Causos e reflexões

Intercâmbio: A síndrome do primeiro dia

É com muita alegria e ansiedade que venho contar para vocês que em breve estarei partindo para meu quarto intercâmbio. Vou novamente trabalhar no Walt Disney World, mas em um programa diferente – você pode ficar por dentro de tudo no meu blog Disney.

Com isso, e com a ansiedade rugindo a pouco mais de dois meses da viagem (embarco dia 31/05), pus-me a pensar  em um aspecto muito pouco abordado dos intercâmbios: o primeiro dia.

Meu primeiro intercâmbio foi um semestre de High School, em 2004, numa belíssima cidadezinha de 14.000 habitantes chamada Camas, na fronteira entre os estados de Washington e Oregon, nos EUA. Ganhei uma bolsa da agência World Study, que fez um ótimo trabalho de preparação pré-embarque com todos os adolescentes que iam fazer intercâmbio para os Estados Unidos naquela época. Eles cobriram tudo, desde problemas de bullying na escola (numa época em que bullying nem estava na moda) até dicas para se adaptar bem com a família hospedeira. Mas nada, nada do que eles disseram nas extensivas palestras com atividades em grupo e relatos de ex-intercambistas me preparou para aquele sentimento de primeiro dia.

Porque desde o começo do nascimento da ideia de fazer um intercâmbio, passando pela aprovação e patrocínio dos pais, a efetiva escolha do país/cidade e da agência de intercâmbio, compra de passagens, requisição de visto, arrumação de mala, até a sua festa de despedida, é uma ansiedade sem fim. Você pesquisa à exaustão tudo o que se tem para saber sobre a cidade onde vai morar, conversa pela internet com sua futura família, pensa em presentes para levar e tenta não entupir demais a mala. Você sempre imagina como será seu intercâmbio, seus amigos, sua vida, mas é difícil imaginar como tudo vai começar.

Meu primeiro dia no primeiro intercâmbio foi terrível, e imagino que todos sejam. Você chega no aeroporto e ainda tá tudo lindo, você ainda tá naquela animação da viagem. Aí você encontra a família hospedeira, e eles te levam num carro estranho para uma casa linda, e aí tudo começa a ficar esquisito. De repente, você está sentado na sala de estar, rodeado de pessoas que só têm as melhores intenções, mas que ainda assim são pessoas estranhas, e você se sente a visita mais incoveniente do mundo, e se sente ainda mais desconfortável quando percebe que vai ter que se esforçar para se tornar um deles, afinal essas pessoas vão ser sua família agora, e você vai precisar ficar lá por no mínimo seis meses porque voltar pra casa da mamãe naquele exato instante seria vergonhoso demais. Depois você toma banho naquele banheiro novo e vai dormir naquela cama estranha, e acorda no outro dia ainda se sentindo uma visita, e todos te tratando com a maior naturalidade como se nada disso fosse estranho para eles também, vão te falando “pode pegar o que quiser da geladeira, aqui é a máquina de lavar louça, se quiser pode ligar a TV e ver um filme, tem vários livros nessa estante também”. E você ainda se sente desconfortável em abrir a geladeira na casa dos outros, mas vai lá e abre mesmo assim porque vai ter que abrir mais cedo ou mais tarde, e vem aquela sensação de aventura de desobedecer regras sociais douradas tipo a da geladeira (fuck the police), e de repente tudo passa e quando você percebe, já é um deles. Mas até passar, é muito desconfortável. Desconfortável é a palavra da vez.

No último dia, todos querem assinar sua bandeira e você quer abraçar a todos. Bem diferente do PRIMEIRO dia…

Achei que isso fosse probleminha da minha cabeça adolescente ansiosa, até que chegou meu primeiro dia na Disney, em 2008. Lá você não tem uma família hospedeira, tem companheiros de quarto, ou roommates, e estes são escolhidos pela Disney em sua infinita sabedoria. Você chega no condomínio, te dão um número de apartamento, uma chave e um te vira negona.

Entrei no Patterson Court 12205, meu primeiro apartamento, e ele estava novinho e limpinho e brilhando. Pensei que tinha tirado a sorte grande e seria a primeira a chegar num apartamento de seis pessoas, mas aí uma americana me ouviu chegando e apareceu na sala pra se apresentar. Falou que o apê já estava ocupado por quatro americanas que moravam lá há quatro meses e que uma brasileira tinha chegado no dia anterior e estava dividindo o quarto com ela, o que deixava para mim só uma cama no quarto que restou. Ninguém mais estava em casa além dela, então quando deixei minhas coisas e corri para o pátio do condomínio, imaginar como seriam as outras me deu três tipos de suadouro. Encontrei uma amiga que tinha vindo comigo e ficou em outro apartamento, e ela vinha desesperada pelo pátio contando que só o que ela conseguia pensar era “o que estou fazendo aqui?” Ela teve a mesma sensação de estranheza e desconforto que eu já tinha tido antes e estava tendo de novo.

Aparentemente, esta foi a primeira foto que decidi tirar assim que cheguei no condomínio na Disney

Quase um ano depois, querendo me enganar que tudo seria diferente porque eu já tinha vivido aquilo antes, cheguei em Lyon e quebrei a cara: o sofrimento do primeiro dia se repetiu. Eu havia alugado um quarto num apartamento de uma mulher bem mais velha que eu (então jovem universitária querendo curtição no além-mar) e tive a doce ilusão de que isso daria certo. Na realidade, além de eu me sentir desconfortável com aquela sensação inicial de ser a visita mais inconveniente do mundo, ainda por cima o apartamento não era legal e a mulher, apesar de ter as melhores intenções, tinha hábitos completamente diferentes dos meus. Foi um primeiro mês bem complicado procurando outra moradia. Depois consegui felizmente me mudar para uma residência estudantil, que era o que eu mais queria desde o início do processo todo, e meu intercâmbio mudou completamente.

Uma vez que o primeiro dia tinha sido tão traumático, no segundo dia fiz de tudo para ficar na rua o máximo possível e não ter de voltar praquela casa onde eu era uma estranha. Inclusive comer pizza na praça e tomar vinho em copo de plástico.

Para aqueles que ainda pretendem fazer um intercâmbio na vida, fiquem preparados: vocês jamais estarão preparados para o que vão sentir no primeiro dia. O último dia, quando você sabe que vai estar triste por ir embora e deixar todos os seus amigos novos, ainda é fichinha perto do primeiro. Boa sorte!

Leia também

5 Comentários

  • Responder
    Aline
    24 de março de 2012 às 05:06

    No meu caso não é intercâmbio, vim pra Holanda fazer todo o doutorado aqui, então pelo menos 4 anos, mas tudo o que fiz no primeiro dia foi ficar no quarto pensando “o que eu to fazendo aqui nesse lugar que não entendo nada?”, chorando (“vou morrer de saudades de tudo/todos”) e comendo stroopwafel, hahaha.

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      26 de março de 2012 às 13:43

      ai guria, ME IDENTIFICO! é exatamente essa a sensação! “o que que eu to fazendo da minha vida?” hahaha mas depois passa e tudo fica lindo 🙂

  • Responder
    Maria Clara
    31 de março de 2012 às 04:21

    Hehehe sempre desconfiei que vc ainda ia voltar pra lá!! Que bom que vai mesmo! Sucesso no novo intercâmbio!!

  • Responder
    Larissa
    24 de junho de 2017 às 17:38

    Estou passando por isso exatamente agora e ler isso me acalmou muito! Acabei de chegar na Califórnia e minha família aqui está sendo um amor comigo, mas tudo que consigo fazer é chorar na cama desesperada pra saber se vou conseguir fazer amigos e me sentir menos “estranha” aqui hahahaha

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      19 de julho de 2017 às 15:39

      Oi, Larissa!! Que bom que ler uma experiência parecida te acalmou! A gente não se sente mais tão sozinha, né? É bem difícil mesmo, mas converse com sua família e busque conhecer melhor cada um deles. Logo logo você vai estar tão entrosada que não vai mais querer ir embora 🙂

      Beijos!

    Deixe um comentário