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Mochigrinação pt. 2: Na paz em La Paz

Trocadilhos abomináveis à parte, suspeito que a chegada em La Paz não seja tão bonita quanto eu me lembro, mas eu estava tão feliz por ter dado o fora de Santa Cruz que tudo parecia maravilhoso. Até as 17 horas no busão da Transcopacabana M.E.M. tinham sido as mais confortáveis desde que saí de casa.

Apesar de Sucre ser a capital oficial da Bolívia, é La Paz a sede do governo, sendo também reconhecida como capital. Um país com duas capitais: duplamente bacana.

A cidade toda fica dentro de um vale, e lá em cima, na beirada do vale, fica El Alto, cidade da região metropolitana por onde os ônibus entram e saem de La Paz, e também onde fica o aeroporto. A impressão que dá é de que é uma favela do avesso, um monte de casas sem acabamento morro abaixo, e não acima. Mas na Bolívia os impostos para imóveis com pintura e acabamento são muito altos, então a maioria das pessoas deixa a casa no tijolo mesmo.

Chegando com o ônibus, lá de cima, você olha pela janelinha e vê aquele caos lá embaixo e o nevado Illimani lá no fundo e não tem como não se impressionar. Até a rodoviária era linda. Eu sentia que era ali que minha viagem estava realmente começando.

Onde ficar em La Paz

Cheguei e fui direto para o hostel Loki, que eu tinha reservado e escolhido meio na pressa numa lan house na rodoviária de Santa Cruz no dia anterior. Numa primeira impressão, achei o lugar com cara de velho e caído, mas fui gostando dele cada vez mais.

Como era super cedo, eu ainda não podia fazer check-in, mas o pessoal da recepção foi super receptivo (rá!). Ofereceram pra guardar minha equipaje (bagagem), ofereceram café da manhã e me deixaram tomar banho no melhor chuveiro do universo depois dos meus três dias passando lencinho umedecido no sovaco em banheiro de rodoviária.

Depois do banho maravilhoso com a tão rara água quente, subi para tomar café no que eles chamam de Skybar, e aí entendi o appeal do lugar:

Vista do bar do hostel Loki

Vista do bar do hostel Loki

Simplesmente acordar e dar de cara com a cidade e o nevado Illimani todos os dias já vale os 60 Bs. que você paga pela noite. Os dormitórios quádruplos com banheiro privativo e as camas super quentinhas são só um extra 🙂 Pena que o wifi só funcionava quando queria…

Nesse mesmo café da manhã, conheci o Stephen e a Melissa, os novos amigos com quem passei a maior parte do meu tempo na cidade. Eles estavam no Loki, mas iam se mudar naquele mesmo dia para o hostel Wild Rover.

Eu não fiquei no Wild Rover, mas por causa deles fui no bar desse hostel todas as noites e também posso recomendar! Essa é uma rede que tem hostels em La Paz, Cusco e Arequipa, todos com temática irlandesa, e todos se orgulham de ser hostels de festa duro toda noite. O preço é o mesmo do Loki, 60 Bs. a noite, e a aparência do lugar é muito mais aconchegante.

Ele ganha do Loki na localização, pois fica a duas quadras da Plaza Murillo (praça principal e centrão da cidade), enquanto do Loki você tem que caminhar uns bons 10 minutos pra chegar lá. O wifi também é fenomenalmente melhor. Mas perde na hora do soninho: segundo meus amigos, os quartos são super frios e super barulhentos. Quanto às festas, os dois ficam pau a pau. Eu particularmente gostei mais do Loki nesse aspecto, porque aquela vista que você tem de manhã, você também tem à noite, com todas as luzes da cidade subindo as encostas do vale, realmente incrível. A música e a animação e os blood bombs, drink oficial dos Lokis em toda a América do Sul, fecharam o pacote pra mim.

Meu veredicto é este: eu preferi o Loki, mas o Wild Rover é uma ótima segunda opção.

O que fazer em La Paz

Numa cidade nova, eu sempre gosto de fazer um daqueles free walking tours logo de cara, pra conhecer os lugares meio por cima, aprender sobre a história de cada um, e depois voltar pra visitar com calma os que mais gostei. É uma espécie de city tour guiado, a pé, geralmente em inglês, em que você não tem que pagar pra participar, mas é coagido a deixar uma gorjeta no final. É legal porque geralmente é tudo organizado por gente jovem, a maioria do povo que participa é gente jovem, e é super animado e não tem aquela coisa chata do busão da excursão.

walking tour de La Paz elevou muito o padrão pros outros tours da viagem, e foi difícil superar essa qualidade. Fui com a Red Cap, e o tour sai todos os dias da Plaza San Pedro às 11h e às 14h, e a sugestão é que você colabore com 40 a 70 Bs. ao final do passeio. Achei dinâmico, achei engraçado, achei inteligente, achei interessante e me diverti horrores. Este é O PASSEIO que eu recomendo que você não deixe de fazer em La Paz.

Galera ouvindo atentamente as lendas sobre o Mercado de las Brujas

Galera ouvindo atentamente as lendas sobre o Mercado de las Brujas

Eles começam falando da Prisão de San Pedro, que abriga toda uma comunidade encarcerada regida pelas mesmas leis do capitalismo aqui de fora, e antigamente podia receber visitas, mas hoje você só consegue entrar na ilegalidade. Pra quem se interessar, um livro que conta mais sobre essa prisão é Marching Powder, de Rusty Young.

Depois a gente deu um rolê pelo mercado Rodriguez e eles explicaram sobre as cholitas e a interação social no mercado. As cholitas que trabalham lá são como as mãezonas dos clientes, é uma relação muito pessoal mesmo, por isso é importante você sempre comprar com a mesma, e ela acaba virando sua casera e sua amiga. Pra te ganhar, ela pode te dar um “chorinho” das coisas que você compra, é só pedir a yappa.

Em seguida, outro mercado, desta vez o Mercado de las Brujas, um dos pontos mais famosos da cidade. É aqui que você vai encontrar material pra fazer todo tipo de mandinga, desde folhinhas de coca até os famosos fetos de lhama. Tem uma senhora em uma das ruas ali que lê mãos. Eu queria muito saber o que ela tinha pra me dizer, mas nas duas vezes em que fui lá ela não estava 🙁 Acho que o destino queria que eu seguisse na espontaneidade, sem saber o que ele reservava pra mim 🙂

Os fetinhos de lhaminhas no Mercado de las Brujas

Os fetinhos de lhaminhas no Mercado de las Brujas

Cholita em lojita do Mercado de las Brujas

Cholita em lojita do Mercado de las Brujas

Depois de uma passada na Igreja de San Francisco e na Plaza Murillo com uma explicação sensacional sobre a história política da Bolívia, o passeio termina no topo de um dos prédios mais altos de La Paz, o Hotel Presidente. De lá você tem uma vista sensacional da cidade e do Illimani, e ainda pode fazer uma espécie de rappel pela lateral do prédio!

Além do walking tour

Um rolê que eu curti demais e que o walking tour não cobre é o Mirador Killi Killi. Relativamente perto do centro da cidade, você pode ir a pé ou, se estiver ofegando depois de dar 10 passos a 3.600 metros acima do nível do mar, pegar um táxi. Pagamos 15 Bs. em três pessoas desde a Plaza Murillo, mas se você estiver sozinho vale dar uma chorada pro motora.

Um típico táxi boliviano

Um típico táxi boliviano

(Táxi na Bolívia tem mais que formiga, é mais barato que pão e você pode pegar em qualquer lugar na rua. Só tome cuidado pra pegar sempre os de rádio-taxi, que são os que tem uma placa com um número de telefone no teto.)

A subida até o mirador é bem íngreme. Já sofri só de subir a meia dúzia de degraus desde a rua até a praça do mirador, certeza que teria morrido subindo a ladeira. Altitude não é brincadeira, mas o esforço vale demais a pena.

Mirador Killi Killi

Mirador Killi Killi

Além de o lugar em si ser lindo, com uma pracinha com flores, árvores e um monumento, você tem uma vista de quase 360 graus. Acredite, é meio que impossível se cansar de olhar pro Nevado Illimani, a montanha mais adorada e respeitada por todos os paceños.

Nevado Illimani, imponente em qualquer parte da cidade

Nevado Illimani, imponente em qualquer parte da cidade

Compras em La Paz

Me sinto na obrigação de falar uma coisa pra vocês: La Paz tem o artesanato mais bonito e mais barato que eu vi em toda a viagem. Eu não quis comprar quase nada aqui porque era só o começo da viagem, e eu não queria carregar nenhum peso extra durante todo o resto, nem queria comprar nada sem saber os preços antes. Queria ver o que tinha no Peru. Agora, tendo ido e voltado, e mesmo tendo estado em outras partes da Bolívia, em verdade vos digo: o lugar do presentinho é aqui.

Galeria na Calle Liñares

Galeria na Calle Liñares

Calle Liñares , coladinha no Mercado de las Brujas, tem tudo do lindo e do barato. Várias lojinhas uma atrás da outra e algumas galerias. A título de comparação, comprei um pingente de prata e um gorro de alpaca por 95 Bs. cada. Novamente a título de comparação, o Peru tem coisas maravilhosas de lindas, só que mais caras do que aqui. Queria comprar presentinhos pros meus amigos mas deixei pra fazer isso em Sucre, minha última parada. Vou encerrar dizendo apenas que me arrependi amargamente dessa decisão.

Enfim…

Originalmente, La Paz seria só uma parada de uma noite pra descansar no meu caminho até o Lago Titicaca. Me abrir para a cidade e ficar três noites foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Aqui eu fiz ótimos amigos logo nas primeiras horas; sofri uma ~decepção amorosa~ que foi importante no projeto geral de cura da mochigrinação; tive minha primeira experiência com altitude; e mudei totalmente a ideia pré-concebida que eu tinha sobre a Bolívia e os bolivianos.

A cidade ainda é ponto de partida pra vários passeios na região. Eu queria muito visitar as ruínas de Tiahuanaco, mas as estradas estavam bloqueadas por uma greve e todos os tours pra lá foram cancelados. Acabei fazendo só o passeio até o topo do Chacaltaya, que foi uma das coisas mais sensacionais de toda a viagem.

La Paz está guardadinha aqui no meu coração <3.

E as Paceñas estão guardadinhas aqui na minha pancinha, mas quando a gente viaja, pancinha e coração são a mesma coisa.

A especialidade local :)

A especialidade local 🙂

Que história é essa de mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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12 Comentários

  • Responder
    Jean
    22 de agosto de 2014 às 01:08

    Pancinha, gostei disso, kkkkkkkk . Além é claro das dicas , vamos para lá então.

  • Responder
    Gabriela
    14 de fevereiro de 2015 às 16:29

    Estou amando ler os posts da sua viagem! Estou aprendendo muito. Amo o jeito como você escreve e descreve tudo!

  • Responder
    Ramon Ribeiro
    19 de maio de 2015 às 16:50

    E aí Maria! Parabéns pelo blog, muito bom!
    Estou planejando o retorno a Bolívia em janeiro de 2016, só fui no Uyuni e Copacabana, La Paz foi só de passagem mesmo e agora estou querendo conhecer melhor lá..
    Lembra quanto foi o preço dos passeios das ruínas de Tiahuanaco e Chacaltaya?
    Deveria ter feito o rolê de bike pela estrada da morte heheh

    desde já agradeço, valeu!

  • Responder
    Carla
    28 de junho de 2015 às 18:10

    Maria Thereza estou indo para um trip sozinha na Bolívia e amando todas as suas dicas e a forma que você fala! Um bjo!

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      30 de junho de 2015 às 13:00

      Oi Carla! Que bom que você tá curtindo! Aproveite muito sua viagem! Beijos!

  • Responder
    Évelin
    13 de agosto de 2015 às 21:43

    Quero experimentar a tal Paceña.
    Li o post rapidamente, mas você sofreu muito com a altitude em La Paz… este é meu maior medo já que tenho labirintite.

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      18 de agosto de 2015 às 22:29

      Oie! Se você tem alguma pré-condição, acho importantíssimo você consultar seu médico antes de viajar. Eu fiquei de cama mesmo, é muito sério. Conversa com seu médico e ele te orienta direitinho 🙂 Tomando cuidado, não tem por que se preocupar.

  • Responder
    Márcio Morais
    19 de março de 2016 às 12:00

    OLá. Estou planejando ir em 2017, e esse seria meu trajeto inicial para meu mochilão Bolivia e Peru (sendo possivel Chile para visitar uns amigos). Estou em fase de pesquisa e, pelo pouco que (ainda) li, vou aproveitar bastante seus relatos. Obrigado desde já. E imagino que foi uma viagem fantastica, o pico algo do meu mochilão será Macchu Picchu, fazendo trilha. Parabéns.

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      23 de março de 2016 às 17:09

      Oi, Márcio! Muito obrigada! Fico feliz que as dicas aqui estejam ajudando 🙂 Abraços e boa viagem!

  • Responder
    Duda Caciatori
    22 de abril de 2016 às 16:37

    Olá! Estou planejando uma viagem pra Bolívia no fim desse ano com minha irmã e estou adorando os seus relatos! 🙂
    Estamos pensando em ficar no Loki enquanto estivermos em Lapaz… Você lembra se o café da manhã era incluso na diária? Li algumas pessoas falando que não…
    Obrigada!
    Beijo!

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      28 de abril de 2016 às 19:33

      Oi, Duda! Tinha café da manhã, sim! O que tá incluso é uma opção bem simples com pão, geleia, manteiga e café/chá, mas vc também pode pagar à parte pra ter algo mais carregado, com ovos ou oq mais vc quisesse. Se não me engano custava uns 25 bolivianos o prato (8 reais). O restaurante deles é bem bom, recomendo! Beijos!

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