Você já viu como trabalhar na Disney, agora você vai ver o porquê.

Quando fiz o programa, 2008/2009, ele ainda se chamava International College Program, o consagrado ICP. Antes de ir eu li todos os blogs na internet sobre o assunto (é sério, uma hora ficou chato porque eu não achava mais blog que eu não tinha lido ainda), então já sabia muita coisa sobre o programa. Isso me permitiu a liberdade (e a imbecilidade) de achar que eu já sabia tudo e nada ia me pegar de surpresa, e me permitiu cair do cavalo também.

Eu achava, por exemplo, que ia morar em Orlando.

A começar pelo fato de que o complexo Walt Disney World não fica exatamente em Orlando, mas sim num município vizinho chamado Lake Buena Vista. Mas não adiantou nada eu saber disso, já que o complexo podia ficar em Quixeramobim que eu ia continuar não morando em lugar nenhum deste mundo, e sim na Disney. Ninguém vai pra esse programa e mora nos EUA, a gente vai pra lá e mora na Disney.

Essa viagem interdimensional ocorre por uma série de fatores. Começa que você mora num condomínio que mais parece uma regional inteira de tanta gente, e todos os seus vizinhos, os que você conhece e os que você não conhece, trabalham na Disney. Você sabe que ali por perto tem outros três condomínios bem parecidos e que servem a mesma finalidade.

Condomínio em outra dimensão
Condomínio em outra dimensão

Além disso, a propriedade é imensa (o município foi criado a mando da Disney pra você ter uma noção) e o transporte público para fora dela é bastante falho. Sem idade suficiente pra alugar um carro e sem dinheiro suficiente pra andar de táxi, a gente fica bastante dependente dos ônibus “gratuitos” (o custo da infraestrutura está incluso no seu aluguel) que a Disney fornece pra conectar os quatro condomínios aos parques, hotéis e Downtown Disney. Também tem um que vai pro Walmart e outro que vai pro Florida Mall, mas nada muito além. Por perto dos condomínios tem McDonald’s, Wendy’s, Walgreens, polícia, bombeiros e até um Premium Outlets, mas em todo lugar tem algo que te lembra que você não está numa cidade de verdade, e sim na Disney.

Junte a tudo isso o fato de que você perde a noção do tempo por sair do esquema 2-5-2 de folgas aos sábados e domingos e trabalho das 8h às 17h, e junte também a consciência sempre latente de que são só três meses, e pronto, está criada uma nova dimensão de tempo e espaço da qual você está sempre ciente de que vai voltar logo.

E vou confessar que eu adorava essa sensação. Fazer os visitantes se sentirem exatamente assim, numa atmosfera externa à realidade, em seus hotéis e parques é o objetivo da Disney, e eu acho fantástico ter me sentido assim mesmo estando “do outro lado”, do lado que tem a responsabilidade de criar essa atmosfera. Pode chamar de alienação porque é isso que é mesmo, e em verdade vos digo que três meses de férias da realidade é libertador.

Eu achava que ia trabalhar na Main Street U.S.A. olhando pro castelo da Cinderela 24h por dia.

Meu escritório não era no parque
Meu escritório não era no parque

Ainda bem que não!

Antes de ir, você é informado da sua role, sua área de atuação, então eu sabia que ia ser merchandising. Mas onde exatamente você vai trabalhar é um suspense que só será revelado uns bons três ou quatro dias depois da chegada. Até eu saber disso, fiquei fantasiando essa vista maravilhosa no lugar mais feliz do mundo, vendendo balão de 15 dólares pras crianças mais felizes do mundo que têm os pais mais felizes do mundo em gastar 15 dólares num balão.

Quando recebi o papel que dizia que eu ia trabalhar no Downtown Disney foi como abrir um daqueles cartões de Natal que toca musiquinha, a musiquinha no caso sendo o trombone da decepção. Ironicamente, cartão de Natal que toca musiquinha era o único clichê natalino que a Disney’s Days of Christmas, loja de Natal em que eu de fato trabalhei e vim a amar, não vendia.

A loja vendia todo tipo de artigo natalino com tema Disney durante o ano todo, e meu trabalho era ficar no caixa, passar as compras dos guests (visitantes) e embalar tudo, porque tudo que vendia na loja era frágil. Às vezes eu arrumava o estoque ou fechava a loja, mas era bem raro. Em merchan você ainda é incentivado a fazer o que a Disney chama de “merchantainment“, ou seja, entreter pra vender. Isso significa que você pode usar os chapéus da loja, por exemplo, brincar com as crianças usando os bichinhos de pelúcia e acima de tudo se divertir muito enquanto trabalha! Conversar, dar atenção e tratar muito bem os guests fazem parte de tudo isso.

Sem dúvida o maior aprendizado que levei do programa em questão de trabalho (porque de vida teve outros maiores) foi saber o que é atendimento ao cliente de verdade. A Disney se desdobra pra deixar o visitante feliz. Na loja, por exemplo, tudo era frágil, então todo dia alguém quebrava alguma coisa sem querer, e muitas vezes a gente tinha que insistir pra convencer a pessoa de que ela não precisava pagar o que quebrou. Quando era uma criança que quebrava algo e os pais davam um esporro muito tenso, rolava de dar algum brinquedinho de presente pra ela se sentir melhor e ver que não tinha problema quebrar aquilo, foi um acidente, tá tudo bem. O visitante é mimado nesse nível. Afinal, o que são 12 dólares em uma bola de Natal, pra uma empresa multimilionária, perto da satisfação do cliente? Acho fantástico.

Eu achava que não ia fazer amigos pra vida toda.

Um dos maiores argumentos que eles usam pra vender esse programa é o de que você vai fazer amigos pra vida toda. Haha, tá boa? Capaz. Nem na escola eu fiz tantos amigos pra vida toda, vou fazer num programa de trabalho de três meses com gente que mora longe? Eu simplesmente não tinha essa expectativa, e talvez seja por isso que até hoje eu tenha amigas que conheci no programa com quem eu falo quase diariamente.

Antes de ir, conheci os outros cast members aqui de Curitiba, fomos juntos a todas as reuniões de preparação da STB, fizemos meetings e fomos juntos tirar o visto na viagem de van fretada mais engraçada da minha vida. Por causa dessa conexão inicial, eu achava que eles seriam meus amigos mais próximos durante todo o programa, que a gente ia passar o tempo inteiro juntos e outros devaneios do tipo. O que eu não contava era com a onisciente sabedoria Disney, que escreve certo por linhas tortas.

Já no aeroporto, na chegada, o pessoal da Disney que veio nos receber já separou ali mesmo quem ia morar em qual condomínio. Alguns foram pro Chatham Square, todos os meus amigos de Curitiba foram pro Vista Way, e eu fui praticamente sozinha, com mais umas três gurias, pro Patterson Court. E mal sabia eu que “lei Disney dos encontros” é o que rege qualquer interação social.

O que ocorre lá é que seus amigos mais próximos vão com certeza ser seus coworkers (colegas de trabalho), roomies (colegas de quarto) e pessoas que tenham horários parecidos com os seus. No começo, quando ninguém trabalha ainda, ninguém precisa conciliar shifts (turnos) noturnos ou de 10 horas seguidas e todo mundo está livre nos mesmos dias, em vez de cada um ter seu próprio “final de semana” (o meu era toda terça e quarta). Depois que o trabalho começa, você vai se afinando mais com quem mora na mesma casa ou trabalha no mesmo lugar ou tem os mesmos horários. Não tem como ser de outro jeito porque o tempo ruge e a propriedade é grande, e pode parecer cruel falar isso, mas se você for depender de esperar fulano ou ciclano saírem do trabalho pra fazer alguma coisa, acaba não fazendo nada.

No começo, com mais tempo livre, eu andava sempre com meus amigos curitibanos, mas depois que começamos a trabalhar, acabei saindo com eles muito menos e fazendo outros amigos de quem me aproximei mais. Continuava gostando demais deles, mas os horários e a dificuldade de morar num condomínio diferente simplesmente não batiam.

Minhas melhores amigas por lá acabaram sendo minhas roomies, as queridas que moravam comigo no Patterson Court, aquele condomínio em que no começo eu achei que fosse ficar isolada. Além de morarmos na mesma casa, tínhamos os mesmos horários. Todas chegavam em casa lá pela 1 da manhã, fazíamos janta ouvindo Spice Girls (era o único CD que tínhamos, comprado no Walmart por 5 dólares) e ficávamos conversando até altas horas da madruga. Era um ritual simples e lindo, que eu definitivamente não imaginava antes de ir e que definitivamente definiu o programa pra mim.

Roomies Mari e Ary. Amigos pra vida toda não é propaganda enganosa.
Roomies Mari e Ary. Amigos pra vida toda não é propaganda enganosa.

Eu achava que ia me divertir como se estivesse de férias na Disney.

Vocês acreditam se eu falar que me diverti mais? Participar desse programa é fazer slow travel na Disney. Quando você vai de férias, normalmente tem um dia em cada parque e acabou. E aí é correr de um lado pro outro tentando não perder nada e: a) se frustrar porque é impossível aproveitar absolutamente tudo em um parque em um dia; ou b) sair de lá de alma lavada tendo visto o mais importante e com vontade de voltar pra ver o resto.

Quando você fica três meses e tem entrada liberada em todos os parques sempre que quiser, o Magic Kingdom vira o seu quintal. De verdade. Meu shift começava às 17h todos os dias, então sempre dava pra ir pra algum parque antes, ou mesmo ficar ali pelo próprio Downtown Disney. Na grande maioria das vezes em que eu ia em algum parque, nem ia em brinquedo nenhum. Só via algumas lojas, comia alguma coisinha vez ou outra, mas sempre tirava fotos. Via o Wishes, show de fogos do MK, no mínimo uma vez por semana. O engraçado é que sempre tinha algum conhecido, como se fosse aquele bar onde todos os seus amigos vão. Voltamos então à realidade alternativa da Disney.

Outro rolê legal era ir passear pelos hotéis da Disney, ficar na piscina (tecnicamente é proibido, mãs…), comer nos restaurantes e tomar café da manhã temático com os personagens. Você não vai fazer isso quando estiver de férias, então a hora é agora. Parece chato passear em hotel, mas vamos lembrar mais uma vez de que estamos na realidade alternativa da Disney e tem até um hotel que é zoológico 😛

Além disso, de férias você jamais poderia ficar num condomínio cheio de gente da sua idade fazendo festa toda noite. Eu era super “caseira” quando fui e só pensava em parque, então não fazia muita questão de festas, pero que las hay, las hay. É só ir. Fora isso ainda tem as baladas. A House of Blues fica no Downtown Disney e domingo ela é o ~point dos cast members. Só fui lá uma vez, e esse foi o baile real que me rendeu meu próprio conto de fadas Disney, mas divago. A questão é que todo domingo você entra na balada de graça, mesmo sendo menor de idade.

É claro que nem todos os dias são mágicos, vai ter dias que você vai estar off (de folga) e não vai querer ver ninguém nem fazer parte de nada. No dia de ano novo eu tava triste por uma série de coisas, então fui sozinha no Animal Kingdom, comi um rango maravilhoso no Yak & Yeti, depois fui pro Downtown e assisti a dois filmes no cinema pagando um bilhete só. Chorei de soluçar no segundo filme inteiro e ainda fiz uma amiga que também estava sozinha e também estava chorando no final do filme. Também vai ter dias que você vai ter muita raiva do seu trabalho, do frio, dos ônibus, dos roomates, de não estar em casa.

Mas vai chegar o final do programa, você vai ver um personagem e enxergar o personagem de verdade e não uma pessoa dentro de uma fantasia, e em vez de pensar que a lavagem cerebral está completa, você só vai ser grato por tudo o que viveu, e vai voltar pra casa com aquela saudade apertando, sabendo que mesmo que você volte de férias ou pra outro programa, nada nunca vai ser igual àqueles três meses. Aquela realidade não volta nunca mais, e você sabe disso desde o primeiro dia, mas acha melhor não pensar nisso até o dia de ir embora. Faz bem. O melhor é mesmo aproveitar o quanto pode, pra depois chorar no último Wishes e ir pra casa de coração lavado.