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Diário de Viagem: Acampamento na Ilha do Mel

Este Carnaval resolvi fazer algo de diferente… Na verdade, todas as pousadas da ilha estavam lotadas e/ou inflacionadas para essa época, então eu e meus amigos achamos que seria uma boa oportunidade para experimentar um tipo barato e aventureiro de viagem: acampamento. No final, nosso amigo desistiu e acabei indo só com uma amiga que morou na França na mesma residência que eu, a Patrícia. Veja toda a longuíssima história e fotos no “Continue lendo”.

A ida

Parece difícil chegar lá, mas não é. Você só chega na ilha de barco, naturalmente. Os barcos saem de Paranaguá ou de Pontal do Sul, e vão até os trapiches de Brasília ou Encantadas (as divisões principais da ilha). Na sexta-feira de Carnaval à tarde, pegamos um ônibus daqui de Curitiba pela Graciosa. O ônibus leva 2 horas e te deixa direto no porto de embarque de Pontal do Sul.

Havia uma operação da Polícia Federal em busca de dorgas, estavam parando todos os ônibus que iam para o litoral, tirando as malas do bagageiro e soltando o cão farejador em cima.

Muito bonito, mas não entendi qual foi a da fiscalização. O policial só subiu na cabine do ônibus para muito simpaticamente nos explicar o que estava acontecendo. Ninguém chegou nem perto das malas que estavam dentro da cabine, naquele compartimento elevado. Será que alguém que está carregando drogas vai mesmo deixar tudo no bagageiro lá em baixo? Se eu fosse trafi deixava o bagulho quietinho lá em cima no bumba e ainda falava que era de quem tava de pé. Mas na verdade eu só queria tirar foto do cachorro. O meu é mais bonito.

A viagem de barco desde Pontal leva cerca de meia hora e custa R$25,00 ida e volta. Paranaguá é mais perto de Curitiba, mas a viagem de barco de lá até a Ilha demora cerca de 1h45, então não vale a pena. A não ser que, sei lá, você curta muito barco.

Já no caminho dava pra sentir o feeling da ilha. Outro colega viajante sacou o violão e começou a tocar na barca.

Aí é só desembarcar no trapiche e sentir mais um pouco do feeling zen da Ilha, logo de cara.

O camping

Éramos ambas campistas de primeira viagem. Mal tínhamos o equipamento necessário, só barraca (emprestada) e sacos de dormir (emprestados). O que mais fez falta foi um mochilão 75l pra cada uma, especialmente na chegada e partida da Ilha. Nosso camping ficava a 700 metros do trapiche de Brasília. Parece pouco, e é, mas só quando você está andando pela orla de biquini e mais nada. Carregando uma mochila pequena atochada, mais sacola de viagem, mais barraca, fica um pouco sofrido. Por sorte existem carrinheiros à espera no trapiche oferecendo pra transportar suas malas. Vale muito a pena pagar e definitivamente não vale a pena economizar. A mochila correta teria feito esse trajeto menos sofrido.

Enfim, chegamos ao camping do Arione, que escolhemos pelos fatores preço (R$20,00 por noite por pessoa) e indicação de conhecidos. A Ilha tem inúmeras opções de campings em várias localizações, é só escolher. O site Ilha do Mel Preserve traz uma lista bem completa de campings. Considero que demos sorte aqui, porque não ficou muito lotado, tinha sombra o dia todo, a cozinha era bem equipada e os banheiros bem limpinhos. Passeando por lá, vimos campings que não tinham uma árvore pra fazer sombra, outros que estavam tão cheios que não tinha por onde andar entre as barracas, e outros com gente sem noção que levou caixa de som. Este fica na vila de Nova Brasília, que é silenciosa e não tem nada de bar nem agitação. Tem precisamente um restaurante, uma mercearia, e dois campings com uma vendinha com bebidas.

Como chegamos antes do maior fluxo do feriado, pudemos escolher qualquer lugar no camping que ainda estava vazio. Montamos a barraca e fizemos aquele miojinho básico de acampamento pra recarregar depois da viagem. Tinha um gatinho de mascote do camping.

À noite, saímos só fazer um reconhecimento da área, munidas de lanterna, o que é indispensável porque na Ilha não tem iluminação pública. Também não tem ruas nem calçadas, afinal lá não entra carro. Todos os caminhos são trilhas de areia, então você anda bastante. Os nativos não vivem sem bicicleta, e fiquei com muita vontade de ter levado a minha. Talvez na próxima.

Outra coisa que foi legal de acampar foi fazer amigos. Já esperávamos isso e é uma coisa que acontece muito em albergues também. Ficamos amigas de uma menina de São Paulo, que acabou nos apresentando outros amigos que ela já tinha feito durante a viagem e até alguns nativos que ela tinha conhecido.

Alimentação

Já esperávamos preços bem altos, afinal era litoral + temporada + tudo precisa vir do continente. Assim, planejamos compras de mercado e levamos tudo de Curitiba. Foi muito tranquilo comer no camping, a cozinha era bem equipada e as pessoas eram bem educadas e não deixavam a cozinha suja. Levamos o básico: enlatados, miojo, pão, frutas e bolachinhas para lanche.

Seu nível de alimentação num camping vai depender exclusivamente de dois fatores: o saco que você tem pra carregar ainda mais peso além dos equipamentos e o saco que você tem pra cozinhar nas férias. Não tínhamos nem um, nem o outro, então em um dia acabamos comendo um PF superfaturado em um restaurante delícia da Vila do Farol, e em outro dia acabamos comprando no único mercado da Ilha fusili e ingredientes extras para fazer um molho de atum (molho de tomate pronto + atum enlatado). A surpresa foi a gororoba nutritiva, instantânea e nojenta porém surpreendentemente deliciosa que inventamos na hora: uma lata de ervilha refogada na manteiga com uma lata de atum. Barato, rápido, gostoso e dá sustança. Só é a coisa mais feia que você jamais vai comer na vida.

As praias

No dia seguinte à chegada não fizemos nada. O objetivo (cumprido) da viagem era ficar nega, então deitamos na Praia do Istmo e de lá só saímos para voltar para o camping e fazer um almocinho simples, reaplicar o bronzeador e voltar pra areia. Essa praia é ótima para tomar sol porque mesmo com a maré alta, a faixa de areia ainda é bem larga. Além disso, fiquei felizmente surpresa com a quantidade de gente na praia: vazia.

Nada daquele terror de praia lotada que você vê no jornal todo Ano Novo e Carnaval. Sério, foi lindo. Foi uma das melhores coisas. Passamos a maior parte do tempo na Praia do Istmo porque ficava a 2 minutos do camping. Do outro lado do istmo (a faixa de terra que junta um pedaço da ilha ao outro) ficava a Praia de Brasília, mas ela não é tão bonita, então ninguém toma sol ali.

Outra praia que eu gostei demais foi a Praia do Farol. O mar é bem raso, você anda, anda, anda e continua dando pé; calmíssimo, quase sem ondas, parece uma piscina; e transparente com a água meio amarelada. Melhor lugar para tomar banho. Sem contar, é claro, que a vista é linda.

A praia que mais bomba de surfistas é a Praia Grande, mas infelizmente acabamos nem indo lá durante o dia para ver o movimento. Para o objetivo da nossa viagem, as praias foram perfeitas.

Pontos turísticos/Passeios

Não estávamos muito interessadas em visitar tudo, mas a Ilha tem vários lugares para ver e passeios para fazer. Subimos no Farol das Conchas para ver a vista e só. Não vimos a Fortaleza nem a Gruta.

A coisa mais legal que fizemos nesse sentido foi um passeio de barco para ver golfinhos, o barco parava na Ilha das Peças. Não consegui nenhuma foto dos golfinhos, mas vimos vários. Foi bonito porque você eles no habitat natural, pulando pra fora da água, não num aquário nem fazendo show. No começo eles estavam muito longe, mas chegando na Ilha das Peças vimos alguns bem de perto. Foi lindo, sério, me emocionei.

O mais divertido desse passeio foi que estávamos num barco com um grupo grande de umas 11 pessoas, parecia um grupo de amigos de mais de 30 anos. Uma das mulheres estava claramente dando em cima do marinheiro/guia, o que nos rendeu um passeio especial. Tudo o que a mulher pedia, ele fazia, inclusive fazer uma volta enorme com o barco só para que a gente pudesse ver a Fortaleza do mar, e parar o barco para que a gente pudesse nadar um pouco. O que era para durar 4 horas, durou 6. O barco tocava Bob Marley nos alto-falantes, o que só contribuiu pras good vibes da Ilha.

O passeio custa 25 reais e parte do trapiche de embarque de Brasília a cada meia hora. Dura 4 horas, passa pela baía dos golfinhos e para na Ilha das Peças durante 1 hora para o almoço (facultativo e pago à parte). Fica a dica 🙂 Quem nos indicou foram os amigos novos que nossa amiga nova de São Paulo tinha feito.

Noite

Curtir a noite na Ilha foi uma das coisas que eu mais gostei, pelo fato de ser muito diferente do que eu estou acostumada. A começar pelas trilhas de areia e a falta de iluminação pública que já mencionei, o que significa que é tudo à pé e com lanterna. Depois, o fato de que é todo mundo muito mais tranquilo, a gente saía para a noite com a mesma roupa que passamos o dia, passava um rímel, botava um colar e tava pronta. Bem pé no chão roots mesmo.

Em Nova Brasília já falei que não tinha nada, então toda noite tínhamos que percorrer o istmo até a Vila do Farol, onde ali sim era bem agitado. Vários restaurantes, cafés, barzinhos e muitas, muitas pousadas e campings, o que colaborava pra sempre ter algum agito por ali.

No sábado, fomos até um bar com deck sobre a praia chamado Toca do Abutre, na Vila do Farol. É bar e restaurante durante o dia e até a noitinha, e depois faziam igual bailão de igreja, arrastavam as mesas e virava baile de Carnaval. No começo tinha um dupla tocando música ao vivo, com MPB, e depois entrava um DJ. Gostei bastante. É um lugar aberto, tem o bar e uns chapéus de palha gigantescos, sem porta, então era fresco e você ficava livre pra entrar e sair a hora que quisesse. O bar funcionava com um sistema de fichas tipo de festa junina, mas todo mundo levava a própria bebida. O DJ realizou todos os meus sonhos mais secretos de dançar hip-hop na balada, além de tocar os pop de sempre e algum samba também. Foi lindo.

Nessa mesma noite, conhecemos um grupo enorme de canadenses que estavam estudando e viajando pelo Brasil e foi uma das coisas mais engraçadas. Loucos de tubão de 51 com Pepsi (juro), eles tentavam sambar a todo custo, ficaram animadíssimos por terem conhecido brasileiras, e ainda renderam uma das melhores histórias. Estávamos indo para o luau de que todo mundo estava falando, e um dos canadenses queria passar na pousada dele antes, mas não lembrava como chegar. Acompanhamos o cidadão só para ficarmos perdidos no escuro no meio do mato e ir parar na praia errada. Caminhamos por muito tempo até achar a pousada do maluco, deixar ele lá e voltar pro camping.

No domingo, ficamos ali pelo camping mesmo. Fomos até a Praia do Istmo com nossa amiga nova, sentamos na canga e ficamos conversando e olhando o céu mais incrível que já vi na vida. Lua nova, zero poluição luminosa e zero nuvens contribuíram para um céu alucinante de estrelas. A-lu-ci-nan-te. Não tenho câmera suficiente para tirar foto daquilo, mas é uma das coisas mais impressionantes que eu vou levar. Eu andava à noite e não conseguia tirar os olhos do céu. Deitei na canga e fiquei só olhando pra cima o tempo inteiro. Hipnotizante.

Na segunda-feira de Carnaval, voltamos à Toca do Abutre, mas o lugar estava muito mais morto do que no sábado. Sentamos na praia com nossa amiga nova e os amigos nativos durante um tempo enquanto esperávamos o lugar encher. Nisso, conhecemos um suíço que morou no Chile e estava viajando o Brasil, e estava ali pela praia fotografando. Quando ele descobriu que tínhamos morado na França, não paramos mais de conversar e ele ficou com a gente até o final da noite, formando um grupo bem legal. Foi nessa noite que o DJ tocou todas as melhores músicas de festa do mundo. O destaque aqui foi o after-party. Os canadenses do outro dia eram amigos de uma menina que tinha casa na Ilha e ia para lá desde que era criança, praticamente nativa. Ela contou que no fim de noite todo mundo sempre ia para um luau na praia, num lugar chamado Canto da Vó. Esse lugar fica no canto da Praia Grande e caminhamos numa trilha escura por mais ou menos uma hora para chegar lá. Tinha um broder tocando uma reggeira na guitarra e um telão passando imagens de surf e um pessoal tranquilo. Foi bem legal pela experiência.

Na terça-feira à noite, todo mundo já tinha debandado da Ilha para trabalhar no dia seguinte e sobramos só nós e nossa amiga nova no camping. Saímos à caça de milho de pipoca no meio da noite e finalmente conseguimos convencer o dono da mercearia a abrir o lugar só pra gente comprar pipoca. Vantagens de se ter um não-curitibano na roda. Ficamos no camping mesmo, só conversando e relaxando para voltar logo no dia seguinte.

Impressões gerais

Meu tipo ideal de viagem é ter tempo para ver o que eu quiser, e tempo para não fazer absolutamente nada também se eu tiver vontade. Também acho imprescindível fazer amigos e voltar com histórias bizarras para contar. Foi exatamente isso que aconteceu aqui, e eu achei o máximo. O camping foi muito legal por ser uma experiência diferente, coisa que também muito me agrada, mas acho que no geral ainda prefiro um bom e velho hostel.

O Paraná está longe de ter as melhores praias do Brasil, mas a Ilha do Mel definitivamente é uma experiência sem igual, por misturar um pouquinho assim de civilização com esse fator totalmente roots e pé no chão. Nada como proibir totalmente a entrada de carros em um lugar. Coisa linda.

Se tiver dúvidas ou quiser mais dicas, é só pedir 🙂

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14 Comentários

  • Responder
    Jenny @barangurte
    1 de março de 2012 às 09:02

    eu quero… EU PRECISO viajar para a praia!!!!

  • Responder
    Anieli
    8 de outubro de 2012 às 00:02

    Oi, achei q faltou os preços, normalmente quem faz mochilão precisa saber tudo antes! gostaria de saber sobre preços!!! O preço do camping, refeiçoes, etc.

  • Responder
    Graziele
    5 de dezembro de 2012 às 11:49

    Oi qual o valor cobrado no Camping?
    Estou pesquisando qual o melhor lugar pra ficar.

    Obrigada

  • Responder
    Michele Rosa
    11 de fevereiro de 2015 às 22:39

    Show seu relato! Empolgante, e não foi cansativo de ler. Ilha do Mel deve ser ótima! Carnaval, lá vou eu!!

  • Responder
    Igor
    4 de outubro de 2015 às 23:03

    Boa dica, estava procurando um carnaval assim ! É um carnaval tranquilo ou enche muito ?

    Como você gosta de acampar, sugiro dar uma passada na Ilha Grande (Rio de Janeiro) e Ibitipoca (Minas Gerais) !

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      5 de outubro de 2015 às 14:58

      Oi, Igor! Enche um pouco, as pousadas ficam lotadas, mas como tem muita extensão de praia, fica bem tranquilo. Nada comparado àquele carnaval-muvuca que a gente tá acostumado, beeeem mais tranquilo!
      Obrigada pela dica! Vou procurar!
      Beijos!

  • Responder
    kelvin
    17 de outubro de 2016 às 14:08

    Tem área beira a mar que da para fazer camping sem pagar?

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      30 de novembro de 2016 às 18:07

      Oi, Kelvin, não tem não. Procure um camping com estrutura completa. Boa viagem!

  • Responder
    Larissa
    3 de janeiro de 2017 às 10:18

    Bom dia, gostaria de saber sobre a segurança desse camping, como faz pra deixar as coisas na barraca?

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      4 de janeiro de 2017 às 13:39

      Oi, Larissa! Em qualquer camping você tem que manter sua barraca trancada com cadeado (pode ser daqueles de mala mesmo) no zíper, pra proteger as coisas que estão lá. Boa viagem! 🙂

  • Responder
    larissa
    9 de janeiro de 2017 às 09:31

    Bom dia, vocês reservaram o camping? ou só souberam aonde iam ficar quando chegaram lá?

  • Responder
    Anna Carolina Folegatti Lopes Freire
    10 de janeiro de 2017 às 16:55

    Olá Maria Thereza! Tudo bem? Como foi a sua experiência com os mosquitos? Recomenda levar um potente repelente?

    Obrigada! Adorei as informações!

    • Responder
      Maria Thereza Moss
      11 de janeiro de 2017 às 12:58

      Oi, Anna! Sim, sempre levar repelente! 😀 Item de primeiríssima necessidade hehehe

      Beijos e boa viagem!

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