Este post começa a contar minha experiência pessoal na Trilha Salkantay. Se você quer saber mais sobre a trilha, o post Diários da Trilha Salkantay: Preparativos e expectativas traz todas as informações práticas e objetivas de que você precisa.

Eu nunca fui uma pessoa atlética. Sou daquelas que na escola menstruavam toda semana e cólicas terríveis impediam de participar das aulas de educação física. Planejei fazer essa trilha com 6 meses de sobra para treinar meu condicionamento físico, coisa que obviamente não fiz, então era natural eu estar morrendo de medo quando a van da agência veio me pegar no hostel de madrugada. E se eu não aguentasse? E se eu ficasse pra trás e me perdesse e caísse de um barranco e ficasse 127 horas presa e tivesse que cortar meu próprio braço fora?

É claro que nada disso aconteceu, estou aqui inteira pra contar a história. Minha experiência no Salkantay provavelmente não foi muito diferente da experiência de qualquer mochileiro, já que essa é uma trilha muito procurada, de fácil acesso, e que todo mundo acaba terminando, independentemente do porte físico. Mas mesmo tão percorrida todos os dias por gente do mundo todo, e assim como qualquer outra grande experiência, é impossível viver essa trilha de duas maneiras iguais.

O meu medo magicamente passou na hora em que finquei meu bastão-de-caminhada/cajado-mágico no chão pela primeira vez. Eu era tão moleque nas trilhas que uma menina com metade do meu tamanho teve que me ensinar a forma correta de regular e segurar o bastão (dica: de modo que o seu cotovelo forme um ângulo de 90°). Isso foi ainda em Mollepata, ponto de partida da trilha, enquanto todos do grupo conversavam, se organizavam, faziam os últimos preparativos e começavam a se conhecer.

Disposição: VAMO GASTARE QUE VAI ACABARE
Disposição: VAMO GASTARE QUE VAI ACABARE

A menina que me ajudou era israelense, mas no grupo eu também conheci uma inglesa, americanos, um francês, um neo-zelandês, um alemão, holandeses, uma romena, argentinas e até uma australo-germânica. A única brasileira era eu, o que estava legal até a hora em que eu quis fazer uma piada com referência ao Rei do Gado mas tive que desistir por falta de público.

Parece um pouco absurdo dar os primeiros passos, uma escala tão pequena de um evento que está na sua cabeça há meses na forma de algo monstruoso. É bizarro tentar resumir o grande “Andar 60km até Machu Picchu Dormindo em Barracas no Mato e Vendo Montanhas e Estrelas” ao bom e velho “um passo de cada vez”, mas não tinha como ser outra coisa. Quando o guia terminou de falar depois das apresentações, informações e itinerários e virou as costas pra começar a guiar o grupo na maior naturalidade, eu me senti meio idiota percebendo que minha única tarefa e/ou objetivo naquele momento era dar um passo.

Só mais um passo
Só mais um passo

Mas essa sensação passou rápido. Já no primeiro trecho de terreno bem inclinado, eu consegui equilibrar a percepção um pouco e dividir a empreitada em objetivos a médio prazo: mais longos do que um passo porém mais curtos do que 60 km. O objetivo mais comum durante o percurso era “chegar até o final desta pirambeira pelo amor de deus”.

Algumas horas de subida debaixo do sol escaldante e eu comecei a me perguntar qual o motivo de eu estar fazendo aquilo, por que eu fui me meter a fazer algo para o qual eu não tinha o menor preparo. A resposta veio rápido:

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Uma trilha super íngreme no meio do mato fechado se abria pra um campo onde era possível ver pela primeira vez o Nevado Humantay, um dos Apus (deuses das montanhas) que nos acompanhariam pela maior parte do caminho.

Ver a montanha me fez entender que eu não poderia ter essa experiência de outra forma. Estar nesse lugar lindo com esse grupo lindo e com essa adrenalina só era possível andando. Cansando. Possivelmente se machucando.

Assim, segui com gás renovado para mais horas de subida e sol escaldante. O próximo objetivo era o almoço, que parecia sempre longe, longe, longe. E estava quente, quente, quente e seco, seco, seco. A cada gole de água eu agradecia por ainda ter uma quantidade boa desse líquido salvador na mochila. Meu maior pavor era ficar com a garrafa vazia, mas logo avistei o abrigo onde iríamos almoçar e, logo ao lado, uma vendinha.

Até aqui o caminho era uma estrada de terra onde de vez em quando passavam carros
Até aqui o caminho era uma estrada de terra onde de vez em quando passavam carros

Nunca na vida senti tanto desejo por um chocolate, comprei uma barra de Snickers na vendinha sem nem perguntar o preço e devorei inteira antes mesmo de almoçar. Depois virei uma garrafa inteira de Gatorade, também da vendinha e milagrosamente gelado (ainda não entendi como isso era possível, talvez tenha sido minha percepção calorenta), numa golfada só.

Todos os dias era assim: acordar de madrugada pra sair às 7h, caminhar coisa de seis horas, parar pra almoçar e descansar um pouquinho, e depois mais duas ou três horas de caminhada. Nesse primeiro dia foi difícil, mas depois vi que é um ritmo legal porque você realmente tem mais pique pela manhã. E é uma alegria ouvir o guia dizer depois do almoço que “só faltam duas horas”. Sim, porque no Peru as pessoas medem distâncias pelo tempo que o trajeto leva. Eu nunca soube quantos quilômetros andei de uma vez só e confesso que prefiro não saber.

Então, na tarde do primeiro dia, a caminhada foi mais curta. Comecei a apertar o passo porque fiquei um pouco pra trás e já não via mais ninguém à minha frente nem atrás de mim. Começou a dar um medinho porque começou a esfriar bem rápido e escurecer, mas logo eu comecei a avistar a pontinha do Nevado Salkantay.

Nevado Humantay à esquerda, e o cume do Nevado Salkantay começando a aparecer
Nevado Humantay à esquerda, e o cume do Nevado Salkantay começando a aparecer no meinho
Energia renovada com a proximidade do Apu Salkantay
Energia renovada com a proximidade da montanha

Nessa hora fiquei feliz por estar sozinha, bem longe dos outros membros do grupo, porque eu queria aproveitar a alegria quase infantil que eu senti por começar a chegar perto dessa montanha, desse Apu. Parei de andar, gritei, ri e tirei fotos, fazendo essa cara de boba o tempo todo, sabendo que só quem iria me julgar era eu mesma.

Essa alegria me acompanhou pelo restinho da caminhada do dia, e foi ela quem fez com que a dor nos pés fosse minimamente tolerável.

Primeiras bolhas. Doía muito e eu cheguei no acampamento mancando, mas o pior de tudo era pensar que ainda estávamos apenas no primeiro dia. Eu teria que aguentar mais três dias de dor no pé e de raiva de mim mesma por não ter pensado em enfaixar o pé com micropore antes de sair de Cusco.

Salkantay cada vez mais perto e llamas pertinho do acampamento
Salkantay cada vez mais perto e llamas pertinho do acampamento

Eu fui a penúltima a chegar no acampamento, as barracas já estavam montadas dentro de uma espécie de abrigo de lona, e todos estavam descansando e organizando suas coisas.

No nosso grupo não foi difícil organizar a divisão das barracas, porque quase todo mundo estava viajando acompanhado. Além de mim, só tinha mais uma menina que estava viajando sozinha, então desde o café da manhã eu já sabia que a Madeleine seria minha companheira de barraca. Isso era ótimo porque a gente se deu muito bem desde a hora em que estávamos esperando a van, ansiosas na recepção escura de madrugada (coincidentemente, estávamos no mesmo hostel), e isso só foi se reforçando em vários momentos ao longo da caminhada.

Foi uma delícia poder sentar e finalmente tirar a bota. Não foi tão delícia passar frio no pé só de meia e Havaianas. Mas o chá e o chocolate quente com pipoca e bolachas servidos antes do jantar ajudaram a esquentar, a sopa servida de entrada no jantar também.

Não bastasse o jantar maravilhoso alimentando meu corpinho faminto e exausto, antes de dormir eu peguei minha xícara de chá de camomila – que era um calorzinho muito do bem vindo naquele frio ridículo -, saí do abrigo e vi isso:

Céu andino místico de 19 de junho de 2014
Céu andino místico de 19 de junho de 2014 entre recortes dos montes Humantay e Salkantay

Ainda bem que a Madeleine se dispôs a montar o tripé e regular a câmera pra tirar essa foto, porque eu não conseguia e nem queria parar de olhar pra esse céu maravilhoso como eu nunca tinha visto antes. Este foi o terceiro momento de cara de boba e gratidão por estar ali fazendo aquilo, por maior que fosse o frio ou a dor no pé.

Sobre a Trilha Salkantay

Sendo o ponto alto da #mochigrinação, minha vivência nesta trilha ganhou uma atenção especial aqui no blog. Diários da Trilha Salkantay é a série de posts com tudo o que eu tenho para contar sobre a caminhada.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.