiona de verdade. A segunda foi ter passado o dia inteiro sentada na frente dela, conversando, fazendo pic nic, tirando foto (dezenas de fotos tentando sair pulando sem sucesso).
    Acho que o que fica a mais nessas Slow Travel é ter tempo de ter uma história sua pra contar ali. Ao invés de voltar dizendo “o lugar e a história dele são incríveis” é poder dizer que fez coisas incríveis ali =D

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      7 de abril de 2014 às 10:41

      Guria, eu sempre lembro que a gente ficou um puta tempão sentada na frente da Sagrada Familia antes de entrar só pra tomar um cafezinho do McDonald’s e tirar umas selfies, enquanto as excursões passavam apressadas do lado. Ainda ficamos reparando na vida dos outros ali =P

      E o Bairro Gótico, eu sinto que conheço como se morasse lá, de tanto que a gente passou por ali, nem que fosse só pra voltar e comer aquela pizza! Estou guardando essa parte pra um post separado, aguarde! Mwahahaha

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