Logo que cheguei em Cusco, descobri que a conversa típica de albergue ali (fiquei no Milhouse) deixava de ser o obrigatório “donceveio? proncevai?” e passava a ser o mais urgente “já foi pra Machu Picchu?

Os mochileiros se dividiam basicamente em antes de Machu Picchu e depois de Machu Picchu. Numa dessas conversas, em que eu era antes de MP, ouvi de um americano depois de MP:

Sabe aqueles lugares mega famosos, que você já viu tanta foto que quando chega lá nem vê mais graça? Então, Machu Picchu não é assim.

Depois do que eu vi na subida até o Passo Salkantay, minha expectativa era outra. A trilha tinha sido tão intensa, verdadeira, dolorosa e maravilhosa que eu estava achando que Machu Picchu seria, sim, mais um daqueles lugares mega famosos, empacotadinhos pela agência de turismo pra você apreciar.

Tanto que decidi abraçar a turistona e subir o morro de ônibus (US$19 ida e volta de Aguas Calientes), enquanto metade do meu grupo continuou no pique trilheiro e fez a subida a pé. Mesmo que eu quisesse ser aventureira nessa hora, não ia rolar porque eu já tava com o pé estourado da trilha, indo pra Machu Picchu de Havaianas (vou falar de novo: leve uma papete) e com medo de não dar conta nem do tour de 2 horas organizado pelo nosso guia.

Preparei uma bela sacola de piquenique em Aguas Calientes com um delicioso sanduíche de palta (abacate), batata chips, uma lata de atum, castanhas, uma banana, iogurte (tudo proibidão, mas ninguém revista) e muita água, só pensando em sentar numa das terrazas e fazer uma bela refeição na companhia de dóceis lhamas que jamais pensariam em cuspir em mim. Acordei de madrugada e cheguei lá em cima antes de amanhecer, no maior conforto. Bom, quase. De madrugada tava um frio do cão.

Ficamos um tempo esperando o grupo todo se reunir na entrada do parque, que numa primeira olhada realmente não impressiona tanto. Mas aí você entra, vira uma esquina e dá de cara com:

DSC03985

Precisei concordar com o americano do hostel. Você passa uma vida olhando pra fotos como essa, acha bonita a montanha, ok. Mas nenhuma foto que eu tenha visto antes de ir tinha a profundidade necessária pra eu realmente começar a compreender o que é Machu Picchu. É emocionante de verdade ver uma cidade inteira construída numa montanha, toda uma engenharia, todo um misticismo, uma história. Tudo isso são coisas que você sabe antes de chegar lá, e se não sabe aprende no tour guiado, mas só consegue compreender a fundo estando ali.

Uma das coisas mais impressionantes de todas foi a percepção de se estar numa montanha rodeada por outras montanhas. Essa muralha natural cria o nascer do sol mais emocionante que eu já presenciei.

Machu Picchu Sunrise Timelapse, por lance lundstrom.

Eu voltaria só pra ficar olhando pra esse sol de novo. Esse sol é o motivo principal pra eu recomendar que você visite Machu Picchu na alta temporada, sim. Vai estar lotado de turistas, sim, mas por ser a época seca (maio-setembro), é quase garantido que o dia não vai estar nublado e você vai ver esse espetáculo. Prefiro ver isso e ter que esperar um pouco pra tirar fotos do que ter um parque nublado, úmido e cheio de pedras escorregadias só pra mim. Se você puder escolher, escolha maio ou junho, que ainda não é o ápice das férias do Hemisfério Norte e talvez role pegar um dia de sol sem aquela galera toda de brinde.

O tour das ruínas quem deu foi o mesmo guia da trilha, com o mesmo grupo todo reunido. Apesar de estar todo mundo morto, naquela hora a empolgação vai lá em cima e a gente chega a esquecer do cansaço. Vimos as partes mais importantes do parque em cerca de 2 horas. O guia explicou, na medida do possível, tudo o que se pode supor sobre os incas e sobre o uso da cidade, tendo como base as descobertas arqueológicas e os estudos feitos até agora. Essa certeza de não termos certeza do que acontecia é o que me fascina tanto nos povos antigos.

Depois que o tour terminou, chegou a hora das despedidas. Essa hora é sempre meio bittersweet porque você sabe que dificilmente vai ver aquelas pessoas de novo, mas também sabe que elas sempre vão fazer parte dessa experiência inesquecível que vocês compartilharam, uma experiência que nunca é igual porque as pessoas nunca são iguais. Eu dei muita sorte por cair em um grupo que se entrosou super bem, onde todo mundo tinha uma vibe positiva e estava super animado e interessado. Serei sempre grata (:

Grupo da Trilha Salkantay no nosso destino final
Grupo da Trilha Salkantay no nosso destino final

Meu trem de volta para Cusco era só às 21h, então meu plano era ficar no parque até o final da tarde. Isso porque a grande maioria das pessoas vai embora no trem das 14h e pouca, o que significa que lá pelas 13h o parque começa a esvaziar, enquanto pela manhã ele fica lotadão.

Algumas pessoas do grupo tinham comprado ingresso (com bastante antecedência) pra subir a montanha Huayna Picchu nesse meio tempo. Eu não comprei porque meu interesse era curtir o misticismo do rolê, e eu não queria ter que encarar outro desafio depois de finalmente chegar lá. Fiquei bem feliz em só estar ali e observar.

Se você fizer questão de subir Huayna Picchu, há boatos de que a subida e a descida são tensíssimas, mas a vista é linda e o empenho é recompensado. Os Andarilhos do Mundo contam em detalhes como foi!

Em vez disso, existem outras trilhas mais tranquilas dentro do parque, sem precisar pagar um ingresso à parte. Eu tomei como base o ótimo guia do Turomaquia com as opções do que você pode fazer.

O número um na minha lista era chegar até Inti Punku, a Porta do Sol. Essa é a entrada original de Machu Picchu, o acesso que os antigos incas usavam quando vinham a pé da capital do império (Cusco). É por ela que hoje chegam os mochileiros que fazem a Trilha Inca.

A entrada da trilha que leva até lá em cima é bem sinalizada e dali em diante não tem erro, é só seguir o caminho. A subida leva cerca de 1 hora e é um pouco cansativa, mas nada que algumas pausas e muita água não resolvam. Eu fazia questão de não olhar pra trás até chegar lá em cima porque queria ter aquela surpresa da vista.

MP bem pequenininho visto desde a Inti Punku
MP bem pequenininho visto desde a Inti Punku

Valeu a pena. Se o nascer do sol que eu vi já foi espetacular, posso apenas imaginar como deve ser maravilhoso ter essa primeira visão da cidade logo ao amanhecer, depois de 3 dias inteiros caminhando na rota dos antigos pra chegar até aqui.

Pensei em fazer meu piquenique aqui em cima, mas obviamente eu não fui a primeira nem a segunda pessoa a ter essa ideia e o local já estava entulhado de gente. Também pudera, as ruínas aqui fazem uma sombrinha deliciosa e bate um ventinho gostoso, perfeito pra fugir um pouco do calor. Acabei me juntando ao piquenique dos canadenses com quem vim conversando na subida. Dividimos nossas frutas e água e eu nunca comi uma mimosa tão gostosa.

A descida foi tranquila, mas aí o cansaço começou a pegar. Achei uma terraza tranquila pra sentar e comer meu almoço. Na terraza ao lado tinha uma mamãe lhama com seu bebê lhama muito louco correndo pra todo lado. Na terraza de cima tinha um casal de argentinos tentando se entender com um casal do interior paulista. À frente, outras ruínas e as montanhas.

Lhamitas <3
Lhamitas <3

A essa hora o parque já estava bem mais vazio, e foi muito gostoso poder ficar sentada ali sem fazer nada o tempo que eu quisesse, só sentindo a vibe e observando os arredores. Esse tempo “ocioso” é uma das coisas que eu mais valorizo quando viajo. Depois de uma caminhada de quatro dias em que eu vi e vivi tanta coisa bonita, a última coisa que eu queria era vir pra Machu Picchu tendo que ver tudo na correria atrás de um guia e me matando pra tirar as mesmas fotos que todo mundo quer tirar sem que ninguém esteja no caminho.

Levantei pensando em encarar a Ponte Inca, mas minhas pernas já tavam sofrendo muito e a ideia de relaxar tomando um belo Pisco Sour nas termas de Aguas Calientes estava rapidamente passando de uma possível opção a um plano concreto.

Antes de pegar o ônibus pra voltar pro povoado, aproveitei que tinha bem menos gente aglomerada pra poder, finalmente, tirar aquela foto obrigatória.

Sabe aquela?
Sabe aquela?

Não deu pra explorar todas as casinhas e terrazas de Machu Picchu nem pra subir montanhas. Deu, sim, pra ver o nascer do sol mais lindo do mundo, fazer o piquenique mais gostoso no lugar mais bonito e, mais importante, deu pra viver tudo o que eu queria viver. Mesmo esgotada depois de quatro dias de caminhada, mesmo usando chinelo Havaiana porque meu pé não entrava na bota de tanta bolha.

Eles vendem a Trilha Salkantay como um caminho para se chegar até Machu Picchu. Mas eu não vi dessa forma. O contato próximo com a Apu Salkantay, passar por todas aquelas paisagens lindas e o simples fato de andar pra caralho no meio do mato me tocaram de uma forma única, independente do que foi a experiência de Machu Picchu. Inigualável é a única palavra em que eu consigo pensar no momento.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.