Depois de uma gripe relâmpago que me derrubou no dia antes da viagem, no dia seguinte acordei milagrosamente bem e prontíssima pra encarar horas e horas de estrada.

Eu já tinha comprado as passagens até Corumbá (MS), pela internet, porque era o que dava pra fazer com certa antecedência. Dali pra frente, seria na espontaneidade vida loka. A passagem de Ponta Grossa (PR) até Campo Grande (MS) saiu R$150 pela Eucatur, e a viagem durou 14h num ônibus bem confortável onde as crianças da poltrona ao lado comeram todas as minhas bolachinhas e eu já tive minha primeira oportunidade de praticar o desapego ali mesmo.

Felizona embarcando no primeiro ônibus da jornada
Felizona embarcando no primeiro ônibus da jornada

De Campo Grande pra Corumbá saem vários ônibus durante o dia pela Andorinha, ao preço de R$90. Comprei antecipado porque queria garantir que pegaria o primeiro ônibus, às 6:30, pra chegar logo na fronteira. Esse trecho da estrada é muito muito lindo, uma reta infinita passando por aquelas paisagens maravilhosas do Pantanal. Até boiada cruzando a estrada e arara voando solta eu vi. Quase larguei tudo e fiquei por ali mesmo.

A caminho de Corumbá
A caminho de Corumbá

Cruzando a fronteira com a Bolívia

Cheguei na rodoviária lá pela 1 da tarde. Eu estava preocupada com o horário de funcionamento da fronteira, porque li em algum lugar que fechava pro almoço (??) mas não consegui encontrar a informação oficial em lugar nenhum. Também estava preocupada em pegar uma fila quilométrica de horas. Peguei um dos táxis da rodoviária e combinei com o motorista o valor de R$40 para ir até a fronteira. Só depois de entrar no táxi foi que percebi o tamanho da cagada de não ter verificado nenhuma credencial, nem visto a placa, nada. Não lembro nem se tinha taxímetro porque naquela hora comecei a ficar com medo. Aquela fronteira não chegava nunca mas o motorista tinha um terço e uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida pendurados no espelho então devia ser uma boa pessoa de Jesus e não um assassino em série.

Chegando ao posto da Polícia Federal, e tendo sobrevivido a esse pavorzinho provavelmente infundado, botei o mochilão nas costas e a mochila de ataque na frente e entrei. Estavam funcionando e não tinha fila nenhuma, novamente acalmando meus pavores infundados. Depois do funcionário ter me dado um sermão sobre estar viajando sozinha e ser perigoso, eu estava oficialmente fora do Brasil.

Mas ainda não estava dentro da Bolívia! Até chegar lá tive que cruzar uma ponte pequena, poeirenta e deserta. Não tinha mais ninguém cruzando a fronteira! Ouvi outro sermão sobre estar viajando sozinha do funcionário da imigração boliviana (pedir a carteirinha de vacinação internacional que eu penei tanto pra conseguir, nada, né?) e pronto, estava na Bolívia!

Aqui eu estava com tanto medo de tudo que não tirei foto de nada. Troquei meu dinheiro (1 dólar rendia cerca de 7 bolivianos) em uma das várias “casas de câmbio” perto da fronteira, mas pouco porque estava com medo de levar um golpe e acabar com um monte de notas falsas (nunca aconteceu). Vi um monte de táxis na rua mas não peguei nenhum porque estava com medo de ser abandonada na periferia de Puerto Quijarro (nunca aconteceu). Entrei numa agência de viagens de aparência menos duvidosa e perguntei como chamar um táxi pra ir até a estação de trem. A atendente foi até o lado de fora da loja e chamou um daqueles mesmos taxistas que eu não quis pegar e disse que era de confiança. Entrei, ainda morrendo de medo, e o taxista puxando assunto, perguntou meu nome, se eu ia pra Santa Cruz (todo mundo em Quijarro tá indo pra Santa Cruz), ligou pro colega dele na boleteria da estação e reservou meu bilhete.

Minha desconfiança e medo de tudo aos poucos foi passando. Absolutamente todo mundo estava me tratando super bem, desde o cara da boleteria até os seguranças da estação. Foi passando até a minha desconfiança de que esse bom tratamento era pra me dar algum golpe mais tarde, e logo fui começando a sentir aquele alívio de ter chegado e estar bem, e aquela sensação boa de que sim, dá pra confiar nas pessoas e não, eu não vou ser assaltada a cada cinco minutos. Todos esses medos não passavam dos estereótipos que eu ouvi a vida inteira sobre “é perigoso mulher viajar sozinha” e “a Bolívia é perigosa”. Tem que se cuidar e não pode ser otária, mas não precisa ter medo de nada não 🙂

Comprei meu bilhete para o famigerado “Trem da Morte” e fui almoçar uma “feijoada boliviana” (15 Bs.) no restaurantezinho da frente. Aí o medo já tava passando e deu pra tirar fotos de novo enquanto esperava a hora de embarcar.

Depois de ter de repetir o nome do prato duas vezes porque eu não entendi, a garçonete disse simplesmente "feijoada boliviana!!!"
Depois de ter de repetir o nome do prato duas vezes porque eu não entendi, a garçonete disse simplesmente “feijoada boliviana!!!”

Viajando no Trem da Morte

O Trem da Morte na verdade é um Trem de Boas. Existem diversas lendas que explicam o nome, mas a principal diz que o trem levava os doentes e os corpos das vítimas de uma grave epidemia de febre amarela que rolou há muitos anos na região de Santa Cruz. A companhia Ferroviaria Oriental, que opera os trens, tenta mudar essa visão chamando-o de “o trem do progresso”. Hoje em dia ele é um trem comum de passageiros e, segundo um funcionário da estação com quem fiquei conversando, muito mais seguro do que um ônibus.

Aliás, conheci uma família de brasileiros com parentes em Santa Cruz que fazia o trajeto sempre, e eles me recomendaram ir de ônibus. É mais barato (60 Bs.) e muito mais rápido. Eu fazia questão de ir de trem, mas deixo a dica pra vocês.

Fim de tarde na fronteira
Fim de tarde na fronteira

Existem categorias diferentes para o trem, dependendo do dia da semana.

Expreso Oriental, classe “Super Pullman”, custa 70 Bs. e sai todas as terças, quintas e domingos às 14:50, com duração de 17 horas.

Ferrobus custa 235 Bs. e sai todas as segundas, quartas e sextas às 18h, com duração de 13 horas.

Era uma segunda-feira, então fui de Ferrobus.

O Ferrobus, outra categoria do Trem da Morte
O Ferrobus, outra categoria do Trem da Morte

É um trem bem menor, com assentos tipo leito espaçosos e super confortáveis. O bilhete também prometia refeições inclusas, mas era tudo mentira. Disseram que pararam de servir refeições porque o movimento nessa categoria é baixo demais para eles prepararem comida. Então é bom jantar antes de partir.

Realmente, o movimento é infinitamente menor aqui do que no Expreso Oriental, que é o Trem da Morte clássico. Isso é uma vantagem porque você não precisa se preocupar em não conseguir passagem e ter que ir em outro dia, mas também é uma desvantagem porque não rola aquela interação de mochileiros compartilhando a estrada. Valeu pelo conforto, porque dormi a noite inteira, mas acho que teria sido mais legal viajar no trem clássico.

Santa Cruz de la Sierra

Catedral Metropolitana, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia
Catedral Metropolitana, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

No dia seguinte, cheguei ao que seria minha primeira parada oficial na Bolívia, Santa Cruz de la Sierra! Santa Cruz é a maior cidade da Bolívia e polo comercial do país. Já tinha ouvido falar super bem do lugar, mas cheguei lá e… odiei tudo.

Tive um problema com meu cartão e não estava conseguindo sacar dinheiro de jeito nenhum, fui pro centro com a mochila grande em vez de deixar guardada no terminal, estava chovendo, era cedo demais e não tinha nada aberto nem ninguém na rua, enfim, eu não estava me sentindo bem e, consequentemente, não conseguia ver beleza em nada. Em vez de ficar para passar a noite, comprei uma passagem no primeiro ônibus “cama 3 filas” com destino à felicidade (no caso, La Paz) e saí dali rapidinho. Semanas depois, no finalzinho da viagem, tive uma segunda oportunidade de conhecer melhor Santa Cruz, mas aí é outra história 🙂

A passagem pela Transcopacabana M.E.M., uma das melhores empresas, saiu por 140 Bs. Foi uma viagem tranquila e confortável, porém longa, saindo às 14h e chegando só às 7h do outro dia. O divertido foi o motorista parando em toda banquinha de beira de estrada pra comprar lanchinhos e folhas de coca pra encarar a subida dos 400 aos 3600 metros acima do nível do mar em uma noite. Eu não vi subida nenhuma graças ao meu companheiro de aventuras, dramim. Acordei já em El Alto, a cidade vizinha, com aquela vista magnífica de La Paz, finalmente sentindo que agora sim a viagem ia começar!

Que história é essa de mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.