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Diário de viagem: Paris, réveillon 2009/2010

Um ano morando em Lyon. Eu tinha uma lista de coisas que eu queria fazer, e passar o Ano Novo em Paris estava entre essas coisas. Assim, desde cedo comecei a chamar os amigos. Alguns diziam que iam, outros que iam ver, outros que Paris era palha e o melhor lugar para o Ano Novo era Barcelona, e outros ainda que tinham amigos morando lá ou visitando naquela época. Então acabou que quase todo mundo que eu conhecia em Lyon foi pra Paris no Ano Novo, cada um fazendo a sua própria viagem mas ainda assim uns conseguindo encontrar os outros em algum momento.

Eu não conhecia ninguém lá, então reservei um albergue da HI num bairro chamado Clichy. Paris é bem cara para hospedagem, e este foi o albergue mais barato que eu achei, pagando 22 euros a noite, o que ainda é caro comparado a outras cidades europeias. Obviamente, ser o albergue mais barato custava seu preço: esse bairro é meio afastado e não é perto de nada do que há para ver de interessante. Eu estava sozinha lá e meus amigos estavam espalhados pela cidade, então a mobilidade ali ficou um pouco ruim.

A chegada, o metrô e o Louvre

No dia 31, saí cedinho de Lyon com o TGV, o trem de alta velocidade que faz o trajeto Lyon-Paris em duas horas. Dá pra comprar a passagem na hora, mas fiquei com medo dos preços ainda mais altos e de não ter mais assento livre, por causa do reveillon. Esperei na estação um pouco até mais dois amigos chegarem no trem seguinte. Cada um foi para sua acomodação fazer check-in e deixar as mochilas, e logo combinamos de nos encontrar para começar a desbravar a cidade ali mesmo.

Esperando o metrô na estação do Louvre

O metrô de Paris é mundialmente conhecido e altamente funcional. Achei bacana que existem tantas linhas e tantas conexões que, para chegar de uma estação a outra, você quase sempre tem duas ou três opções de trajeto. É imprescindível andar sempre com o mapa da rede. Você pode comprar bilhetes nas máquinas disponíveis em quase todas as estações (só aceita cartão de débito/crédito), ou comprar no guichê e pagar em dinheiro. Tem guichê nas estações maiores, tipo em estações de trem.

Eu já tinha visitado Paris em 2005, então já tinha visto os pontos turísticos mais obrigatórios e estava com vontade de ver coisas que não vi da outra vez. Um dos nossos amigos estava com amigos que vieram do Brasil para visitá-lo, e para eles era a primeira vez, então acabei acompanhando em alguns passeios e foi bem bacana. Fomos ao Louvre, que é impossível de se ver inteiro em algumas horas, e vimos só as coisas mais importantes, a Mona Lisa e a coleção egípcia, que eu acho faraonicamente fantástica. Me emocionei com o papiro do Livro dos Mortos desenrolado sobre toda a extensão de uma parede inteira. Fora que né, múmias. Múmias de verdade.

A Torre Eiffel e o frio

Depois vimos a Torre Eiffel, que eu acho lindíssima e não vou me cansar nunca. O legal foi ter uma visão um tanto diferente dela.

Meia Torre

E ficou assim o dia inteiro. Ainda bem que eu já tinha visto e subido até o topo antes. O frio também estava tenso. Foi a ocasião em que eu passei mais frio na minha vida toda. Ok, tudo lá tem calefação, mas quando você viaja você está andando na rua o dia inteiro, de manhã até de noite, com aquele vento te congelando. Cheguei a ficar de mau humor por causa disso no terceiro dia.

Meia Torre & frio

Tenho duas dicas que salvaram a minha vida no frio. A primeira é um kit de sobrevivência básico que vivia na bolsa desde o final de outubro até o começo de abril: boina (proteção para a cabeça), luvas impermeáveis, cachecol, lenços de papel descartáveis, manteiga de cacau/protetor labial, hidratante para as mãos. Não é frescura. É sobrevivência. A segunda dica é com relação aos calçados: use um calçado com solado grosso. Não interessa se é forrado ou se você está usando sete pares de meia, a única coisa que vai impedir seu pé de congelar é o solado grosso. Isso porque o que realmente esfria seu pé é o chão congelado na sola, não o ar frio ao redor do pé. Em outra ocasião, tive de relutantemente aceitar meu destino e usar tênis de corrida para viajar no frio por causa do solado alto e de borracha. Meus pés agradeceram o calor e o conforto eternos, mas todas as fotos precisaram sair da cintura pra cima hehe.

O Réveillon

Nos reunimos todos no apartamento de uma amiga em comum, onde teve ceia delícia e muito champagne com amora. Foi bem divertido porque eu estava com meus amigos, além de várias pessoas novas que eu não conhecia, uma boneca inflável e um violão. A boneca (que roubou a cena da foto abaixo) tinha nome, mas não lembro.

Comemorando o ano novo

O plano era cearmos e depois irmos caminhando até a Torre Eiffel (não era muito longe) para ver as luzes. Assim que chegamos a Torre começou a piscar indicando que era meia-noite. A área na frente da Escola Militar de Paris (bem na frente da Torre) estava lotada de gente. Outros amigos de Lyon apareceram. Abraços e “Feliz 2010” e “adeus ano velho, feliz ano novo” e muita alegria. De repente, éramos uma roda enorme cantando pagode anos 90 e outras trasheras, os franceses bêbados se entusiasmavam com a gente e gritavam “Feliz Ano Novo”, e outros brasileiros desconhecidos se entusiasmavam e entravam na roda também. Um desses brasileiros desconhecidos calhou de ser um colega meu da quinta série do colégio em Ponta Grossa que me reconheceu depois de dez anos no meio de uma multidão em Paris. Surreal.

Depois que o ano já tinha virado havia muito tempo, todos queriam ir para um bar, mas acabamos rodando por um tempão e voltando para a casa da nossa amiga. No caminho até lá tomei um pé na bunda e foi assim que começou 2010.

O primeiro dia do ano, cemitério Père-Lachaise e Montmartre

Acordei cedo que era pra mor de não perder a luz do dia. No inverno na Europa anoitece muito cedo. Às cinco da tarde já é noite fechada. Acabei vendo tudo sozinha porque meus amigos acordaram tarde.

Minha primeira prioridade era visitar o cemitério do Père-Lachaise, onde tem muita gente famosa vestindo o paletó de madeira, como Balzac, Proust, Auguste Comte, Jim Morrison, Edith Piaf, Molière, Camus, e o que eu queria ver, Oscar Wilde. O túmulo dele é um dos mais famosos porque as pessoas vão lá e escrevem declarações de amor e deixam marca de batom. Eu fiquei com nojinho.

Túmulo do Oscar Wilde

A entrada é gratuita mas você precisa pagar pelo mapa com a localização dos túmulos (leve de casa impresso da internet). Eu não quis pagar então fiquei vagando um tempão até achar o do Wilde. Um tempão, o lugar é enorme. Seguir as excursões de turistas não deu certo, então no meu passeio vi coisas bizarras que só um cemitério pode propiciar, dentre as quais um cara no meio de um monte de túmulos, meio escondido do caminho principal mas ainda visível, furiosamente se masturbando para a foto de uma morta. Eu tinha planejado sentar numa área com bancos e árvores e um belo gramado para comer o sanduíche que tinha levado, mas tive de desistir de comer depois desse espetáculo. Por sorte achei o túmulo do Wilde logo depois, tirei foto e saí correndinho.

Um lugar absolutamente necessário de se visitar para quem já viu O Fabuloso Destino de Amélie Poulain é o bairro de Montmartre. É muito charmoso e traduz exatamente o estereótipo de Paris que temos na cabeça. Fui direto para a Basílica do Sacré-Coeur/Sacrequé, que fica no topo de uma escadaria enorme que você pode subir andando, naturalmente, ou de bondinho. Nem vi o preço do bondinho. Lá em baixo tem uma praça com artesãos e artistas de rua, além de um carrossel que toca músicas do filme (Amélie Poulain).

Montmartre

Subi toda a escadaria, apenas para chegar lá em cima e ver que havia tanta gente se aglomerando que era impossível de entrar e, muito pior, impossível de sair. Tirei uma foto de um ângulo estranho e desci. Ainda em Montmartre, o Café des Deux Moulins, onde se desenrolam partes importantes da história da Amélie, existe de verdade. Mas eu nem passei na frente.

Passei o resto do dia olhando algumas lojas que estavam abertas e que fui encontrando pelo caminho, olhando tudo com calma antes de encontrar o pessoal para jantar. Pela rua, encontrei o cartaz deste filme, o qual eu nunca vi e não faço ideia do que se trate, mas achei o título (“A merditude das coisas”) incrivelmente condizente com o que tinha acontecido na noite anterior.

A merditude das coisas

Na posição de ex-Cast Member, eu queria demais demais demais ir à Disneyland Paris (ou EuroDisney), mas nenhum dos meus amigos quis ir. Por sorte, uma das amigas visitantes, que eu havia acabado de conhecer, estava na mesma situação, ela queria ir e ninguém queria acompanhar. Fomos as duas no segundo dia do ano. Mas para isso vou precisar de um post diferente, então pula essa parte.

O último dia, Versailles e Centre Pompidou

Da primeira vez que estive em Paris, abandonamos a excursão no dia do passeio até o Palácio de Versailles para irmos passar o dia em Bruxelas, passeio que eu adorei imensamente. Mas ainda ficou faltando Versailles, então desta vez eu não podia deixar de ir. Peguei o RER, trem que percorre regiões próximas a Paris e é integrado com o sistema de transporte. Caminhei bastante da estação até o palácio, para chegar lá e descobrir que estava fechado. Planejamento FAIL. Sempre atente para os dias e horários de funcionamento das atrações, especialmente na França, onde horários são uma coisa completamente imprevisível.

Ao menos ainda se podia visitar os jardins, e não deixou de ser uma visita legal. O lugar estava deserto e os jardins estavam com a cara do inverno, ficou bonito.

Les jardins de Versailles

Aí almocei no McDonald’s perto da estação e voltei. A estação onde eu precisava descer em Paris era perto da Torrei Eiffel, então foi legal conseguir tirar algumas fotos dessa linda sob o maravilhoso sol de inverno.

Tour Eiffel

Tour Eiffel

Eu precisava pegar o trem bem no final do dia, então com bastante tempo de sobra (e com meus amigos todos já de volta a Lyon) resolvi ir visitar o Centre Pompidou. Não gosto muito de museus, acho que eles são cansativos e tomam tempo demais em uma viagem, mas eu adorei esse, que é de arte moderna. As exposições eram bonitas e intrigantes, e eu queria comprar absolutamente tudo da lojinha. Mas o mais bacana mesmo foi a vista. Dá pra ver, bem de longe, a Torre Eiffel e a Sacré-Coeur.

Vista do Centre Pompidou

Vista do Centre Pompidou

Depois disso, juntei minhas tralhinhas e fui embora. Não sem antes dar uma passadinha na Champs-Elysées para ver as luzes no fim de tarde e os banners saudando o novo ano.2010 est arrivée!

Foi uma viagem diferente e bem interessante, do tipo que faz com calma, com amigos, e sem a obrigação de ver tudo correndo. Saldo positivo!

 

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1 comentário

  • Responder
    Maria Clara
    4 de março de 2012 às 21:57

    Seis meses passando frio nos pés mesmo pagando caro em botas forradas.. nunca tinha me ligado que a malandragem era no solado… mt chatiada

    ps – mt legais seus relatos!

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