Bolívia

Chacaltaya: a primeira montanha da #mochigrinação

Eu queria fazer alguns tours em La Paz, mas um não rolou por causa de greve e outro não rolou por causa de medo meu, mesmo. Mas não interessa porque eu consegui chegar ao lugar que mais queria, a primeira das muitas montanhas que tanto me encantariam ao longo da #mochigrinação: o pico do monte Chacaltaya.

O Chacaltaya abrigava a estação de esqui em maior altitude do mundo, a 5300 m.a.n.m.. A estação foi desativada em 2009 porque o recuo da geleira impossibilitou a prática de esqui, mas o lugar ainda está aberto para visitação. Realmente não precisa esquiar pra sentir aquela adrenalina e sensação de aventura, mas dá aquela dor no coração ver com os próprios olhos os efeitos das mudanças climáticas. Além da galera não poder mais esquiar, o degelo das neves todo verão é uma das principais fontes de água pra população da região, e com a diminuição da geleira a água vai ficar cada vez mais escassa.

Este era meu primeiro tour organizado da viagem e eu não sabia muito bem o que esperar. Contratei na agência do hostel Wild Rover e paguei 70 Bs. pelo pacote que incluía transporte e guia. Além disso, ainda precisei pagar uma taxa 15 Bs. para entrar.

A guia veio me buscar às 8h no hostel em que eu estava, o Loki, e eu subi numa van velha e desconfortável. Meus companheiros seriam uma israelense e um casal de brasileiros. Achei ótimo o grupo ser pequeno. Ela explicou rapidamente o itinerário do dia em espanhol e depois num inglês que não entendi muito bem.

Nossa primeira parada foi uma vendinha de esquina na periferia da cidade pra comprar lanchinhos. Não tinha muita variedade aqui, provavelmente comprar os lanchinhos no dia anterior teria sido melhor. É legal levar chocolates e balas porque o açúcar ajuda a controlar os efeitos da altitude, e é imprescindível levar muita água porque o corpo não pode ficar desidratado nessas condições.

A vendinha, a guia e a van

A vendinha, a guia e a van

Dali, finalmente partimos. As maravilhas já começam no caminho até a montanha. Da estrada, é possível ver um pouquinho mais de perto o Nevado Illimani, que já vimos bastante desde La Paz mas ainda não cansou, e o incrível Huayna Potosi, do alto dos seus mais de 6000 metros. Também dá pra ver lhamas e vicunhas pelo caminho e simplesmente não dá pra tirar o olho da estrada.

Huayna Potosi

Huayna Potosi

Lhamas no caminho até o Chacaltaya

Lhamas no caminho

Subindo o Chacaltaya

A subida com o ônibus é bastante íngreme e rápida, subimos dos 3600 aos 5300 m.a.n.m. em coisa de uma hora. Por isso, é importante deixar esse passeio pro seu último dia em La Paz, pra dar tempo do seu corpo se aclimatar melhor à altitude. Outras recomendações importantes são não beber álcool no dia anterior e beber muita água, cerca de 4 litros por dia, pra manter seu corpo hidratado. Eu também tomei umas aspirinas durante a subida, mas ~não se automedique~. Altitude não é bagunça.

É uma coisa realmente muito louca, aquele ônibus vai subindo naquela estradinha estreitinha e sinuosa, vai dando uma vertigem, o ar vai ficando rarefeito, você já começa a não falar coisa com coisa, vê um elefante cor de rosa, troca uma ideia com Deus etc.

Estradinha sinuosa até o topo do Chacaltaya

Estradinha sinuosa até o topo do Chacaltaya

A paisagem vai mudando bem rápido. A vegetação vai sumindo e o terreno vai ficando cada vez mais pedregoso. A um certo ponto a gente começa a ver lá embaixo os lagos de cores diferentes, mas não é efeito da altitude não, eles são realmente coloridos por causa dos diferentes minerais que eles contêm.

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Até que finalmente chegamos na base da estação de esqui. Aqui você pode subir a pé os últimos 200 metros até o pico, ou pode ficar tomando um chazinho de coca no quentinho, dentro da estação. Claro que a grande diversão está em subir, mas é bastante tenso e ninguém vai te julgar se você escolher apreciar a vista de uma forma mais confortável.

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Aqui em cima é bem frio. Bem frio. Não pode esquecer as roupas térmicas por baixo de tudo e os tecidos corta-vento por cima de tudo. Eu não tinha gorro e estava com muito, muito frio na cabeça, então improvisei um turbante com o lenço que eu tava usando hehe.

E começa a subida! A guia foi na frente, indicando o caminho, que é bem simples. Ela foi praticamente correndo e nós, moleques que nunca viram altitude na vida, tivemos que ir com mais calma.

A base da estação de esqui ficando para trás

A base da estação de esqui ficando para trás

A guia deixando a gente para trás

A guia deixando a gente para trás

Não foi fácil. Eu parava a cada 10 passos pra respirar bem fundo algumas vezes, fazer o coração voltar a bater normal, e só depois continuava.

Para um pouquinho, descansa um pouquinho... anda mais 5 metros!

Para um pouquinho, descansa um pouquinho… anda mais 5 metros!

Pensei em desistir em vários momentos. Quando tava quase chegando, tinha vários pontos que eu olhava e pensava “ok, já tá lindo daqui, mais 10 metros não vai fazer diferença”. Mas não é a vista, né? É chegar lá.

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Apacheta de oferenda no pico do Chacaltaya. Curvatura da Terra ao fundo :P

Apacheta de oferenda no pico do Chacaltaya. Curvatura da Terra ao fundo 😛

É uma sensação incrível chegar lá em cima. Quase não dá pra acreditar que a Pachamama nos presenteou com um lugar tão bonito. É claro que a vista compensa. Dá uma olhada nessa panorâmica feita lá de cima (clique para ampliar):

A vista do pico do Chacaltaya

A vista do pico do Chacaltaya

Fui no inverno, no começo de junho, e tinha ainda menos neve do que o normal. Isso é porque o inverno aqui é a estação seca e não neva. Aqui só neva no verão, que é a época de chuvas, com a umidade favorecendo a precipitação de neve.

Eu gostei muito de ter ido nessa época. A falta de neve realmente não fez tanta diferença, mas o dia de sol maravilhoso, esse fez sim. Adorei poder ter essa visão completamente limpa das montanhas ao redor e da imensidão que dá pra enxergar lá longe. Realmente incrível.

Bom, e assim concluímos o objetivo do montanhismo: a gente sobe, sobe, sobe, chega lá em cima… E DESCE!

E descer não é mais fácil do que subir não. O terreno é super inclinado e tem que tomar muito cuidado pra não escorregar nem torcer o pé.

Inclinação da descida

Inclinação da descida

Depois volta todo mundo pro ônibus e percorremos de novo o mesmo caminho sinuoso, pra baixo dessa vez. A maioria dos tours inclui também um passeio pelo Vale da Morte, mas ouvi várias pessoas dizendo que era meio sem graça e optei por não ir. A van passa pelo centro de La Paz pra chegar até o Vale, então é só pedir pra sair. Era meu último dia na cidade e eu queria aproveitar melhor esse restinho de tempo livre, e achei que foi uma boa opção.

O Chacaltaya foi um dos lugares mais legais que já visitei e recomendo pra todo mundo. Mas recomendo também tomar muito, muito cuidado com o frio e com a altitude. Fiquei bem doente no meio da viagem, e suspeito que foi essa subida brusca que causou o começo do mal estar.

Que história é essa de mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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4 Comentários

  • Responder
    Danilo
    31 de agosto de 2014 às 18:10

    Tetê, que bacaaaaaana!! To querendo fazer uns rolês assim também! O downhill tá nos meus planos! O que você ouviu o pessoal comentando sobre isso lá? Será que vale a pena?

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      31 de agosto de 2014 às 22:13

      Super vale, Danilo!! Era o rolê principal da galera lá em La Paz! Todo mundo que fazia voltava enlouquecido! Eu tinha planejado ir, mas chegando lá acabei preferindo fazer outras coisas e não fui, mas pelo que ouvi vale super a pena! O pessoal com quem eu falei curtiu mais a empresa Gravity, dá uma olhada!

  • Responder
    letiica
    14 de março de 2017 às 23:41

    Oiiii, tudo bem? que lugar lindo!!, você acha que da pra conhecer a bolívia em um feriado como corpus christi? ou é pouco tempo?

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      15 de março de 2017 às 14:37

      Olá! Acho que é pouco tempo, tudo lá é longe e demorado pra chegar, você vai perder bastante tempo só em trânsito. Recomendo 10-15 dias. Beijos!

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