O segundo dia da Trilha Salkantay é o mais antecipado por qualquer mochileiro. É o dia em que se alcança o ponto mais alto da trilha, o Passo Salkantay, passagem entre as montanhas Humantay e Salkantay, a 4.600 m.a.n.m!

É também o dia mais difícil, porque são 4 horas de subida muito íngreme, já que o acampamento de onde saímos nesse dia fica a 3.900 m.a.n.m. Depois disso, o resto do dia é uma descida massacrante que, bom, digo apenas que perdi uma unha do pé.

Existe a possibilidade de fazer a parte mais difícil da trilha a cavalo.
Existe a possibilidade de fazer a parte mais difícil da trilha a cavalo.
E põe difícil nisso: saca a pirambeira!
E põe difícil nisso: dá uma olhada nessa pirambeira!

Eu conheço bem as minhas limitações, então no café da manhã daquele dia, quando o guia perguntou quem gostaria de alugar uma mula (s/. 100) pra subir a parte mais íngreme, as bolhas do dia anterior somadas a toda uma vida de sedentarismo me obrigaram a levantar o bracinho. Até bateu uma certa vergonha de arregar, mas em retrospecto vejo que foi realmente a melhor escolha.

Primeiro porque economizar energia nessa hora foi essencial para que eu continuasse a trilha me sentindo muito bem. E segundo porque consegui aproveitar a paisagem de uma forma que talvez não fosse tão intensa se eu estivesse preocupada em sobreviver.

Explico.

A mitologia andina trabalha com três reinos: o mundo inferior, o mundo terreno, e o mundo superior. Uma crença muito antiga da região é de que as montanhas mais altas, por chegarem fisicamente mais perto do mundo superior, oferecem uma conexão muito poderosa com os deuses. Cada uma dessas montanhas é ao mesmo tempo a morada de um deus e o deus em si: os chamados apus.

A Salkantay é uma delas, e diz-se que ela é uma das poucas apus femininas. Mas saber disso e sentir na pele são duas coisas completamente diferentes.

Salkantay: divina e poderosíssima
Salkantay: enorme, divina e poderosíssima

Metade do nosso grupo escolheu o caminho da mula, então partimos um pouco depois da metade que foi a pé. Os bichos já conheciam bem o caminho e iam subindo praticamente sozinhos, só com um arriero que ia atrás cuidando de tudo.

Sol da manhã bem cedinho <3
Sol da manhã bem cedinho <3

Conforme os bichinhos iam avançando, a gente começava não só a ver a imponência do Salkantay, mas também a sentir a montanha. A energia dela tomou conta do meu corpo todo, vibrando numa frequência altíssima. Era uma energia muito limpa, muito iluminada. Em momento algum tive dúvidas de que estávamos na presença de uma divindade.

Isso pra mim foi emocionante porque há dois anos eu vinha fazendo um trabalho interno bem intenso e, às vezes, doloroso, de rever crenças arraigadas e questionar verdades suspeitas que, durante minha vida toda até então, me impediram de ser a pessoa que eu queria ser. Estar ali, pertinho de uma força tão significativa, me fez sentir paz. Era como se a apu me dissesse “tá tudo bem agora”. Dei uma choradinha.

Não sei o que eu teria sentido se tivesse subido a pé. Suponho que as endorfinas liberadas com o esforço me deixariam mais sensível, e também é provável que só o fato de chegar lá em cima, a famosa superação, já desse um gás. Mas não me arrependo nem um pouco da minha escolha. Me senti muito bem lá em cima, e me senti muito bem durante todo o resto do dia com a energia economizada. Se eu pudesse fazer tudo de novo, teria treinado melhor minha resistência nos meses antes da viagem.

Lá em cima. Lá em cima, gente…

O momento mais aguardo por todos os trilheiros!
O momento mais aguardo por todos os trilheiros!
Nosso grupo incrível
Nosso grupo incrível

Ficamos um bom tempo lá, o guia deu explicações, tiramos fotos. Aproveitei pra parar, me concentrar naquela energia e fazer um pedido. Aí começamos a descida.

É bem cansativo, sim, e é aqui que bastões de caminhada são indispensáveis. A trilha inteirinha está coberta de pedrinhas soltas pequenininhas que, adivinha? Escorregam muito! Quase caí várias vezes, e se não fosse o bastão eu provavelmente teria me machucado.

Cuidado para não escorregar nas pedrinhas enquanto olha esse lugar maravilhoso
Cuidado para não escorregar nas pedrinhas enquanto olha esse lugar maravilhoso
Mas não deixe de parar e passar mal com a vista de vez em quando
Mas não deixe de parar e passar mal com a vista de vez em quando

Nesse dia, o almoço foi um piquenique na beira do rio. Foi uma das melhores refeições da minha vida. Todo mundo aproveitou pra deitar na grama, ficar descalço. O sol estava lindo e deu até pra ficar só de camiseta. Molhar os pézinhos cansados na água congelante do rio foi maravilhoso.

Felizona com os pézinhos na água geladíssima
Felizona com os pézinhos na água geladíssima
Rango arregadíssimo, vista impressionantíssima
Rango arregado com vista super impressionante

Nesse dia também eu pensei que tinha me perdido.

Acabamos nos demorando um pouco mais do que o previsto, e eu fazia mesmo questão de não me apressar, então acabava ficando para trás no grupo. Só que começou a anoitecer, eu estava sozinha e não via nem sinal do acampamento. Ficou escuro de verdade, e foi aí que eu descobri que lanterna de dínamo não serve para caminhadas longas. Por sorte, meu celular ainda estava bem carregado e consegui usar a lanterna dele. O que mais me dava medo era que não passava ninguém na droga da trilha, ninguém pra eu perguntar se estava no caminho certo. Em um dado momento cheguei a uma casinha de madeira bem simples, perguntei pras pessoas ali se tinha algum acampamento próximo, e pelo que elas me indicaram, entendi que teria que passar dentro de uma área cercada onde tinha uns cavalos e uns cachorros, mas estava muito escuro e eu mal conseguia achar a porteira do acampamento. Por sorte o pessoal do grupo me viu e veio mostrar onde era a entrada. Fui a penúltima a chegar, aliviada e me sentindo vitoriosa.

Nesse dia existia a opção de tomar banho quente, pagando s/. 10. Era um chuveirinho a gás que era só um fiozinho de água, então optei por não tomar banho, e achei que foi uma boa decisão. Ainda tava dando pra aturar o cheirinho meu e dos outros.

E no dia seguinte ainda teria um banho muito melhor!

Sobre a Trilha Salkantay

Sendo o ponto alto da #mochigrinação, minha vivência nesta trilha ganhou uma atenção especial aqui no blog. Diários da Trilha Salkantay é a série de posts com tudo o que eu tenho para contar sobre a caminhada.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.