Bolívia

#Mochigrinação: Um passeio alternativo na Isla del Sol

Não foi fácil tomar essa decisão, mas estando doente desde Copacabana e só piorando, meu corpinho pediu arrego e não teve jeito de fazer um dos principais passeios da Isla del Sol: a trilha entre Challapampa e Yumani.

Então juntei minhas forças e saí daquele quarto, alugado na casa de uma senhorinha fofa, decidida a aproveitar a Isla del Sol do meu jeito, já que não ia dar pra aproveitar do jeito tradicional. Slow travel como questão de sobrevivência.

Comecei fazendo uma das coisas que mais amo no mundo e que, por questões de tempo, talvez não pudesse ter feito se tivesse optado pela trilha: tomar sol na praia.

Fica fácil esquecer que a gente não está no nível do mar

Fica fácil esquecer que a gente não está no nível do mar

Sim, era o tenebroso inverno andino, e sim, estávamos a 3800 m.a.n.m., mas eram 11 da manhã e estava maravilhosamente quente e sem nada de vento. Que fosse estar calor era uma coisa simplesmente impensável quando saí de Copa, então não trouxe biquini, mas deu pra ficar de short e camiseta e lagartear um pouco.

A praia fica a alguns metros do trapiche e é só perguntar pra qualquer pessoa por lá que eles vão te indicar. As pessoas aqui são super receptivas e você pode chegar chamando qualquer um de amigo que não tem tempo ruim. Ao longo da praia tem mais casas de locais oferecendo habitaciones, algumas vendinhas e uma lanchonete, e mais pra cima do morro dá pra ver até uma escola.

Veja aqui como chegar e onde dormir na Isla del Sol.

Fiquei um bom tempo deitada na areia na minha maravilhosa canga, curtindo o sol e ouvindo as crianças jogarem futebol na escola. De vez em quase sempre levantava pra usar o banheiro (2 Bs.) na vendinha. Não estava sendo fácil, amigos. Fiz um mini piquenique com as frutinhas, bolachinhas e água que trouxe de Copa e prossegui na minha árdua tarefa de viver a Isla del Sol de uma forma diferente.

Esse mal estar foi coisa séria, que acabou me deixando de cama durante 2 dias inteiros e impactando bastante a viagem. Ainda bem que, sendo mochileira bem preparada, eu tinha o Seguro Viagem da Mondial. No post Seguro viagem vale a pena? eu conto como me virei sozinha com a doença e mostro como contratar o seguro com desconto e ainda dando um help pra manter o blog.

Depois de horas, comecei a ficar entediada e já estava sentada pensando em ir arranjar outra coisa pra fazer quando dois caras passaram por ali passeando tranquillos e deram buenas, como todo mundo. Começamos a conversar, eu contei da minha viagem, e eles contaram da deles. Descobri que eram um uruguaio e um argentino que estavam morando numa barraca na praia havia três meses. Estavam viajando pela América do Sul vendendo artesanato e curtindo a vida. Senti uma vibe buena onda e falei que sim quando eles me convidaram pra ir com eles passear no barquinho a remo que eles queriam alugar.

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Eu poderia ficar com medo de eles me levarem para uma das várias ilhazinhas em volta e me estuprarem no meio do mato sem eu nem conseguir gritar por estar com falta de ar a 3800 metros de altitude? É claro. Infelizmente, da forma que nosso mundinho está hoje, essa é uma preocupação que sempre vai estar lá no fundo da mente de toda mulher viajando sozinha. Mas eu sentia que estava segura, e confiar nessa intuição era grande parte do meu projeto inicial da viagem. Se eu dissesse não, meu travel monster interno ficaria extremamente decepcionado.

Rachamos a grana do barquinho, que pode ser alugado com os donos das vendinhas na beira da praia e custa 25 Bs. a hora, e lá fomos nós. Topei porque eles prometeram se revezar nos remos enquanto eu ficava tranquilinha sentadinha tirando fotos e não precisaria fazer esforço nenhum, que era tudo o que eu precisava.

Fomos até uma das ilhotas que dá pra ver da praia, mas não tinha nada lá, só umas árvores, umas pedras, duas ovelhas (pois é) e muito lixo. O legal mesmo não foi o destino do passeio, mas sim o fato de estar num barquinho a remo no meio do Lago Titicaca, podendo olhar pra baixo e ver o fundo através aquela água clarinha, tomar um sol e ficar tranquila ali relaxando.

Voltamos para a praia depois de um tempo e o rolê todo durou coisa de duas horas. Eles voltaram para o acampamento onde estavam morando e eu voltei para a casinha da tia, depois de comer um sanduíche de frango (10 Bs.) na lanchonete do vizinho dela. Mais tarde, eles vieram me chamar pra beber no Alfonso com eles, mas esse era o albergue no alto do morro em que eu já não tinha conseguido chegar de manhã, agora então não chegaria nem de arrasto.

Nos despedimos, agradeci pelo encontro e combinamos de nos reencontrar em Cusco, que era o próximo destino deles. Eles estavam juntando dinheiro pra alugar uma casa e ficar por lá com uma galera por um tempo, e me convidaram pro rolê. Acabei não encontrando com eles quando cheguei em Cusco, mas ficou a lição importantíssima de confiar.

Porque eu me abri para a vida e fui espontânea, tive uma experiência bem bacana numa ocasião em que eu poderia estar deprê por não estar fazendo o que eu queria inicialmente. Além disso, pude trocar uma ideia legal com pessoas legais que tinham uma forma bem travel monster de levar a vida, um exemplo que com certeza vai ficar na minha memória.

Apesar de precisar definitivamente voltar pra Isla del Sol pra fazer essa maldita trilha e visitar melhor o lugar, esse dia, que não foi o que eu esperava da Isla, foi tudo o que eu esperava da mochigrinação.

Que história é essa de mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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