É impressionante como a paisagem muda rápido nessa trilha. No primeiro dia, andamos por uma estrada de terra seca e sol escaldante, no segundo, por montanhas nevadas e muito frio, e agora, no terceiro, estamos na selva! Esse dia ainda tem muita descida, mas é um pouquinho mais equilibrado, intercalado com algumas subidas e trechos planos.

Só que a gente já começa com todo um gás diferente, porque logo no café da manhã o guia já avisa que só vamos andar até a hora do almoço, e depois disso vamos de van até o local do acampamento pra deixar as coisas e ir relaxar nas águas termais! Também é nessa manhã que a gente se despede das mulas e dos arrieros, que só vão levar nossas coisas até o acampamento e vazar. Agradecemos, e o grupo todo faz uma vaquinha pra dar uma gorjeta bem bacana.

A caminhada começa, e cada passo que eu dou é pensando nessas termas e nesse descansinho. Mas logo a paisagem começa a ficar mais interessante e fica fácil se envolver com o momento presente.

As montanhas vão ficando pra trás e o mato vai se fechando
As montanhas vão ficando pra trás e o mato vai se fechando

Estamos descendo um vale, e dá pra ver o rio lá embaixo o tempo todo. Mas o que mais me impressionou mesmo foi ir afundando dentro do vale e sendo engolida pelas encostas todas verdes. Me lembrou muito a descida pro litoral do Paraná, a serra toda verde, até o cheiro de mato e umidade era exatamente o mesmo. Fiquei com saudades de casa.

A gente parou pro lanche num lugar lindíssimo. Era um gramadão com uns banquinhos na sombra, onde tinha mais uma das várias vendinhas que estão em todo lugar pela trilha, só que essa vendia frutas super frescas e baratinhas! Comi pela primeira vez uma granadilla, que é uma frutinha parente do maracujá, só que super docinha e sem aquele azedão.

Como o sol estava gostoso e o gramado estava super convidativo, algumas pessoas do grupo foram jogar bola com uns meninos peruanos que estavam ali. Eu e uma outra menina do grupo, que também praticava yoga, ensaiamos alguns asanas pra alongar o corpo e continuar bem a caminhada.

Pausa pro lanche
Pausa pro lanche

Quando estávamos todos prontos pra sair, eu e a Madeleine, minha companheira de barraca, encontramos uma gatinha bem bebezinha, toda amigável, que já veio pedindo carinho. Não teve como não pegar no colo, mesmo que a gente tenha ficado um pouquinho pra trás.

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De tempos em tempos eu alcançava o guia e ele ia dizendo quanto tempo faltava pra chegar no local do almoço. A trilha aqui é o trecho mais bonito desse dia, só uma picada no mato mesmo, com muito verde, flores e frutas (e mosquitos!). Mas parecia que não ia acabar nunca. Aqui eu já estava bem cansada e com dores, e contava cada passo pra chegar.

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Foi aí que eu notei o que realmente acontece com a sua cabeça e o seu corpo numa trilha dessas. Você já queria estar morta, mas não tem muita opção a não ser chegar. Seguir em frente e continuar. Você não pode sentar e chorar porque precisa sair do mato, e ninguém vai te carregar, então você simplesmente continua. Sim, a dor está lá, mas você sabe que dá pra aguentar mais um pouquinho. E a cada passo parece que você chegou no limite, mas sempre dá pra ir mais um pouquinho.

Quando cheguei na entrada de uma vilinha e já estava quase desabando, enxerguei o guia lá parado, orientando todo mundo do grupo que passava. Quando o alcancei e ele disse que faltavam 10 minutos pro fim da caminhada do dia, recebi o Usain Bolt e disparei, fui ultrapassando um a um, de olho apenas no maravilhoso lugar pra sentar. Saber que faltava pouco era tudo o que eu precisava pra tirar aquele último esforço de dentro de mim.

Tava numa pira tão grande de chegar que minha única foto da vilinha ficou assim
Tava numa pira tão grande de chegar que minha única foto da vilinha ficou assim

O almoço recompensou. Como já estávamos num lugar com um pouco mais de estrutura, tivemos várias comidas diferentes, inclusive um ceviche delicioso de entrada e vários tipos de saladas frescas. Tinha geladeira e deu pra tomar aquela Coca trincando. Me senti realmente tomando a última Coca-Cola do deserto.

Depois do almoço, entramos num micro-ônibus velho pra ir até o local do acampamento. O motorista botou uma rádio peruana que tocava umas cumbias animadíssimas. A poeira da estrada de terra entrava toda pelas janelas mas ninguém ligava, porque estava muito quente e todo mundo já estava imundo mesmo.

Não sei se foram as endorfinas da caminhada, o almoço delicioso, a música, estar na companhia de pessoas da maior buena onda, ou tudo isso junto. Mas ali dentro daquele ônibus sujo no meio nada em outro país bem longe de casa, me senti plenamente feliz. Pela segunda vez durante a trilha, senti que, depois de tudo, finalmente estava tudo bem agora.

Deixamos as coisas na barraca e logo entramos numa van para as termas de Santa Teresa. A van custa 10 s/. e a entrada das termas, 5 s/.

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As piscinas são lindas, a água é super quente e não consigo pensar em nada que pudesse ser mais relaxante do que isso depois de 3 dias de caminhada. É aqui também que a gente tem a oportunidade de tomar banho.

Esse foi o melhor banho que já tomei na vida. Não são chuveiros no vestiário, como a gente pensava, mas sim uma área mais baixa para onde escoa a água das piscinas térmicas, e onde você pode usar shampoo. Pense num banho de cachoeira bem gostoso, com aquele monte de água caindo em você com uma super pressão. Pensou? Agora imagine que essa cachoeira tem água quente. Quente mesmo, não morninha. É este o banho no terceiro dia de Trilha Salkantay. Cura todas as dores.

À noite, depois do jantar, fizeram uma fogueira enorme no acampamento e todo mundo ficou ali, tomando Cusquenãs bem geladas da vendinha e conversando sobre como seria o dia seguinte.

Sobre a Trilha Salkantay

Sendo o ponto alto da #mochigrinação, minha vivência nesta trilha ganhou uma atenção especial aqui no blog. Diários da Trilha Salkantay é a série de posts com tudo o que eu tenho para contar sobre a caminhada.

  • Preparativos e expectativas: Informações práticas e objetivas e dicas úteis para a trilha.
  • Dia 1: Sentimentos do primeiro dia do desafio.
  • O poder dos apus: O segundo dia, o Passo Salkantay e a divindade da montanha.
  • A selva e as termas de Santa Teresa: A paisagem muda radicalmente e o cansaço começa a pesar.
  • O dia em que eu arreguei: O quarto e último dia da trilha e as alternativas à caminhada.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.