Destinos República Tcheca

Diário de viagem: Praga, novembro de 2009

Percebi que havia muitas viagens que eu não tinha contado aqui. Vou contar em retrospecto porque esse é justamente o tipo de coisa que eu mesma procuro antes de viajar para algum lugar, então achei que seria bacana compartilhar as experiências que eu tive. Vou fazer isso por ordem cronológica e começar por Praga, que foi a primeira viagem do intercâmbio que eu fiz e não contei. A primeira mesmo foi pra Itália, e depois teve Annecy, mas essas eu já contei.

A ida

Minha amiga Samaísa chegou no bar em Lyon um dia enlouquecida dizendo que tinha comprado passagem de ônibus pra Praga, assim, no maior impulso, pra viajar na semana seguinte. Na mesma hora falei “vou junto”. Praga estava na minha lista de to-do da Europa e, se não fosse naquela hora, não iria nunca. Ia faltar um dia de aula, mas paciência.

Sama teve muito sucesso com Couch Surfing antes e eu também, então nem pensamos duas vezes pra escolher o tipo de hospedagem. Buscamos no site, mandamos pedidos e um broder respondeu oferecendo a casa. Ele morava numa cidade satélite de Praga, mas achamos que seria parte da aventura e topamos.

Na outra semana, embarcamos num ônibus noturno da Eurolines, que faz várias linhas na Europa toda e é, até onde eu sei, a única empresa de ônibus que faz esse tipo de serviço. Fora isso, só avião e trem. Para nós, naquela situação e naquela data, o mais barato era mesmo o ônibus. 20 horas de viagem, mas vamoquevamo.

O ônibus foi vazio e deu pra dormir tranquilamente com 2 bancos pra cada uma, as 20 horas passaram rapidinho. O ônibus cruzava a Alemanha, então paramos no checkpoint da polícia na entrada e na saída do país. Alemães altos, loiros e fardados entraram no ônibus e verificaram os passaportes de todo mundo. Éramos as únicas não-europeias ali, então os puliça alemão marcaram mais na gente, ficaram um tempão no rádio ditando nossos sobrenomes para alguma central (decerto), e sabe que brasileiro quando vê polícia já fica tenso, então na primeira vez que os home vieram, bateu aquele suor frio. Mas os alemões lindos falaram ALLES BLAU e deixaram a gente ir.

Primeiras impressões

Chegamos em Praga perto da hora do almoço e fomos desbravar um pouco a cidade antes de dar a hora combinada pra encontrar nosso host. Aí começou a comilança, comemos a maior linguiça do mundo no maior pão do mundo, com quilos de ketchup e mostarda pra acompanhar. Delícia! Também foi a primeira vez que vi QUENTÃO na Europa, que eu viria a descobrir que é muito normal no inverno, e claro que fiquei felicíssima e me acabei no quentão por 1 euro. E também foi a primeira vez que vimos decoração de Natal naquele ano. Lindo!

Esse dia foi mais destinado a se familiarizar com aquele dinheiro estranhíssimo do que com qualquer outra coisa. Na época um euro estava valendo 25 coroas tchecas, se não me engano, e além disso eles não têm centavos, 1 coroa é 1 coroa e fim. Mas aí você chega no supermercado e as coisas custam 49,99 coroas, quer dizer, essa 0,01 coroa vai pro limbo. E até a gente entender o que era barato e o que não era, levou um tempo.

Walking Tour, Cross Club e Couch Surfing

Encontramos nosso host e fomos até a casa dele de carona com um amigo. Já sabíamos de antemão que o lugar era longe, então nada de surpresas até aí. O susto veio ao entrar na casa. Uma sujeira a ponto de ter bituca de cigarro no carpê, migalhas de pão de cinco ciclos de colheita do trigo em cima da mesa e um chuveiro que não funcionava direito, tinha que usar a torneira da banheira. Tomei banho tcheco na República Tcheca, que tal? O host era queridíssimo, naquele mesmo dia levou a gente pra tomar grandiosa cerveja tcheca num boteco perto da casa dele com uns amigos. Definitivamente um lugar inusitado, um bareco bem tipicamente local, nada pra turista ver, foi muito bacana.

Dormimos naquele sofá mais pegajoso da face da Terra e no dia seguinte nosso host foi trabalhar e nós fomos ver um pouco mais da cidade. Ali ainda estávamos relevando a absurdidade da casa do cara.

A Samaísa tinha ouvido falar da New Europe Tours, que oferece tours grátis a pé em várias cidades da Europa. Eles oferecem as visitas em inglês e espanhol. Pegamos uma em inglês em Praga e foi sensacional! O guia era um britânico divertidíssimo que contou histórias incríveis e nos deu alguns detalhes sobre os lugares que nunca descobriríamos sozinhas. Fez toda a diferença na viagem. Fizemos questão de dar uma boa gorjeta no final.

A tour durou a tarde toda e vimos rapidamente a Old Town Square, o badalar do relógio astronômico (lindo, lindo, me emocionei), a ponte Carlos, o bairro judaico, entre tantos tantos outros. O legal desses tours é que você conhece a história de vários lugares rapidamente e vê o que interessa mais, pra voltar depois e passar mais tempo. Foi o que nós fizemos.

Nesse dia, encontramos nosso host num bar muito incrível, o Cross Club, um lugar enorme com vários andares e ambientes, onde a decoração é toda feita com pedaços de metal reaproveitado, na maioria peças automotivas, até os bancos são bancos de Kombi. Um espetáculo. Tem mais fotos na galeria do site.

Esse lugar é muito badalado em Praga, e nós não fazíamos ideia de que ele existia. Jamais teríamos ido se não fosse nosso host. Na volta pra casa dele, pegamos o último trem lotado pra região metropolitana, uma verdadeira experiência de nativo. Acho isso incrível em viagens, e é de longe a maior vantagem em usar o Couch Surfing.

Porém, não estava legal dormir num sofá pegajoso e não poder andar nem de meia no lugar, quanto mais descalça, sem contar a situação do banho. De manhã, pedimos desculpas educadamente ao nosso querido host e fomos embora. Encontramos um albergue baratinho e super central pra passar as duas últimas noites, e foi uma das melhores decisões da viagem. Sabíamos que seria uma graninha a menos no budget, mas valeria a pena.

Castelo de Praga, estereótipos e novos amigos

Passamos o dia visitando a fundo o Castelo de Praga, que foi minha parte favorita da cidade depois do relógio astronômico. O castelo fica bem elevado sobre a cidade, então você sobe uma ladeira astronômica e milhões de degraus pra chegar lá, quase morri esbaforida mas, como sempre nesses casos, a vista compensa.

Chegamos de manhã, não tão cedo, mas ainda de manhã, e havia uma neblina maravilhosa sobre a cidade. A ideia que eu tinha de Praga era a de uma cidade fria, sombria e cheia de mistérios e terrores. Ir pra lá naquele começo de inverno reforçou esse estereótipo. Amanhecia tarde e anoitecia cedo, às 17h já era noite fechada. As luzes amarelas refletiam no chão molhado de umidade da neblina e deixava tudo muito romântico e misterioso. Tenho absoluta certeza de que a cidade tem suas belezas e festas típicas de verão, mas ver na vida real a ideia que eu tinha na minha cabeça me pareceu bastante mágico. Ver, do alto do castelo, só as pontas das torres saindo do meio da neblina contribuiu bastante pra isso.

As parreiras do castelo e a vista

 Outra coisa bem legal que contribuiu muito para a impressão que eu tenho de Praga foi a música. Vimos muitos artistas de rua, especialmente na ponte Carlos, mas esse grupo que vimos no castelo, numa praça chamada Hradcanske Namesti, me emocionou bastante, a música fez todo o momento. Dá uma olhada na vista do lugar:

 

A Walking Tour do outro dia só falava um pouco sobre o castelo e não entrava nos detalhes da estrutura. Tivemos uma aulinha sobre ele enquanto olhávamos pra ele desde a ponte Carlos. Extremamente bonito visto de longe, à noite. Assim, quando chegamos lá estávamos meio perdidas, e qual não foi a nossa surpresa ao descobrir que era preciso COMPRAR um mapa, além de pagar a entrada, naturalmente. Porra. Compramos, fazer o quê?

Aquilo me deslumbrou porque era a primeira vez que eu entrava em um castelo de verdade, onde viveram e de onde governaram os reis da Boêmia, com jóias da coroa e tudo, e ainda por cima um dos maiores castelos do mundo. Tem uma CATEDRAL dentro dele, gente. Não conseguimos entrar na Cadetral de São Vito porque tinha uma fila quilométrica, mas fizemos o tour do palácio e meu, que lugar lindo. Também tem jardins lindos e parreiras, tudo com aquela vista da cidade que eu falei antes. Adorei.

Nesse dia demos uma passada também no museu do Kafka, com a biografia do escritor e instalações relacionadas aos trabalhos dele, muito interessante. A melhor loja de souvenir de museu que eu já vi, muita coisa linda.

À noite, voltamos pro albergue pra descansar um pouco e trocar de roupa pra sair, e aí conhecemos um brasileiro viajando sozinho que acabou saindo junto com a gente. Fomos fazer um esquenta na Old Town Square, e nesse caso precisava ser esquenta mesmo porque tava frio pra cacete. A Old Town Square seria um lugar que eu visitaria com bastante frequência caso morasse em Praga, porque é realmente o point do lugar. Na época, estava rolando uma feira de Natal na praça, com barraquinhas de comidas deliciosas, wursts e doces de massa frita com açúcar e canela, vinho quente, além de barraquinhas de artesanato, coisas muito bonitas e natalinas. Além disso, tem bares e cafés normais ao redor da praça toda. Tomamos muita Gambrinus e até brindamos à moda tcheca: bater um copo no outro falando “prost!”, bater o copo na mesa e só então beber.

 

Nisso, conhecemos um segundo brasileiro que estava fazendo um mochilão sozinho. Escutou a gente falando português e chegou pra conversar. Fomos todos os amigos para a Roxy, a balada onde foi filmada a cena do absinto do filme Eurotrip (e quem contou isso pra gente foi o guia da Walking Tour hehe). Por dupla sorte, a balada era do lado do nosso albergue e naquela noite a entrada era grátis.

 

A balada tinha muito eurodance e gente esquisita. Sério, nunca fui numa balada tão… tão… leste europeu. Mulheres loiríssimas com pouca roupa e homens dançando igual bonecão de posto, todos de óculos escuros, alguns de bigode falso.

Insano. Naturalmente, estando em Praga, não poderia de jeito nenhum faltar absinto, uma vez que é a terra do absinto e que era o mesmo preço que cerveja. Viramos um shot, eu e o brasileiro do albergue, mas mesmo depois de mais alguns eu não vi a fada verde e não achei um absurdo alcoólico. O dever estava cumprido!

Kutná Hora e os ossos

Com um dia inteiro de sobra, tínhamos a oportunidade perfeita pra visitar o ossário de Sedlec em Kutná Hora, que eu não sabia que existia e foi a Sama que me falou. A cidade é bem pequena e fica pertinho de Praga. Compramos passagens de trem e fomos. Chegando lá, foi um pouco difícil de se locomover. Até tinha ônibus, mas era um domingo então os horários eram bem esparsos, sem contar que não conseguimos entender direito o sistema. Acabamos andando bastante até chegar ao ossário.

Só de chegar perto do lugar já começou a dar medo. Um mar de folhas caídas de outono e árvores secas e os contornos das torres de uma igreja antiga, e todo um cemitério ao redor da igreja. Não passava ali de noite nem a pau. A igreja dá muito medo, pelo cemitério e especialmente pelo fator psicológico de você saber que está indo ver esculturas macabras feitas de ossos humanos. Entrando no ossário propriamente dito, o medo passa. Não que as esculturas sejam realmente lindas, de fato elas são muito macabras, mas não senti nada de negativo ou assustador ali dentro. Muita paz. Os funcionários foram as pessoas mais simpáticas que nos atenderam na viagem toda, e os outros turistas também eram tranquilos.

A história conta que depois da peste negra e de guerras no século XV, o cemitério ficou tão atulhado que não tinha mais espaço pra novos condôminos, então tiveram que arranjar um jeito de se livrar dos restos mortais mais antigos. Foi construída uma capela subterrânea para abrigar os ossos, e em 1870 um escultor chamado Frantisek Rint foi chamado pra organizar os ossos, trollando o chefe e criando essas magníficas obras. Todos os ossos do corpo humano foram usados para fazer esse lustre. Até a assinatura do cara é feita de ossinhos. Veja mais fotos neste blog aqui. Coisa linda.

Fomos dar mais uma voltinha no centrinho de Kutna Hora antes de voltar, mas não tinha muita coisa pra fazer porque era domingo. Pegamos nosso trenzinho de volta pra Praga.

O bairro judaico e a partida

Nosso ônibus só ia sair à tarde, então resolvemos aproveitar a manhã de segunda-feira, dia útil, pra enviar nossos cartões-postais e dar uma olhada mais a fundo no bairro judaico (Josefov), onde ficam as sinagogas e o cemitério judaico. Lá você pode comprar um pacote dos lugares que quer visitar, aí você adapta as entradas ao seu interesse. Nós vimos o museu judaico, que é um tesão, muitas coisas interessantes sobre a cultura judaica, você volta no tempo lá dentro. Também vimos a Sinagoga Pinkas, que traz os nomes dos judeus tchecoslovacos mortos pelos nazistas, além de uma extremamente depressiva exibição de desenhos feitos pelas crianças no campo de concentração de Terezín. Massacrante.

E por último, o cemitério, que é o que mais me impressionou. Os judeus não podiam enterrar seus mortos em nenhum lugar fora do gueto, então eles acabaram colocando as tumbas umas por cima das outras. E esse lugar é muito antigo, você vê túmulos datando de 1400 e cacetada. Muito impressionante e meio assustador.

E assim acabou mais uma viagem. Mais 20 horas de ônibus pra voltar pra Lyon com mais história pra contar!

Em breve trarei outros relatos 🙂

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1 comentário

  • Responder
    Talita
    1 de novembro de 2011 às 08:05

    Muito bacana seu relato. Você tem um talento enorme para escrever de forma agradável e despretenciosa. É simplesmente ótimo ler seu blog. Não vejo a hora de ler outras histórias de viagem!!

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