Você sabia que existem mil e uma maneiras de chegar a Machu Picchu? Uma delas é a Trilha Salkantay, que parte de um vilarejo chamado Mollepata, na região de Cusco, e vai até Aguas Calientes, o “campo base” de Machu Picchu. São 60 km percorridos a pé ao longo de quatro dias, passando a noite nos mato, dormindo em barraca e chegando à altitude máxima de 4600 m.a.n.m. no passo entre o Monte Salkantay e o Monte Humantay.

A #mochigrinação e tudo o que ela se tornou pra mim partiu do meu desejo de fazer essa trilha. Eu sentia que só chegar no Peru e visitar Machu Picchu não ia suprir a minha necessidade de experiências únicas e emocionalmente desafiadoras. Caminhar durante quatro dias, mesmo que dentro de um ambiente de grupo turístico super controlado e seguro, me colocou em contato direto com meus limites físicos e com todo o poder energético das divindades das montanhas (chamadas de apu pelos aimará). Foi uma experiência que teve um impacto significativo na minha vida, e que eu fico muito, muito feliz em compartilhar com vocês.

Mt. Salkantay
Mt. Salkantay

Neste post, vou passar informações práticas e detalhadas sobre os preparativos da empreitada. Os próximos textos vão trazer um registro diário de causos e sentimentos da minha passagem pelo Salkantay.

Como faz?

É perfeitamente possível fazer o Salkantay por conta própria, embora isso só seja recomendável se você já for um andarilho que manja das aventura. Caso contrário, o bom senso recomenda contratar uma agência de turismo.

Como a demanda de gente louca pra andar no mato é alta, quase todas as agências de Cusco vendem o tour clássico da Trilha Salkantay, de 5 dias e 4 noites. Algumas poucas realmente operam o tour. O que acontece é que várias agências diferentes vendem um mesmo tour, o que faz com que as pessoas em um mesmo grupo paguem cada uma um valor diferente. Por isso é legal pesquisar bastante.

Eu comprei com a Puma’s Trek, que fica bem na Plaza de Armas e é bem fácil de achar. Apesar da agência contar com precisamente um vendedor competente, achei muito bom o serviço, que não é operado por eles. O guia era atencioso, a comida era boa, o equipamento estava em perfeito estado, deu tudo certo. Reservei lá mesmo, com dois dias de antecedência. Eu paguei US$240, mas só porque sou péssima em negociação. Teve gente no meu grupo que pagou bem menos, então sempre vale aquela chorada.

Basicamente, o papel da agência é cuidar de toda a parte chata para que o seu trabalho seja apenas caminhar. Eles carregam, montam e desmontam as barracas, carregam os equipamentos de cozinha e alimentos e cozinham pra você. Mamata. Eles também organizam o transporte até Mollepata, seu ingresso para Machu Picchu e seu retorno a Cusco. Além, é claro, de garantir que você não se perca no mato e lhe acudir caso você passe mal com a altitude.

Os pacotes não variam muito de uma agência pra outra, e normalmente incluem:

  • Transporte em van desde o seu albergue até Mollepata
  • Mulas para carregar malas e equipamentos
  • Ajudantes e cozinheiros
  • Guia profissional
  • Barracas e colchonetes
  • Almoço e janta do Dia 1
  • Café da manhã, almoço e janta do Dia 2
  • Café da manhã, almoço e janta do Dia 3
  • Café da manhã e almoço do Dia 4
  • Pernoite em hotel em Aguas Calientes
  • Ingresso para Machu Picchu
  • Visita guiada em Machu Picchu
  • Retorno de Aguas Calientes para Cusco

Tem algumas coisas que os pacotes não incluem e que você precisa pagar à parte:

  • Saco de dormir (levar o seu ou alugar com a agência)
  • Café da manhã do Dia 1 (s/. 15) e janta do Dia 4 (s/. 40)
  • Gorjetas para os muleiros, cozinheiros e guias (total de s/. 100)
  • Lanchinhos e água (tem pra comprar ao longo da trilha)
  • Entrada nas termas de Santa Teresa (s/. 15)
  • Ônibus de Aguas Calientes para Machu Picchu (US$ 19 ida e volta)
  • Seguro viagem (na minha mão é mais barato)

Equipamento

Carregar peso já é uma coisa que eu normalmente abomino. Carregar peso ao longo de 60km estava fora de cogitação, então eu estava decidida a me programar bem para não ter problemas. Considero que minha logística da coisa foi bem planejada.

Mochila ideal para a trilha

Nos três primeiros dias, a agência disponibiliza uma mula pra levar as coisas da galera. Cada pessoa pode levar no máximo 5kg na mula. A cilada é que no quarto dia não tem mais mula e você tem que carregar tudo. Isso significa que nos três primeiros dias você pode andar só com o que vai usar na caminhada: água, lanchinhos, protetor solar, câmera fotográfica e casaquinho. A mula leva seu saco de dormir, muda de roupas e outras coisas que você só for usar no acampamento.

Além disso, como são poucos dias e você não pode nem quer carregar muito peso, dá pra deixar a maioria das suas coisas no hostel em Cusco e levar só o necessário. Minha mochila grande, por ser ajustável e ter barrigueira, era muito mais confortável pra caminhar do que minha mochila de ataque, então usei ela pra trilha. Enfiei tudo o que não ia usar na mochila de ataque, tranquei com cadeado e deixei no depósito do hostel.

Para a bagagem que ia na mula, usei um saco de tecido grande com zíper. Com isso, no Dia 4, quando não tinha mais mula, bastou colocar o saco (que não pesa nada nem tem volume extra) dentro da mochila grande e seguir andando, bem mais confortável do que levar duas mochilas. Também deu pra usar esse saco pra levar o que eu ia usar em Machu Picchu (água, lanchinhos, protetor solar, câmera fotográfica e casaquinho), enquanto o resto das coisas ficou dentro da mochila, que deixei no hotel em Aguas Calientes.

Mochila confortável é caso de vida ou morte
Mochila confortável = gostosos sorrisos

O que levar para a trilha

Aqui a pessoa tem que saber equilibrar os fatores pesoabsoluta necessidade. Não é fácil, mas tive um certo sucesso. Não levei nada que não precisei usar e não senti falta de (quase) nada.

É importante prestar atenção na variação de temperatura, que é enorme. No Dia 1 e Dia 2, é extremamente frio pela manhã e à noite, mas muito calor durante a tarde. A noite do Dia 1 foi a noite mais fria que eu passei em toda a minha vida, só uma barraquinha fina me separava de temperaturas negativas. Os Dias 3 e 4 são bem quentes, e o Dia 5 é a visita a Machu Picchu, que também é bem quente.

Pra essa variação dos dois primeiros dias, o esquema é usar camadas: camiseta > blusa térmica > fleece > impermeável. Vai tirando peça por peça ao longo da manhã, e recolocando peça por peça no final da tarde. Nos Dias 3, 4 e 5 saí só com camiseta e fleece.

Minha estratégia foi repetir roupa o máximo possível, já que não tem banho nos primeiros 3 dias mesmo, e levar uma muda limpa e fresca para usar quando chegasse na civilização (Aguas Calientes). Eu dormia com as mesmas roupas com que passava o dia porque simplesmente não tinha outra opção. Era frio demais pra se trocar.

Pensando nisso, esta é a lista detalhada de tudo o que eu levei para fazer a trilha, incluindo o que eu já fui vestindo no corpo desde Cusco:

  • Roupas para os primeiros 4 dias de caminhada
    • 1 Calça térmica (2a pele)
    • 1 Legging
    • 2 Camisetas
    • 1 Blusa térmica (2a pele)
    • 1 Fleece
    • 1 Corta-vento impermeável leve
    • Luvas
    • Gorro
    • Canga/lenço
    • Toalha de microfibra
  • Muda de roupas para o último dia
    • 1 Jeans
    • 1 Camiseta
  • Roupas de baixo
    • 3 Calcinhas
    • 2 Sutiãs esportivos
    • Biquini para tomar banho nas termas de Santa Teresa
    • 2 Pares de meia grossa 0% algodão (eu revezava)
  • Higiene/remédios
    • 2 Sachês de shampoo 3-em-1 comprados em Cusco (o número de vezes que vc vai poder tomar banho é precisamente 2, e com cada sachê você lava cabelo e corpo)
    • Escova de dentes dobrável e pasta de dentes
    • 1 Pacote pequeno de lenços umedecidos (lembra que não tem banho?)
    • Protetor solar
    • Repelente
    • 2 Rolos de micropore para enfaixar os pés
    • Band-aids
    • Dorflex (imprescindível)
    • Aspirina
    • Antiinflamatório
    • Antialérgico
    • Sorochji Pills
    • Hipoglos para queimaduras de sol/frio
    • Rolo de papel higiênico (imprescindível)
    • Pote pequeno de álcool gel
  • Equipamentos/outros
    • Saco de dormir
    • Chinelo
    • Bota de trekking (pode ser tênis)
    • Bastão de caminhada (de preferência um par)
    • Óculos escuros
    • Boné
    • Câmera fotográfica + bateria extra (só tem tomada na noite do Dia 4)

Pézinhos: a base

Comprei uma bota de trekking impermeável da Timberland quatro meses antes da viagem. Eu usei na cidade sempre que pude e ela já chegou na trilha bem amaciada. Segui todas as recomendações trilheiras: usei meias sem algodão que não absorviam o suor; cortei as unhas do pé beeem curtinhas no dia anterior à trip; usei um calçado amaciado.

Mesmo assim, tive bolhas do tamanho de pizzas e perdi uma unha do pé.

Acho que o que eu poderia ter feito de diferente para evitar isso era enfaixar todo o pé com micropore antes de sair do hostel em Cusco. Fiz isso só na noite do primeiro dia, depois que as primeiras bolhas já tinham aparecido, aí já era tarde.

Tinha muita gente de tênis normal de academia no meu grupo, ninguém reclamando de dor. Como eu fui na época seca (maio-setembro), não tinha problema, mas quem for no final/começo do ano vai se dar mal sem um calçado impermeável.

Levei minha Havaianas, mas senti muita falta de uma papete. No final do dia, no acampamento, meu pé ficava destruído e tudo o que eu queria fazer era tirar a bota, mas estava frio demais para usar chinelo. A papete seria perfeita para usar com meia grossa no acampamento. A papete também serve como alternativa para caminhar se a bota machucar. Eu daria tudo para ter visitado Machu Picchu de papete depois de 4 dias andando de bota na trilha.

Para dormir

Eu tinha meu próprio saco de dormir que trouxe do Brasil, um Trilhas & Rumos excelente, quase mais confortável que minha cama. Mas com extremo de 6 °C, ele apenas não era da categoria ideal para as temperaturas negativas das primeiras 2 noites, então mesmo dormindo com todas as minhas roupas uma por cima da outra, eu passei muito frio.

Se eu fosse fazer tudo de novo, deixaria meu saco de dormir no albergue e alugaria um da categoria adequada com a agência.

E lembra do saco de pano que eu usei para levar as coisas na mula? À noite, com as coisas dentro, ele me servia de travesseiro. O cheiro de mula impregnado nele era grandemente obscurecido pelo cheiro das botas minha e da Madeleine, minha best companheira de barraca.

Comida & Água

As refeições principais eram por conta da agência. A comida era muito boa, comidinha caseira peruana mesmo, e não tinha miséria, alimentava muito bem 15 pessoas que acabaram de andar por 6h direto. Mas qualquer um que tenha algum potencial para ser ogro com certeza terá esse fator elevado à décima potência graças ao esforço físico pesado, e não vai se contentar com café da manhã, almoço e janta.

Por sorte, esta trilha é muito bem servida de tias vendendo qualquer tipo de lanche que você possa imaginar, além, é claro, da água mineral néctar dos deuses. Obviamente, essa conveniência tem um preço: espere pagar s/. 10 numa garrafa de 1l e s/. 8 numa barra de chocolate. Espere também agradecer por esse preço mais do que justo por livrar você do fardo de carregar água para 4 dias. Chore de alegria quando encontrar, no Dia 3, barraquinhas vendendo frutas frescas <3

Expectativas

Um amigo meu havia feito a trilha alguns anos antes, e quando perguntei se era muito difícil, a resposta foi sucinta:

A gente se fudeu um pouquinho.

Eu sabia que eu iria me fuder um pouquinho, talvez até um monte, com meu preparo físico duvidoso. Mas também sabia que iria ver paisagens maravilhosas, conhecer gente legal e fazer uma aventura como nunca tinha feito na vida.

Eu já saí do Brasil pilhada pra fazer essa trilha. Eu só pensava nas fotos de montanhas nevadas e céus estrelados que pesquisei à exaustão antes de viajar. Quando fiquei doente e precisei desistir de fazer a trilha da Isla del Sol por estar incapacitada de dar mais de dez passos consecutivos, minha maior preocupação era a possibilidade de ter que abandonar também esta trilha. Eu simplesmente não podia desistir dela. Busquei me tratar, fui internada pela segunda vez graças ao seguro da Mondial, e a primeira coisa que fiz quando me senti melhor foi correr pra agência da Puma’s Trek fazer minha reserva.

Eu saí nesta empreitada no dia 19 de junho de 2014.

E para não trazer mais spoilers, digo apenas que todas as minhas expectativas foram excedidas. Não vejo a hora de contar pra vocês as melhores histórias dessa experiência incrível!

Continue a nadar, continue a nadar... não, pera...
Continue a nadar, continue a nad… não, pera…

Como realmente foi

Sendo o ponto alto da #mochigrinação, minha vivência nesta trilha ganhou uma atenção especial aqui no blog. Diários da Trilha Salkantay é a série de posts com tudo o que eu tenho para contar sobre a caminhada.

  • Preparativos e expectativas: Informações práticas e objetivas e dicas úteis para a trilha.
  • Dia 1: Sentimentos do primeiro dia do desafio.
  • O poder dos apus: O segundo dia, o Passo Salkantay e a divindade da montanha.
  • A selva e as termas de Santa Teresa: A paisagem muda radicalmente e o cansaço começa a pesar.
  • O dia em que eu arreguei: O quarto e último dia da trilha e as alternativas à caminhada.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.