Peru

Diários da Trilha Salkantay: O dia em que eu arreguei

Eu quase não caminhei no 4o e último dia da Trilha Salkantay.

Depois de uma vida de sedentarismo, três dias de subidas e descidas intensas, bolhas assassinas nos pés e dores em músculos que eu nem sabia que tinha, tive que entregar os pontos.

Pela manhã essa escolha não foi difícil. O caminho que teríamos que percorrer a pé era uma estrada feia e fumacenta onde passava muito carro, então o grupo todo escolheu a alternativa que o guia tinha oferecido na noite anterior: fazer tirolesa (ou zipline) sobre o vale do rio Sacsara no meio da floresta.

O passeio todo é organizado por uma empresa chamada Cola de Mono e custa 100 s/. O transporte até o campo base deles está incluso. É muito louco porque eu nunca tinha feito tirolesa na vida e a primeira vez foi logo pancadaria: são 7 linhas (ou seja, 7 travessias de um lado ao outro do vale), a mais alta ficando a 150 m de altura, e a mais longa sendo uma travessia de 40 m. É animal e vale cada centavo. Os guias são super bem preparados e o equipamento é novo e de boa qualidade. Eles dão uma instrução rápida antes de começar e é facinho!

Só que pra chegar até a primeira linha tem uma caminhada de uns 20 min numa subida mega íngreme. Nessa hora eu tive um mini ataque de pânico porque realmente não tava rolando mais subir com o pé daquele jeito. Comecei a pirar que eu tava atrasando todo mundo, que ficaria pra trás, que eu era a mais perdedora das mochileiras por não conseguir fazer isso. Mas é claro que nada daquilo era verdade.

Meus amigos do grupo pararam pra me ajudar, ninguém estava nem um pouco incomodado com esse mini atraso. Me deram água, me ajudaram a me acalmar, levaram algumas das minhas coisas caminho acima. As pessoas são realmente incríveis. Foi graças a elas que consegui voltar ao normal, chegar no alto da subida e encarar de boa a adrenalina da tirolesa.

Não tirei muitas fotos porque tava muito empolgada, então sugiro entrar no site deles e ver os vídeos e as fotos! Deixo aqui apenas uma recordação do melhor banheiro em que já tive a honra de aliviar minhas necessidades fisiológicas:

Toalete "panorâmico" do campo base da tirolesa

Toalete “panorâmico” do campo base da tirolesa

Depois disso, fomos de van até a Hidrelétrica de Santa Teresa. Esse lugar é especialíssimo porque já tá assim ó de Aguas Calientes. É realmente a última parada.

Ali tivemos o último almoço do grupo, e ali também eu tomei a decisão mais difícil: eu não seguiria a pé junto com o grupo nessa última parte do trajeto. A Hidrelétrica tem uma estação de trem da PeruRail, e é possível pegar um trem dali até Aguas Calientes pelo valor de US$ 25, e foi o que eu fiz.

Digo que foi uma decisão difícil porque esse trecho é muito bonito e é algo que eu realmente gostaria de ter feito a pé, mas não rolou. Tive medo de não dar conta de Machu Picchu no dia seguinte, e já que MP era todo o objetivo de estarmos ali, preferi economizar as energias e a integridade física dos meus pezinhos. Mas fiquei bem triste com isso.

Inclusive, a trilha desde a Hidrelétrica até Aguas Calientes é uma ótima opção para se chegar até Machu Picchu. É bem mais barato do que o trem, é uma mini-aventura de cerca de 2 horas e é lindo! Muita gente que não tem tempo/dinheiro/vontade de fazer uma das trilhas mais longas, mas também não quer o caminho mais turistão e caro, acaba escolhendo essa opção.

O Leonardo Lima do blog Tô Longe de Casa explica direitinho como fazer isso, vai lá: Machu Picchu por Santa Teresa.

Não digo que a viagem de trem foi horrível, pelo contrário. Adoro trens e curti muito o passeio, descansando e olhando a paisagem.

O trem e o rio

O trem e o rio

Dá até pra ver Machu Picchu lá de baixo.

Machu Picchu visto do trem

Machu Picchu piquinininho visto do trem

Mas foram 25 dólares meio desnecessários. E a paisagem poderia ter sido muito melhor aproveitada se eu tivesse ido a pé…

Poderia ter sido eu ali descansando na beira do rio Urubamba...

Poderia ter sido eu ali descansando na beira do rio Urubamba…

Isso significa que a trilha é mega difícil e muita gente não dá conta? Não. Estando lá você simplesmente caminha até a hora de parar, rola toda uma coisa psicológica. No meu grupo, além de mim, só mais uma menina foi de trem, e isso porque ela já tinha um problema no joelho.

Na real o que estava me incomodando, mais do que a falta de preparo, eram as bolhas massacrantes nos pés, apesar de eu ter passado meses andando com minha bota na cidade pra amaciar. Se eu pudesse fazer tudo de novo, o que eu faria pra previnir isso seria enfaixar o pé com micropore antes de sair de Cusco.

Tanto que a primeira coisa que fiz quando cheguei em Aguas Calientes foi tirar a bota. Isso e tomar banho num banheiro só pra mim, num quarto quentinho com uma cama quentinha só pra mim (a reserva estava inclusa no valor total da trilha), e colocar uma roupa limpinha fizeram eu me sentir uma nova pessoa.

À noite, quando saí para dar uma caminhadinha pela cidade e encontrar o grupo pra jantar, mandei beijos pro frio e fui de chinelo, assim como fui de chinelo pra Machu Picchu no dia seguinte. A segunda coisa que eu faria diferente seria levar uma papete. É uma alternativa à sua botinha muito mais confortável e segura do que uma Havaianas. Talvez se eu tivesse uma papete poderia ter completado o caminho até Aguas Calientes.

Sobre a Trilha Salkantay

Sendo o ponto alto da #mochigrinação, minha vivência nesta trilha ganhou uma atenção especial aqui no blog. Diários da Trilha Salkantay é a série de posts com tudo o que eu tenho para contar sobre a caminhada.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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20 Comentários

  • Responder
    Karine
    29 de junho de 2015 às 21:42

    Oi Maria Thereza! Me diverti muito lendo seus relatos sobre a trilha, adorei seu blog!
    Vou para o Peru em Agosto e pretendo fazer a trilha…me explica uma coisa, como é esse negócio de enfaixar o pé? Tipo múmia mesmo? Hehehehe. Valeu!!

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      30 de junho de 2015 às 13:05

      Oi Karine! Que massa que você vai fazer a trilha! Então, se eu fosse de novo faria tipo múmia mesmo hahaha. Eu pegaria o micropore, que adere bem e não vai criar fricção no seu pé, e enfaixaria os lugares mais propensos a criar bolhas: calcanhar, dedinhos, joanete etc. Eu segui todas as dicas de trilheiros (amaciar a bota, cortar a unha do pé bem rente, usar meia grossa sem algodão na composição) e acabei sofrendo com as bolhas e perdendo a unha do dedão 🙁 Tem uma dica também que é usar uma meia fina (dessas de vó, sabe?) por baixo da meia grossa.

      Acho que se eu fosse hoje eu enfaixaria as partes mais sensíveis com micropore e usaria essa da meia fina. Ah, e leve parafina pra passar nas bolhas CASO elas se formem. O importante é não ter fricção entre o seu pé e a superfície da meia.

      Boa viagem e boa sorte! Beijos!

      • Responder
        Aline De Leo
        10 de julho de 2015 às 20:27

        Eu comprei duas meias antiblister na Decathlon e usei nos dois primeiros dias com a minha bota da Quechua. Não fiz bolha! Foi tranquilo! E andei o caminho inteiro, sem cavalo nem trem nem nada! Achei um bom investimento.

  • Responder
    Aline De Leo
    10 de julho de 2015 às 20:25

    Ahh, perdeu o lindo caminho!! A parte mais bucólica e cinematográfica da trilha! Amei!

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      10 de julho de 2015 às 20:41

      Ai, nem fale, Aline! Fiquei muito triste vendo pela janelinha as pessoas caminhando, querendo estar lá!

  • Responder
    Gualter
    18 de julho de 2015 às 18:21

    Nossa eu estou planejando a minha viagem a bastante tempo, e depois que vi seu roteiro, mudei bastante coisa do meu. Estou super ansioso, e com uma expectativa muito alta pra essa viagem.
    Me diz uma coisa, tem mais relato dessa viagem? Porque nao acabou por ai ne ?

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      20 de julho de 2015 às 12:29

      oi Gualter! Fico feliz de estar servindo de inspiração! 🙂 Não acabou não, vai ter mais relato! Ainda estamos só na metade da viagem 🙂 Abraços!

      • Responder
        Gualter
        20 de julho de 2015 às 14:07

        Ahh que legal, estarei aqui ansioso esperando os próximos relatos então !!
        Estou com uma duvida em relação a data de saída, se vou agora em setembro ou se vou em dezembro, o clima vai estar diferente nas duas épocas..

        • Responder
          Maria Thereza M.A.
          21 de julho de 2015 às 10:01

          Eu recomendo ir em setembro porque os lugares vão estar menos cheios. E dependendo de para onde você vai, dezembro é época de chuvas, e chove MUITOOO! Machu Picchu, por exemplo, vira uma neblina só nessa época. Se puder, vá em setembro 🙂

  • Responder
    Gabriela
    5 de agosto de 2015 às 20:41

    Maria! Encontrei seu blog hoje, pesquisando sobre o Peru.
    Eu já tinha lido sobre as trilhas possíveis até Machu Picchu mas eu como sedentária, que nunca me interessei por trilhas nem havia cogitado a hipótese por que achei que NUNCA conseguiria.
    Fiquei maravilhada com os posts sobre a trilha, você escreveu de forma incrível. Me senti no seu corpinho e passando por todo seu processo. Acho que me identifiquei com seus motivos e seus perrengues internos, rs.
    Planejo essa viagem pro ano que vem e já estou quase decidida em fazer alguma trilha, pelo menos a de Santa Tereza! Sinta-se responsável hahaha.
    Apaixonei no blog <3 Parabéns

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      18 de agosto de 2015 às 22:23

      Ô, Gabriela, tudo o que eu mais queria quando abri o blog foi inspirar as pessoas. Fico muito feliz que você resolveu fazer uma trilha tão massa depois de ler aqui 🙂 E feliz com a identificação, também. Aproveite demais a sua viagem e depois venha me contar 🙂 Beijos!

  • Responder
    JAQUELINE
    2 de julho de 2016 às 12:15

    Oie, amei seu relato sobre a trilha vou fazer ela daqui 11 dias e estou simplesmente em panico com minha falta de preparo e minha dores nos joelhos ( que acho ser psicológica , ja que fazia 1 ano que nao tinha mais problemas com ele) , mas ler sua experiencia me animou muito e me deu um rumo pra economizar roupas , acho que ia levar o dobro hahaha agora contagem regressiva

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      3 de julho de 2016 às 12:25

      Oi, Jaque!! Vai na fé que vai dar certo! Se por acaso seu joelho começar a incomodar demais no meio do caminho, não se preocupe, porque ao longo de quase toda a trilha tem jeito de seguir de outra forma. No segundo dia eu subi a parte mais íngreme de mula, e agora no final eu precisei pegar o trem. Então vai confiando que vai dar certo, e sabendo que você tá segura não importa o que aconteça.

      Beijos e boa viagem!!

  • Responder
    Clarissa Fonseca
    28 de agosto de 2016 às 10:33

    Oi, muito legal esse seu relato, vou fazer a trilha em setembro e suas histórias serviram pra me deixar mais empolgada e deram ótimas ideias para a preparação! valeu, boas viagens pra nós sempre 🙂

  • Responder
    Suelen
    14 de outubro de 2016 às 23:13

    Oi Maria,amei seu blog!!! Quero fazer a trilha em agosto de 2017,e estou super inspirada através de seus posts! Diz uma coisa,não falo inglês e muito menos espanhol…consigo me virar e entender o guia??? Rs… Beijos e parabéns!!!

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      30 de novembro de 2016 às 18:06

      Oi, Suelen! Que bom que o blog está te ajudando 😀
      Não se preocupe que na hora você aprende portunhol por osmose e vai se dar super bem com o guia!

      Beijos e boa viagem!

  • Responder
    Camila
    22 de agosto de 2017 às 18:00

    Ei Maria!!

    Amei o seu relato, estou me sentindo cada vez mais confiante para fazer essa viagem.Igual a você, estou indo sozinha, então acho que a gente precisa de uma dose extra de otimismo, né?
    Uma dúvida que eu tenho é sobre baterias. Você levou uma bateria externa? Para máquina e celular? Quero fazer um diário da viagem, mas não quero correr o risco de ficar sem baterias. Como você fez? E de quantos litros era a sua mochila? Você daria alguma dica de roupas para levar…como alguma coisa que levou e não usou ou algo que sentiu falta? (tenho receio das diferenças de temperatura que enfrentamos por lá…).

    Muuuito obrigada!

    Beijos

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      25 de agosto de 2017 às 13:04

      Oi, Camila, tudo bem? Que legal que os relatos estão te ajudando, fico super feliz!

      Sobre baterias, eu levei um powerbank pro celular e duas baterias pra minha câmera. O powerbank quase não usei, porque só usava o celular nos hostel mesmo, e sempre tinha tomada, óbvio hehehehe. A bateria extra da câmera eu recomendo se você for fazer alguma trilha ou outro passeio que te faça ficar mais de um dia sem acesso a uma tomada. Eu usei bastante as duas baterias que levei.

      Sobre mochila e roupas, escrevi sobre tudo isso no post Como ficar linda no mochilão 🙂

      Beijos e boa viagem!

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