Causos e reflexões Dicas de viagem

O preço de comer de graça

Vou só jogar umas ideias aqui pra vocês hoje e aí vocês decidem o que fazer com essas informações, tá?

Você provavelmente já ouviu falar que quantidades absurdas de comida são desperdiçadas no mundo todo. Mas você sabia que essas quantidades absurdas chegam a 40% (dados da WFP)? Pense, apenas pense, no quanto isso custa em termos de dinheiro, em termos de recursos naturais não renováveis, em termos de produção de resíduos e, principalmente, em termos da quantidade de pessoas no mundo que ainda passa fome. Pois é.

Um dos maiores motivos (não o único, é claro) pelos quais isso acontece é o fato de muitos países terem leis que obrigam os estabelecimentos a jogar fora tudo o que estiver prestes a vencer a data de validade. Eles não podem doar essa comida porque se alguém comer e passar mal, eles podem ser seriamente processados. Lembro que quando eu trabalhava na Disney a gente ficava desesperado com todos aqueles cupcakes e cookies maravilhosos indo pa-ra-o-li-xo todos os dias para dar lugar aos que seriam feitos no dia seguinte. Vez ou outra algum gerente legal deixava o pessoal levar alguns pra casa escondido, mas era a exceção.

Aí que tem gente que sai à caça dessa comida que está perfeitamente boa para consumo mas vai parar no lixo. Gente que trabalha e tem condições de comprar cupcake fresquinho, mas prefere não gastar do seu próprio dinheiro e nem colaborar com todo esse desperdício. Gente que viaja.

Fiquei sabendo de tudo isso neste post do Matador (de novo hehe). Lá a autora, Jamie Bowlby-Whiting, explica direitinho como catar comida do lixo e o que catar do lixo. O mais importante, segundo ela, é procurar em lixeiras de grandes supermercados e padarias, porque é lá que você vai encontrar pacotes ainda fechados com data de validade daqui a uma semana, além das frutas e verduras meio amassadinhas que ninguém quis comprar (a famosa xepa). Ela diz ainda ter encontrado pacotes de pão, potes de iogurte, potes de cream cheese, e até barris de cerveja, tudo ainda lacrado.

Barris de cerveja "reciclada" amarrados na bike. Fonte: Jamie Bowlby-Whiting

Barris de cerveja “reciclada” amarrados na bike. Fonte: Jamie Bowlby-Whiting

Pra você que já tem todas as manhas de pegar carona e dormir na casa dos outros, está aí o que faltava pra você viajar completamente de graça.

É bem difícil se libertar do estigma social que é inevitavelmente carregado com a frase “passei uma semana em outro país comendo do lixo”. E também não sei dizer até onde ou de que forma isso funcionaria no Brasil, até porque a maioria das lixeiras comerciais daqui são trancadas justamente para evitar que o lixo seja revirado por catadores de latinha (foda). Sei também que por aqui o desperdício não é tão grande, e existem sim supermercados e padarias que doam “o de ontem” (e até o de hoje) para instituições de caridade.

Alguma coisa em mim sente que fazer isso de brinks chega a ser ofensivo com quem faz isso pra sobreviver, mas com uma cabeça aberta a experiência pode servir pra mudar algumas visões de mundo, saindo um pouco do nosso ponto de vista privilegiado e deixando de ser tão bundão na vida e na sociedade.

De qualquer forma, a ideia não me repugnou assim totalmente. Mas ainda não desenvolvi colhões o suficiente (ou expandi minha zona de conforto o suficiente) para fazer isso. E você? Já fez algo parecido? Pensa em fazer? Me conta!

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2 Comentários

  • Responder
    Patricia
    24 de janeiro de 2014 às 16:18

    Olha, depois de 2 anos e meio estudando na França (um deles com você) essas coisas viram tão naturais que eu fico chocada com a cara de “nojinho” das pessoas.
    Não, nunca peguei comida do lixo, mas como por aqui estudar e trabalhar é quase imporssível, a gente se vira como pode pra poder viver com uma bolsa/salário mínimos, e pra isso tem que parar com a frescura.
    No Brasil eu jamais compraria produto da marca do mercado ou, pior, sem marca. Aqui tudo vale: desde o papel higiênico (que tanto faz, né?) até pão, manteiga, enlatado, etc.
    Entrar na fila da distribuição da cesta básica é o compromisso sagrado do mês. Pode ser o da Cruz Vermelha, o da Associação de Estudantes Muçulmanos ou Evangélicos. Não satisfeito em pegar comida pra vencer ou legume meio batido? A gente fica lá fora esperando todas as pessoas irem embora e pegar o que sobrou da distribuição alimentar. A abundãncia vira o jantar da galera e o escedente vai pros amigos que não puderam ir buscar a sua.
    Roupa, livro, sapato, bolsa, prato, talher, forno… Tudo do brexó!
    Só que acho que isso só funciona porque todas as pessoas à minha volta utilizam o mesmo sistema. O peso do olhar e do julgamento dos outros acaba sendo maior do que o nosso próprio “nojinho”. Quando disse pra minha mãe (pessoa simples até demais) que tava indo numa distribuição alimentar, ela ficou seriamente preocupada e queria me mandar dinheiro (que nem tinha) a todo custo. Um outro amigo meu, durante uma conversa pelo skype, disse na minha cara que tava com pena de mim e perguntou porque eu não voltava pro Brasil.
    Quando contei que ia no brexó, meu amigos franceses torceram o nariz sem medo de me constranger. Mas foi passar 3h horas lá dentro que saíram cheio de bugigangas e felizes da vida…
    Mas também tem aquilo que vem da gente mesmo, uma preguiça, essa coisa da zona do conforto do qual você fala. Quando peguei uma cadeira de escritório da calçada passei horas até poder sentar nela. Primeiro a vergonha do onibus que passava cheio de gente com olhares reprovadores porque eu tava juntando lixo (até parece que sou tão importante assim), depois a decepção de criança mimada porque a cadeira tava meio rasgadinha, depois a preguiça e o nojinho de limpar o forro de couro porque aparentemente um gato resolveu marcar o território dele ali, e por aí foi. Seis meses depois, a pessoa pra quem eu dei a cadeira sem contar a procedência saiu mais do que feliz, sem se perguntar de nada: pegou uma cadeira limpa de um quarto limpo dada por uma pessoa limpa. No fim é tudo uma questão de mater as aparências…

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      24 de janeiro de 2014 às 22:59

      No fim, tudo se resume a isso mesmo: o peso do julgamento externo, que acaba influenciando o nosso autojulgamento interno também.

      Eu mesma peguei uma mala do lixo quando estava na França. Limpei bem, enfiei todas as minhas roupas dentro, e você ainda me ajudou a arrastar até o ponto da navette que levava pro aeroporto 😛

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