Mochilão implica nisso mesmo que você está pensando: levar a vida toda numa mochila por um certo período de tempo. E mochila implica em levar peso nas costas, o que não é bom nem pra suas lindas costas nem pra sua linda paciência. O negócio é levar o mínimo de peso possível, mas como escolher o que levar?

Vou contar aqui a experiência pessoal da minha mochila e do meu mochilão. Fui e voltei e fiquei bem feliz mesmo com minhas escolhas. Não levei nenhum peso morto, nada que ficou sem uso, senti falta de pouquíssima coisa, e me senti bonita e apresentável o tempo todo. Posso falar apenas da minha experiência, mas espero poder ajudar a todas com algumas das táticas que usei.

As dicas aqui são voltadas principalmente pras mina, mas ozamigo também podem aproveitar 🙂

O recipiente

40 litros de lindeza
40 litros de lindeza

Comprei essa mochila no ano passado, uma Quechua Forclaz 40l, custa R$199 na Decathlon. Usei em viagens curtas pelo menos duas vezes por mês no último ano e ela aguentou com maestria o tranco da Mochigrinação. Abre na frente e em cima, tem bolsos enormes dos lados, um bolsinho na barrigueira (imprescindível!) e várias regulagens pra encaixar perfeito no corpinho. Recomendo pra qualquer um por ser um ótimo custo/benefício.

Agora, o tamanho da mochila vai depender do seu corpo. Sou pequena e não gosto de carregar muito peso, então considero 40 litros o ideal para mim. Quem precisa levar mais equipamentos e pode carregar mais peso pode usar de 60 ou 70 litros. Geral ficava chocado com o tamanho da minha mochila, todo mundo tava levando uns monstros de 60 litros. Mas o importante é não ir além da sua capacidade e escolher um modelo que se ajuste bem ao seu corpo, com barrigueira para carregar o peso no quadril e não machucar os ombros. A Cris Marques, do blog Dentro do Mochilão, dá as dicas pra escolher a mochila certa pra você.

Levei também uma mochila de ataque de 20 litros, simplesinha, para deixar o mochilão no albergue e usar durante os passeios carregando tudo o que fosse importante: carteira, máquina fotográfica, água, lanchinhos, casaquinho, protetor solar etc.

As roupas

Tenho algumas técnicas pra manter a minha mochila o mais leve possível. A primeira é levar roupa para uma semana. A maioria dos albergues tem algum tipo de serviço de lavanderia e é baratinho, então jamais valerá a pena levar mais roupa do que você precisa. Cinco camisetas, um jeans, duas leggings, um shorts e roupas de baixo foi o que eu levei. Não preciso falar que é bom levar roupas de tecidos que não amassem né?

A segunda é escolher as roupas de forma que todas elas combinem entre si. Isso é para que você consiga montar looks diferentes com as mesmas roupas e não precise levar várias pra ficar bem vestida. Só levei camiseta preta, branca, bege e cinza. Com jeans não tem erro. Com legging preta não tem erro.

Roupas que combinem entre si: até um fleece ROSA funciona com um jeans basicão e blusas neutras. E olha o lenço aí :D
Roupas que combinam entre si: até um fleece ROSA funciona com um jeans basicão e blusas neutras. Observe o lenço.

Eu sempre levo também um ou dois lenços, que podem dar uma mudada no look pra você não enjoar, e são peças pequenas que não ocupam espaço. Uma canga aqui também é bem legal porque serve pra tudo, desde lenço no pescoço até saia, e dá até pra sentar em cima, veja só!

Podia ser só uma roupa inteira preta, mas tinha um lenço lindão pra fazer uma graça e ainda me deixar quentinha no frio do Altiplano boliviano (:
Podia ser só uma roupa inteira preta, mas tinha um lenço lindão pra fazer uma graça e ainda me deixar quentinha no frio do Altiplano boliviano (:

Pra sair à noite, levei UM top mais legalzinho, levinho e que não amassa, pra usar com o mesmo jeans de todo dia, mas dá pra levar até um vestido leve que não amasse. Só um look de noite é o suficiente, ninguém vai reparar que você tá repetindo aquele top preto, até porque você dificilmente verá as mesmas pessoas em dias diferentes.

Para o frio, levei uma calça e uma blusa térmicas para usar por baixo de tudo, dois casacos fleece e uma jaqueta corta-vento impermeável. Esse esquema de camadas é o ideal para você não levar peso a mais só porque está frio. O corta-vento, quando dobrado, fica super pequeno e leve pra guardar na mochila, ao contrário de um casacão luxuosíssimo que ocupa uma mala inteira sozinho. As roupas térmicas, pra usar como primeira camada, são fininhas e possuem uma tecnologia que mantém o calor do corpo mas te deixa respirar, sendo perfeitas pra você ficar bem quentinha sem virar o bonequinho da Michelin de tantas camadas.

Além de tudo isso, escolhi desapegar também dos acessórios. Curto muito um enfeitinho, então escolhi peças que fossem práticas e versáteis, de materiais resistentes à umidade para que eu não precise tirar nunca, nem pra tomar banho. Brincos pequenos (três em cada orelha), uma correntinha curta no pescoço, um anel, e pulseirinhas de courinho e outras pulseirinhas de hippie que comprei em várias paradas por lá. Tudo isso só pra dar um brilhinho sem precisar carregar um monte de bijus diferentes pra cada ocasião.

Os sapatos

Um tênis para caminhadas e um chinelo de borracha pra descansar e tomar banho em chuveiros suspeitos é tudo o que você precisa. Além disso eu levei uma sapatilha basiquinha para sair à noite ou dar um rolê mais curto, mas acabei usando bem menos do que eu planejava. Era frio demais pra sair à noite sem um sapato fechado, então só usei mesmo nos poucos lugares em que estava calor. Podia ter passado sem.

Como fiz a trilha Salkantay, em vez de tênis fui com uma bota impermeável para caminhada. Por restrições de espaço, só dava pra levar um sapato fechado. Vou confessar pra vocês que eu penei pra achar uma bota que fosse boa pra trilha porém bonita pra usar na cidade, e a Timberland Flume foi a que escolhi. Nunca precisei de um calçado desse tipo antes, então comprei especificamente para o mochilão. Usei bastante na cidade antes de ir, para amaciar, e no fim as botas acabaram sendo minhas melhores amigas na viagem toda.

Não dava pra tirar do pé, nem pra sentar na beira do Lago Titicaca
Não tirava do pé nem pra sentar na beira do Lago Titicaca

Uma coisa de que eu senti falta foi uma papete. Sim, papete, aquela sandália abominável. Principalmente durante a trilha, tem horas que você não aguenta mais o pé dentro da bota, mas também não pode colocar uma Havaianas pra andar porque ela não prende no pé nem protege os dedinhos. Nos acampamentos, à noite, tudo o que eu queria era tirar o pé da bota, mas estava frio demais pra usar Havaianas, e a papete seria perfeita para usar com duas meias grossas e quentinhas, bem gringona mesmo. Recomendo.

A necessaire

Essa é uma das partes mais difíceis e pesadas da mala, e onde precisei fazer mais sacrifícios. Aqui é preciso ser crítica e avaliar o que é absolutamente necessário para você.

Para higiene em geral, levei uma escova de dentes desmontável para viagem (tem pra comprar em farmácias e supermercados) e um tubo de pasta de dentes que estava pela metade; um desodorante roll-on (a embalagem é menor!); um pacote pequeno de lencinhos umedecidos de bebê para os dias em que não tem banho disponível (sim, eles acontecem!); um rolo de papel higiênico (apenas indispensável); e um potinho pequeno de álcool gel.

Para o cabelo, levei só um shampoo, sem condicionador, porque achei que seria desnecessário e também não queria carregar dois potes, mas senti falta. Talvez um bom shampoo 2 em 1 fosse uma boa solução. Como a viagem seria longa, levei um pote de shampoo pela metade que eu já tinha em casa, mas se eu fosse ficar menos tempo, colocaria tudo dentro de um potinho pequeno de 100ml, vendido em farmácias e supermercados.

Para pentear, levei uma daquelas escovinhas retráteis com espelhinho, além de um ou dois elastiquinhos e grampinhos pra quando eu quisesse prender. Os lenços, que mencionei ali atrás, também servem pra enfeitar o cabelo.

Secador e chapinha simplesmente não te pertencem, pode esquecer que essas geringonças existem. Deixe o cabelo secar ao natural e continue sendo linda 🙂

Para a pele, em vez de creme pro dia, creme pra noite, creme pro rosto, creme pro corpo, creme pra mão, creme pro pé etc. etc., optei por levar apenas um hidratante e um protetor solar fps 50 (frascos pequenos).

O hidratante foi completamente inútil no meu mochilão porque é TÃO frio e TÃO seco no altiplano que um hidratante normal e cheirosinho não deu conta de manter minha pele hidratada. Só o que resolveu a secura foi Hipoglós, que eu só levei porque minha mãe insistiu muito (valeu, mãe!). Eu passava uma camada fina pra proteger e à noite, antes de dormir, tacava-lhe pau no Hipoglós e fazia aquela máscara branca. Quando acordava estava com a pele de nenê de novo. Eu poderia muito bem ter deixado o hidratante em casa e economizado esse espacinho na mala. Mas aí vai do seu roteiro, estude bem as condições climáticas do lugar para onde você vai.

O protetor solar no rosto foi essencial todos os dias, e também usei nos ombros em alguns dias em que fez um calorzinho e deu pra andar de camiseta. Levar um torrão é um desconforto bem desnecessário, sem contar que fica feio.

Não esqueça o protetor solar todos os dias
Não esqueça o protetor solar todos os dias para não ficar com cara de guaxinim

Ah, e se você for pro mato, não pode esquecer também o repelente.

Maquiagem, olha, em grande parte considero desnecessário. Eu tava quebrando a cabeça pensando no que ia levar, até ouvir aquela voz interna me dizendo “fia, você vai andar no meio do mato e do deserto, ninguém vai reparar se você estiver sem primer nem iluminador nem sombra nem sobrancelha pintadinha”. Um rímel e um batom vermelho foi tudo o que eu levei para ficar com uma cara um pouquinho diferente quando fosse sair à noite. Se não dá pra viver sem base, é legal levar um BB cream, que é levinho e já tem função de primer e protetor solar embutido, assim você só leva um produto.

Eu levei também um protetor labial hidratante com cor, porque lá era muito frio e muito seco e não dava pra viver sem. O fato de ele ter uma corzinha dava um toque a mais na minha cara no dia a dia. Recomendo muitíssimo o Chubby Stick, da Clinique; usei o meu até acabar.

Para as unhas, levei apenas uma lixa, e optei por levar uma tesourinha de unha em vez de cortador de unha, já que a tesourinha serve para vários outros usos. Esmalte já não dura nem uma semana em condições normais de vida, numa viagem, então, não dura nada, e eu é que não ia levar acetona, esmaltes, alicate, algodão e tudo o mais para fazer uma manicure completa no meio da trip. Meu objetivo era sempre ter unhas limpas e bem aparadas, não precisa de esmalte pra unha ficar bonita.

Remédios e outros apetrechos

Não dá pra ir sem sua farmacinha e os remédios que você costuma usar. Antialérgico prazamiga riniteira, anticoncepcional (calcule quantas cartelinhas você vai precisar), relaxante muscular pras trilheiras, paracetamol etc. Na Bolívia e no Peru dá pra comprar qualquer tarja preta na farmácia sem receita e baratinho, então não precisa se preocupar tanto com as coisas mais básicas (aspirina etc.), mas não esqueça remédios de uso contínuo, e tome cuidado se você for alérgica a alguma substância.

Pra economizar espaço com eletrônicos, selecione bem o que realmente será usado. Eu optei por não levar laptop, usava apenas o smartphone pra me conectar e ouvir música e foi o suficiente. Meu amado Kobo levou os livros que li, só que com um tamanho diminuto e peso menor ainda. Um e-reader não é super imprescindível, mas nossa, foi uma mão na roda. Se você gosta de foto, não tem muito o que fazer, leve a câmera e todo o equipamento, aceite esse “fardo” e seja feliz!

Um saco de dormir, para o tipo de viagem que eu fiz, foi indispensável. Além de ser uma coberta a mais quando o quarto do albergue era frio, também servia de cobertinha quando os ônibus eram gelados, além de servir de lençol em albergues suspeitos.

No último minuto, decidi por levar também uma almofadinha de viagem, daquelas em formato de ferradura. Achei que ia ser um saco carregar aquilo e não usar nunca, mas usei absolutamente todos os dias nas camas dos albergues, e ela tornou minhas viagens intermináveis em ônibus muito mais confortáveis. Recomendo.

No geral

As coisas de que você realmente precisa em um mochilão são uma escolha muito pessoal, mas é preciso muito bom senso para não cair na armadilha do “quem sabe posso precisar”. Uma dica boa e bem conhecida pra reduzir espaço na mala é escolher tudo o que você quer levar, e depois reduzir pela metade. Funciona porque naquela primeira peneirada você não pensa de forma tão crítica sobre o que você realmente precisa. Quando você se obriga a reduzir a carga, fica mais fácil.

Lembre-se de que você vai estar carregando todo esse peso nas costas sozinha e isso pode causar dores e um desconforto completamente desnecessário que pode transformar sua viagem numa bad trip. Apenas lembre-se sempre de que você já é linda e não precisa de um milhão de produtos nem um milhão de looks pra ficar linda no mochilão. Desapegue e seja feliz 🙂

Que história é essa de mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.