O espírito travel monster

Cada um de nós está preso dentro de uma gaiolinha chamada “zona de conforto”. Cada um tem a sua, no tamanho que lhe convém. O primeiro grande truque dessa gaiola é que ela não pode ser vista nem tocada, o que faz com que a gente muitas vezes nem perceba que ela está ali e nos dá uma falsa sensação de liberdade e controle das nossas atitudes. Ela funciona como um campo de força ao redor dos nossos pensamentos e comportamentos mais seguros, aqueles que nunca nos trarão nenhum tipo de incômodo, ansiedade ou medo, e nos deixa quietinhos, calminhos e (supostamente) seguros ali dentro, disparando um alarme cada vez que tentamos sair.

O segundo grande truque dessa gaiola é o mais perigoso: somos nós mesmos que a construímos. Nós mesmos colocamos essas barreiras imaginárias do que pode e o que não pode falar, fazer, vestir. Muitas dessas barreiras estão lá porque é dentro delas que podemos ser aceitos em sociedade. Outras tantas servem para nos manter fora de perigo e garantir nossa sobrevivência. Mas uma parte considerável da nossa zona de conforto é apenas isso: uma gaiola que tolhe nossas liberdades e dificulta nosso crescimento.

O travel monster é como eu gosto de chamar carinhosamente a força contrária a essa gaiola. É o que está por trás daquela faísca de ousadia (liberdade?) momentânea que você sente quando solta as duas mãos do guidão da bicicleta pela primeira vez, por exemplo.

O travel monster por si só não ultrapassa a sua zona de conforto, o que ele faz é incentivar você a expandi-la, de forma que cada vez mais atitudes e comportamentos que antes pareciam inimagináveis passem a parecer algo que você fez a sua vida toda.

Mas ao contrário do que o nome indica, você não precisa sair do seu país, nem mesmo da sua cidade pra deixar seu travel monster crescer feliz e saudável. O travel monster vai muito além de uma viagem geográfica propriamente dita. Ele se faz presente nos pequenos atos de desafio à rotina e aos seus padrões autoimpostos. Ele está lá quando você ultrapassa seus limites mais básicos ou enfrenta seus medos mais profundos.

Claro, isso fica muito mais evidente durante uma viagem, porque esse é um momento em que você se obriga a pisar fora da sua zona de conforto, dando passos pequenos (como deixar o secador de cabelo em casa na hora de fazer a mala e passar uma semana com o cabelo ao natural sem se importar com o que os outros vão achar) e passos maiores (como visitar sozinho uma cidade onde você não conhece ninguém e não entende uma palavra da língua local). Mas o mais importante, o que dá força e energia constantes ao seu espírito do travel monster, são as coisas pequenas do dia a dia, aquilo que você faz num dia normal na sua própria cidade. Experimentar uma comida nova, puxar conversa com um desconhecido na rua, tomar um caminho diferente para ir trabalhar. Coisas que tenho certeza que você já fez.

Se este blog tem alguma aspiração, é a de servir como um singelo incentivo para você fazer amizade com o seu travel monster, dando um passinho de cada vez para fora da gaiolinha, e expandindo sua zona de conforto um pouquinho de cada vez.

Gosto de pensar que meu travel monster fica voando por aí e vez ou outra dá umas bicadas no trinco da minha gaiolinha pra me fazer sair um pouco mais. Eu quis registrar na pele pra nunca mais esquecer 🙂

Meu travel monster

 

2 Comentários

  • Responder
    Luísa Ferreira
    1 de janeiro de 2014 às 22:53

    “O travel monster por si só não ultrapassa a sua zona de conforto, o que ele faz é incentivar você a expandi-la, de forma que cada vez mais atitudes e comportamentos que antes pareciam inimagináveis passem a parecer algo que você fez a sua vida toda.” Tudo a ver com o que eu acredito e defendo lá no blog 🙂 hehe. Que bom que vais voltar à ativa nesse espaço novo! Fiquei feliz quando vi no feed que tinha atualização no Pictolírica 😉

    Beijo!

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      3 de janeiro de 2014 às 23:48

      Oi Luísa, que bom que gostou 🙂 Fico feliz!

      Beijo!

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