Bolívia

#Mochigrinação: Chegando na Isla del Sol

Mal sabíamos nós, lá nos saudosos anos 90, que o Netinho era um grande estudioso da cosmologia andina e fez uma colocação muito acertada ao afirmar que tudo começou há um tempo atrás na Ilha do Sol.

Agora que sua cabeça já foi possuída por essa música e nunca mais será exorcizada, eu explico. Uma das lendas sobre o surgimento dos incas diz que o deus Viracocha saiu de dentro do Lago Titicaca e criou o sol, a lua, as estrelas, o mundo e os primeiros humanos. Segundo essa lenda, na Isla del Sol nasceu Manco Capac, filho de Viracocha e primeiro rei de Cusco. Realmente foi ali, há um tempo atrás, que tudo começou. O lugar é até hoje considerado sagrado, com santuários das virgenes del sol e vários sítios arqueológicos.

A Isla del Sol era um dos lugares que eu mais queria visitar, e eu estava com grandes expectativas. Ela é a maior dentre as várias ilhas do Lago Titicaca, mas a grande maioria é bem pequena e não pode ser visitada. Você consegue ir pra Isla del Sol e Isla de la Luna facinho, mas eu estava interessada mesmo era na Isla del Sol.  Eu tinha um roteiro planejado mas mudei de ideia na última hora depois de ouvir as dicas do Jorge, garçom do restaurante em Copacabana.

A Isla é dividida em dois povoados: Yumani, ao sul; e Challapampa, ao norte. Os barcos para chegar à Isla saem de Copacabana e vão para Yumani ou para Challapampa. Existe uma trilha que vai de um lado ao outro passando por cima de um morrão e pode ser feita em três horas, visitando ruínas incas e vendo aquelas vistas maravilhosas lá do alto. É preciso pagar um “pedágio” de 20 Bs.  pra fazer essa trilha. O dinheiro ajuda a sustentar a comunidade local.

Meu plano inicial era chegar em Challapampa, fazer a trilha até Yumani e dormir por lá, para então zarpar no dia seguinte cedinho dali mesmo de volta para Copacabana. Mas o Jorge, que tinha morado alguns meses na Isla, falou que Yumani era bem turistona e Challapampa era mais roots, mais tranquila, mais bonita e tinha praia. Ele me convenceu quando disse “praia” e eu decidi dormir em Challapampa mesmo.

Chegando na Isla del Sol

Depois dos dois dias passando mal da altitude e do estômago em Copacabana, achei que uma noite a mais de sono ia me fazer sentir melhor, e realmente, no dia anterior em Copa eu já estava melhorando.

Esse mal estar foi coisa séria, que acabou me deixando de cama durante 2 dias inteiros e impactando bastante a viagem. Ainda bem que, sendo mochileira bem preparada, eu tinha o Seguro Viagem da Mondial. No post Seguro viagem vale a pena? eu conto como me virei sozinha com a doença e mostro como contratar o seguro com desconto e ainda dando um help pra manter o blog.

Já de manhã, penando pra caminhar até o trapiche onde eu deveria pegar o barco (o mais longe de todos, é claro), mesmo tendo deixado a mochila cargueira no hotel e carregando pouca coisa na mochila de ataque, pressenti que essa trip não seria fácil.

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Resisti bem à travessia de barco. A viagem é longa, coisa de duas horas, mas tudo é tão lindo, até o próprio barquinho, que nem parece que passou tanto tempo. Fiquei a maior parte do tempo encostada na janelinha no andar de baixo tirando fotos, mas não resisti e subi pra tomar um ar e sentir o vento e a vibe do lago na cara.

Fiquei emocionada quando enxerguei a famosa árvore solitária

Fiquei emocionada quando enxerguei a famosa árvore solitária

Fiquei emocionadíssima olhando as montanhas lá no fundo

Fiquei emocionadíssima olhando as montanhas lá no fundo

Quando o barco começa a costear a Isla você já tem uma ideia do tamanho da coisa. Ele parou primeiro em Yumani pra um pessoal descer, e depois atracou em Challapampa.

O outro barco ao lado de um dos paredões da Isla

O outro barco ao lado de um dos paredões da Isla

Já no trapiche deu pra entender por que dizem que a parte norte é tão mais legal. Depois de ter passado como barco pela parte sul e visto nada além de paredões de pedra, a parte norte parece um paraíso. Águas calminhas, areia fofa, grama e plantações de totora, gado e porcos criados soltos, sol brilhando, e uma atmosfera geral de tranquilidade.

Era aqui mesmo que eu queria ficar.

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Escolhendo onde dormir em Challapampa

O Jorge me indicou o hostel de um cara chamado Alfonso, que ele dizia ser o mais legal do lugar e custar apenas 15 Bs. a noite. Devia ser mesmo, mas eu simplesmente não consegui chegar lá.

Quando o barco atracou já perguntei pelo tal do Alfonso. Me apontaram a direção, e qual não foi meu desespero ao perceber que ele ficava EM CIMA DO MORRO. Ok, comecei a caminhar, talvez se eu fosse devagarzinho desse pra chegar eventualmente…

Não deu.

A cada dez passos, literalmente, eu precisava parar e descansar pra só então continuar. Achei que não valeria a pena chegar lá em cima nesse estado só pra reservar o quarto e deixar minhas coisas, pra depois ter que descer aquela pirambeira de novo pra passear na Isla, e então subir aquele Everest mais uma vez pra dormir.

Mas as divindades andinas são misericordiosas e os nativos da Isla oferecem quartos na casa deles pra você. Em toda casa você vê plaquinhas escrito “HABITACIONES”. Escolhi uma que parecia bonitinha, ali mesmo no caminho para o Alfonso só que mais perto do trapiche. Paguei 10 Bs. pela noite, a senhorinha que morava ali era uma fofa e a vista do lago era maravilhosa.

Casinhas e porquinhos típicos da Isla del Sol

Casinhas e porquinhos típicos da Isla del Sol

Dei uma deitadinha pra descansar mais um pouquinho, e naquele quartinho simples tomei uma decisão que na hora parecia a única opção sensata.

Eu não iria tentar fazer a trilha até Yumani.

As consequências dessa decisão fizeram com que minha viagem à Isla fosse completamente diferente do que eu esperava. Isso tornou tudo ainda mais especial porque fui obrigada a ser espontânea e confiar na minha intuição, e isso foi importante para o projeto de autoconhecimento da #mochigrinação.

No próximo post, eu vou contar em detalhes qual foi o meu passeio alternativo na Isla del Sol.

Na prática

Como chegar à Isla del Sol

  • Barcos partem de Copacabana todos os dias às 8:30 e 13:30, e custam 25 Bs.
  • Os barcos vão para Challapampa ou Yumani, preste atenção na hora de comprar.
  • Os barcos retornam da Isla nos mesmos horários.
  • A passagem pode ser comprada em agências de viagens ou direto com os barqueiros. O preço é o mesmo.

Onde dormir na Isla del Sol

  • Challapampa:
  • Parte norte da ilha, mais tranquila, mais roots, tem praia, camping etc.
  • Você pode dormir nas casas dos locais por 10 Bs. É só seguir as placas nas casas.
  • Várias pessoas recomendaram o albergue Alfonso, com um público mais jovem e alternativo. 15 Bs. a noite.
  • Yumani:
  • Parte sul da ilha, mais turística, com mais infraestrutura de restaurantes e albergues. Não tem muito o que fazer além da trilha para Challapampa.
  • Aqui também dá pra dormir nas casas dos locais por 10 Bs. É só seguir as placas nas casas.
  • É preciso pagar um “pedágio” de 10 Bs. pra visitar esta parte da ilha.

Recomendações para a Isla del Sol

  • Recomendo pegar o barco para Yumani logo de manhã, fazer a trilha de cerca de 3h até Challapampa, dormir em Challapampa e voltar de lá mesmo para Copacabana no dia seguinte.
  • Deixe sua mochila ou mala grande no hotel em Copacabana. Traga para a Isla só a mochila de ataque com o necessário para um dia.
  • Não pode faltar: protetor solar, repelente, óculos de sol, roupa de banho. Um saco de dormir também é legal porque faz muito frio à noite, mas não é indispensável.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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4 Comentários

  • Responder
    Lafaiete
    14 de janeiro de 2017 às 23:32

    Confesso que passei meia hora tentando parar de rir com a piada do Netinho.rs
    Mas,falando sério,tô me planejando pra fazer um mochilão por quase toda América do sul,e teu blog foi,de longe,o mais informativo e divertido que eu encontrei.Parabéns.

  • Responder
    Mayra Luíza
    30 de junho de 2017 às 12:54

    Primeiramente: OBRIGADA POR EXISTIR!!!
    Vou pra Bolívia em Agosto e seu blog foi o melhooooooor que eu já li até então, ontem fiquei o dia toooooodo navegando nele e suspirando. Você escreve super bem, sabe envolver a gente no seu mundo e isso é fantástico!
    E as fotos? O que dizer delas? Todas lindas!!!
    Agradeço demais as informações postadas, serão de grande utilidade pra mim! Um abraço!

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      19 de julho de 2017 às 15:41

      Oi, Mayra!! Super obrigada pelo comentário!!! Fico muito feliz porque o que eu busco é justamente fazer os leitores sentirem como se tivessem viajado comigo 🙂 Um beijão e boa viagem!!

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