No momento em que descobri que o Andean Explorer existia, eu soube que precisaria andar nele. Trata-se de uma linha da Peru Rail, a mesma empresa ferroviária que opera os trens para Machu Picchu. Essa linha faz o trecho Cusco-Puno e a volta, Puno-Cusco, em um trem luxuosíssimo no estilo dos trens europeus da década de 20.

É um rolê pensado e desenvolvido para turistas mesmo. E apesar de Cusco e Puno serem destinos turísticos também para peruanos de todo o país, o precinho salgado atrai quase que unicamente gringos. Digamos que zona de mais conforto do que isso não existe, fugindo um pouco da proposta da mochigrinação. Mas creio que podemos concordar que todo mundo nesta vida merece ser servido pisco sour em bandeja de prata enquanto aprecia as maravilhosas paisagens e fauna dos Andes, confortavelmente acomodado no vagão panorâmico.

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Comprando a passagem

Para ambas as direções, o trem opera apenas às segundasquartassextassábados, em apenas um horário por dia: ele parte sempre pontualmente às 8h00 e chega às 18h00.

A passagem Cusco-Puno custa US$270. O trajeto Puno-Cusco, que foi o que eu fiz, é bem mais barato mas ainda uma pequena facada: US$160. Confesso que esse “desconto” foi um dos motivos pro meu roteiro ter ficado do jeito que ficou, e não ao contrário hehehe.

Comprar a passagem foi mais complicado do que eu esperava.

O site não aceitou meu cartão de crédito logo de cara, e no dia seguinte recebi um e-mail de um funcionário de vendas da PeruRail pedindo pra confirmar a compra. Foi meio sorte não ter dado certo, porque como eu fiquei doente precisei adiar a viagem. Decidi comprar fisicamente em Puno mesmo, mas a boleteria da estação de onde sai o trem só abre das 15h-18h. Cheguei lá achando que aceitariam cartão de crédito, já que era um rolê super turista e no site aceitava cartão, mas não aceitavam. Eu estava sem todo esse cash (eles aceitam dólares e soles) e tive que ir atrás de caixa eletrônico pra sacar. Quando voltei lá com o dinheiro, havia acabado a luz do lugar e o tiozinho não podia emitir meu bilhete. Fiquei lá sentada na recepção durante 20 minutos esperando a luz voltar pra só então finalmente conseguir comprar meu bilhete. Ufa!

A experiência: por que é tão legal

Você já começa sendo super bem recepcionado na estação. É uma estação própria da PeruRail de onde só sai esse trem, então o lugar em si já é um luxo. A banda de música típica de Puno faz um som de um lado, enquanto um recepcionista faz o seu check-in do outro, te recepcionando, verificando seu passaporte e recolhendo sua mochila.

Sentada ali, esperando a hora de embarcar, me senti muito feliz por estar me dando aquele rolê de presente. Depois de tanto perrengue com a doença, foi muito bom me paparicar um pouco. Foi meu dia de TREAT YO SELF!

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Na hora de embarcar, meu assento estava marcado em uma mesa pequenininha de um lugar, mas como o trem estava meio vazio, logo veio uma ferromoça perguntar se eu não queria sentar numa das mesas maiores de dois lugares, e claro que aceitei.

Eu disse mesa? Sim, os assentos são poltronas confortabilíssimas com mesinhas bem arrumadas, porque eles servem comida o dia inteiro.

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Às 8:00 em ponto o trem apita e a viagem começa. Nos próximos minutos, já começamos a ver as paisagens maravilhosas que estão por todo o caminho. Todo mesmo. Não é um ou outro trecho que é bonito, é o caminho todo.

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O que tem pra ver

O trem tem um vagão bar onde acontece toda a programação da viagem. Pela manhã, foi servido pisco sour e um milhinho assado pra acompanhar, e o barman ainda ensina a preparar o drink.

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Depois rola uma apresentação cultural de música e dança típicas de Puno. Apesar das caras sérias na foto, é muito animado e as fantasias da dançarina são impessionantes. Ela chama todo mundo pra dançar e é lindo ver os gringão arriscando uns passinhos cheios de pisco sour na cabeça.

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À tarde é a mesma coisa, porém, já nos aproximando do destino final, a banda dessa vez toca músicas típicas da região de Cusco. Também rola um “desfile de modas” de blusa de alpaca que eu achei meio brega e fui utilizar esse tempo de uma forma melhor curtindo a vista no vagão panorâmico.

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O que tem pra comer

Uma frase de que eu gosto muito não só viajando, mas na vida como um todo, é: tem comida. No Andean Explorer não só tem comida, como tem comida ~gourmet~ e muito boa.

Logo que o trem sai, pela manhã, servem um lanchinho matinal de frutinhas com iogurte natural e cereais. Nessa hora, a ferromoça aproveita pra tirar o seu pedido para o almoço, que você faz com base no cardápio que está na mesa quando você chega.

O almoço são três pratos. Primeiro, vem uma sopa de raízes bem cremosa e carregada. Depois, o prato que você pediu. Eu pedi um frango com ají, um molho típico peruano levemente apimentado e bem temperadinho. Tinha batatinhas e vegetais cozidos pra acompanhar. De sobremesa, um mousse de maracujá com coco, lindo e delicioso. Tudo isso acompanhado de vinho local e as intermináveis paisagens lindas.

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Pra fechar o almoço, um cafezinho ou chazinho de coca acompanhado de bolachinhas. Mais no final da tarde, é servido um lanche com tortinhas, canapés, bolos, café, chá e mimosa (o drink, não a frutinha).

E sim, tudo isso está incluso. Por hoje, podemos ficar sem o ritual de comprar bolacha na vendinha na esquina do hostel.

La Raya

Mais ou menos na metade do caminho, o trem faz uma paradinha estratégica. Chegamos a 4319 metros acima do nível do mar, o ponto mais alto da viagem. Aqui a gente pode descer pra dar uma olhada em uma igrejinha local e comprar artesanato.

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É fácil não se dar conta do quanto isso é alto e tentar sair do trem e andar por aí em velocidade normal. Eu cometi esse erro e levei uma canseira em cinco minutos. Não comprei nada por motivos de inexistência de espaço na mochila, e preferi ficar observando a paisagem.

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Chegamos a Cusco já de noitinha, na estação da PeruRail onde taxistas credenciados aguardam para te levar ao seu hotel. Dividi o táxi até a Plaza de Armas com um casal belga e um alemão, mas até então eu estava tão ligada na viagem que ainda não me sentia arrebatada pela Cidade Imperial. Esse trajeto de trem não é só ir de uma cidade pra outra, é um passeio por si só.

Foi, sim, bem caro, o segundo passeio mais caro de toda a viagem, mas pra mim valeu cada centavo. Adoro trens, adoro paisagens bonitas, e receber um tratamento 5 estrelas de vez em quando não dói.

Salud!
Salud!

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.