Bolívia

Mochigrinação Pt. 4: Me abana, Copacabana!

O roteiro original do meu mochilão tinha três pontos principais que eram fonte de muita alegria e antecipação. O primeiro deles era o Lago Titicaca, que muitos estudiosos/místicos dizem ser um vórtice muito forte da energia da Terra, em especial a Isla del Sol, que fica do lado boliviano deste lago que serve de divisa entre Bolívia e Peru. Não vou entrar nos detalhes místicos da coisa, pero que las hay, las hay e eu queria muito, muito mesmo visitar esse lugar.

Por isso, eu estava bem ansiosa e feliz quando acordei cedinho pra ir de La Paz a Copacabana, que é o principal ponto de acesso ao lado boliviano do lago. Mas aí eu comecei a sentir forte os efeitos da altitude. Enjôo e dor de cabeça tensíssimos que só tendiam a piorar, afinal Copacabana está 400 metros acima de La Paz. O ônibus mais gelado dos Andes também não ajudou, e eu passei a viagem inteira enterrada até o nariz em em um milhão de blusas e cachecóis.

Tente sentar do lado esquerdo do ônibus pra ter essa vista linda a viagem toda

Tente sentar do lado esquerdo do ônibus pra ter essa vista linda a viagem toda

Mesmo nas minhas condições precárias, rolou uma amizade com a boliviana que veio sentada do meu lado. Ela estava indo encontrar amigos na Isla del Sol, e eu me reconheci muito nela porque ela estava fazendo praticamente o mesmo rolê que eu faço quando vou encontrar amigos na Ilha do Mel.

Quando o ônibus parou para atravessar um trecho do lago de balsa, todo mundo teve que descer e pegar um barquinho pra cruzar o mesmo trecho. Eu e minha malaise sobrevivemos a esses 15 minutos de balancinho.

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Meu plano era chegar em Copacabana de manhã, passar a tarde e a noite no lugar, e zarpar pra Isla del Sol já na manhã seguinte. Mas, dadas as minhas condições, achei mais prudente tirar esse dia pra descansar, no dia seguinte visitar a cidade, e só no próximo ir pra Isla.

O ônibus deixou o pessoal bem na porta do Hotel Mirador, e eu, que mal consegui descer do ônibus e andar dez metros até a recepção, encarei a via crucis de subir  pro meu quarto. No primeiro andar eu já queria desistir, no segundo eu realmente desisti e fiquei sentada no degrau uns cinco minutos, no terceiro eu só cheguei de arrasto. Botar a mochila em cima da cama e trancar a porta foi uma vitória pessoal maior do que chegar no pico do Chacaltaya.

Depois de algumas tentativas desastrosas de mascar folha de coca pura (já que chazinho não tava resolvendo) e de alguns paracetamol e outros tantos litros de água ingeridos, capotei. Acordei em tempo de ver este pôr do sol maravilhoso da minha janela suja e agradecer pelo perrengue do terceiro andar.

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Já me sentindo um pouco melhor, achei prudente comer algo que desse sustança. Caminhei um pouco pela orla do lago e subi devagarzinho a Avenida 6 de Agosto. Essa é a ala turistão da cidade, com muitos restaurantes, cafés e lojinhas voltados para esse público.

Av. 6 de Agosto, o centrinho turístico da cidade

Av. 6 de Agosto, o centrinho turístico da cidade

Fui no El Pueblo Viejo, onde jantei uma tradicional, saudável, quentinha e deliciosa sopa de quinoa por 10 Bs.. A vantagem dos restaurantes turistão é principalmente: wifi. Aqui era bem melhor que o do hotel e eu consegui conversar com as pessoas em casa e receber um apoio moral nessa hora de perrengue. Depois disso fui dormir, já me sentindo muito melhor.

Esse mal estar foi coisa séria, que acabou me deixando de cama durante 2 dias inteiros e impactando bastante a viagem. Ainda bem que, sendo mochileira bem preparada, eu tinha o Seguro Viagem da Mondial. No post Seguro viagem vale a pena? eu conto como me virei sozinha com a doença e mostro como contratar o seguro com desconto e ainda dando um help pra manter o blog.

Explorando Copacabana

Acordei bem melhor e fui aproveitar a cidade.

Caminhei tranquilinha até a Basílica de Nossa Senhora de Copacabana. Por fora, essa igreja não é nada de mais, e também não chega a ser impressionante por dentro. Mas o que valeu, e muito, a visita foi a vibe. Foi a primeira vez em toda a minha vida que entrei em uma igreja católica e senti uma energia de alegria e amor, e não aquele clima denso e pesado de penitência e culpa cristã. É tão forte e bonito que cheguei a me emocionar. Não sou católica, mas fiquei mais do que feliz em sentar lá na frente e trocar uma ideia com a santa que, além de abençoar as margens do já sagrado Lago Titicaca, emprestou seu nome pro bairro do Rio de Janeiro que é conhecido e adorado no mundo todo.

Porta da Basílica de Nossa Senhora de Copacabana

Porta da Basílica de Nossa Senhora de Copacabana

Saí de lá ainda melhor do que já estava e continuei o rolê. Dei uma olhada nas barraquinhas que vendiam todo tipo de parafernália religiosa, flores e outros enfeites. Aqui é costume enfeitar os carros com papel colorido e flores, pra serem abençoados. Também fiquei um tempo sentada na pracinha na frente da igreja só descansando, tomando um sol e olhando o movimento.

Copacabana é um destino turístico para muitos bolivianos também, não só pros gringos. Caminhando algumas quadras abaixo até o porto, achei super legal ver aquele monte de famílias bolivianas passeando com as crianças, ou grupos de amigos, ou casais de namorados fazendo a mesma coisa que eu: curtindo um lugar bonito nas férias.

Sentei na ponta de um dos trapiches pra descansar um pouco mais, tirar umas fotos e ficar emocionada de novo com a lindeza e a imensidão desse lago.

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É bem fácil esquecer que você não está na beira do mar.

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Seguindo a orla do lago dá pra encontrar os barcos que levam pra Isla del Sol e todo um feeling de balneário tranquilo e alegre.

Passei quase a tarde toda só caminhando e observando, um slow travel não só possível como necessário, tendo em vista minha condição. Tanto que vou ter que voltar só pra visitar o Cerro Calvário, que simplesmente não tava dando pra subir.

Apesar de ter deixado de lado um dos pontos principais da cidade, ainda deu pra amar muito o lugar. Vamos combinar que não tinha como não amar?

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Uma cholita me cobrou 20 Bs. pra tirar foto com os bebês alpaca dela. Uma pequena fortuna, mas o monte de fotos que ela tirou de mim ficaram muito melhores do que as de muito fotografozinho com DSLR pra quem eu pedi pra tirar foto de mim ao longo da trip. E gente, bebês alpaca <3

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E se a Avenida 6 de Agosto é o point dos turistas, a orla do lago é o point mais local. Ali tem um monte de quiosques bem típicos e bem barateza (prato completo por 10 Bs.) e bem delícia. É aqui que tem a típica trucha do Lago Titicaca, um filezão de truta grelhado acompanhado de arroz com batata, a dupla dinâmica boliviana.

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Jantei em um restaurante bem na beira do lago, no terraço, vendo o pôr do sol no lago mais uma vez. O lugar se chama Cusco Rumi. Não achei a comida grande coisa, mas bati altos papos com o garçom, o Jorge, um argentino que estava viajando e bancando a viagem trabalhando aqui e ali. Ele tinha passado alguns meses na Isla del Sol e me deu várias dicas, além de me dar chá de coca porque eu falei que tinha passado mal da altitude.

Copacabana foi tudo o que eu esperava dela e ainda mais. Uma cidadezinha que nas fotos não me parecia das mais interessantes, mas que imediatamente me recebeu com seu clima de vilarejo de “praia” e sua vista maravilhosa do impressionante Lago Titicaca. Ter a liberdade de tirar esse dia a mais aqui foi crucial pra eu aproveitar muito melhor essa experiência.

Agora sim eu estava pronta pra encarar a Isla no dia seguinte!

Na prática

Como chegar a Copacabana

  • Saindo da rodoviária de La Paz, existem ônibus públicos que custam 20 Bs.
  • Também de La Paz, dá pra pegar um ônibus de turismo, que você contrata em qualquer agência de viagens por 40 Bs. A vantagem é que ele te busca no hotel e você não tem que pagar 15 Bs. pra ir de taxi do hotel até a rodoviária. Tem ônibus todos os dias às 7:30 e a viagem dura 4 horas.
  • No meio do caminho, o ônibus tem que cruzar um trecho do lago. Você tem que pagar mais 1,50 Bs. por essa travessia.
  • Também tem ônibus saindo de Puno, do lado peruano do lago, às 7:30 e 14:30 todos os dias. É recomendável fazer esse trecho com ônibus turístico, que vai facilitar muito a travessia da fronteira Peru-Bolívia. Dura 3 horas e custa 40 S/.

Onde dormir em Copacabana

  • Fiquei no hotel Mirador, que era simples mas tinha quartos bons, água quente, um café da manhã decente e uma vista maravilhosa do lago. Preços variam de 50 a 120 Bs. por noite.
  • Outro hotel que me recomendaram muito bem foi o Las Olas. É realmente lindo, mas um pouco mais afastado do “centrinho” da cidade do que os outros. Custa cerca de 120 Bs. por noite. Também me recomendaram o Hotel Lianna, mas não encontrei esse.

Onde comer em Copacabana

  • Avenida 6 de Agosto tem restaurantes mais turísticos e bastante variedade. A maioria tem o “menu” (entrada, prato principal e sobremesa) a partir de 20 Bs..
  • Na orla do lago, existem quiosques mais típicos que vendem a famosa trucha por 10 Bs..

Que história é essa de mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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9 Comentários

  • Responder
    Angela
    2 de setembro de 2014 às 01:23

    AI GENTEEE!! MINI ALPACAS <3 <3 <3 QUANTO AMOR!!!

    adorei a sua mochinigra, mochinagração, mochigrinação, isso!!! Vou utilizar suas dicas quando planejar a minha viagem por essas bandas! certeza que vou comer uma trucha 😀

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      2 de setembro de 2014 às 01:35

      Oi Angela, obrigada pelo comentário! As alpacas são fofíssimas mesmo, eu queria apertar!! E a trucha é uma delícia, você vai ver 😀 Espero que o blog ajude na sua viagem! Bjo!

  • Responder
    Edson sandes
    2 de fevereiro de 2015 às 16:57

    De La Paz para Copacabana é muito longe?

  • Responder
    Luis Felip
    28 de abril de 2015 às 14:11

    Para fazer amizades e conversar com o pessoal tem que ir arranhando bem um espanhol né?
    Ou a galera jovem fala bem ingles?

  • Responder
    Maria Proietti
    30 de agosto de 2015 às 20:05

    Oi, Maria! Tudo bem?
    Estou AMANDO os teus relatos, tu escreve exatamente o que quero saber! E a forma como tu escreve é muito legal. Informativa e bonita. Parabéns!
    Viajo sexta prum mochilão de 18 dias entre Bolívia e Atacama. Tenho algumas dúvidas, evidentemente hehehe, não sei se escrevo todas aqui ou se vou “repartindo” por relatos… Acho que a 2a opção parece mais sensata. Bom, com relação a Copacabana + Isla del Sol, são 3 perguntinhas:
    1) A pessoa é obrigada a dormir em Copacabana? Na ida e na volta? Eu estava priorizando a Isla del Sol… Até por questão de tempo. Tô planejando dormir 2 noites lá.
    2) Alguém um dia disse pra descer no lado sul ou norte da Isla (não lembro qual) porque, assim, a trilha fica mais fácil (talvez a pessoa estivesse falando pra começar subindo e descer na volta, quando estamos mais cansados do dia). Prossegue essa informação ou nada a ver? Hehe.
    3) O que teria a tua caixinha de 1os socorros ideal pruma viagem dessas?

    Beijos e obrigada! Vou seguir lendo os outros relatos 🙂

  • Responder
    Lisiane Silva
    10 de junho de 2016 às 20:13

    Oi, Maria.
    Precisa da tua ajuda.
    Saio para viajar este mesmo roteiro daqui a 5 dias. E tenho uma dúvida: consigo fazê-lo em 15 dias? aendo que vou de avião e desembarco e embarco em Santa Cruz. Meu roteiro estou querendo fazer percurso contrário do teu. Começo por Santa Ceuz, sucre( vou de avião de Santa Cruz para sucre), Uyuni, San Pedro e subo até Arequipa. Chegando em Cusco fico para festa do Sol e conhecer MP. e seguimos descendo para Puno… Até chegar na Bolívia. Lá paz, Cochabamba… Até Voltarmos ao ponto de partida. Vc acha que consigo? Os únicos lugares que penso em ficar por períodos maiores é Uyuni, San Pedro, Arequipa, Cusco. Os outro penso em ser de passagem e fazendo passeios de dia e viajando a noite.
    Vc acha que conseguimos ?

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      15 de junho de 2016 às 17:45

      Oi, Lisiane, tudo bem?

      Sinceramente, acho que em 15 dias não vai dar, não. Sugiro escolher no máximo 2 ou 3 desses lugares pra visitar com tão pouco tempo, pra você poder aproveitar bem.

      Espero que você aproveite muito! Beijos e boa viagem!

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