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Couchsurfing: questão de confiança

Quando eu, minha amiga Patricia e minha ansiedade social juntamos nossos mochilões pra pegar o metrô de Barcelona e ir até a casa do Javito, que seria nosso anfitrião (host) do Couchsurfing durante aquela semana, eu estava com aquela sensação de insegurança que me aflora sempre que vou conhecer alguém pessoalmente.

Era a terceira vez que eu surfava, o que na comunidade quer dizer ser hospedado na casa de alguém, mas é claro que estamos falando de pessoas, e com pessoas nenhum caso é igual ao outro. Já ter feito isso antes ajudava um pouco a me assegurar de que  não, a gente não estava fazendo algo completamente idiota e irresponsável aceitando ficar na casa de um completo estranho, mas a dúvida é inevitável.

O prédio dele ficava bem longe do centro de Barcelona, no alto de colinas tão íngremes que uma delas tinha escada rolante no meio da rua, e o apartamento ficava no último andar, é claro, sem elevador. O que nos motivou durante a escalada das ladeiras e a subida dos degraus foi a expectativa de uma vista incrível, e felizmente a realidade foi correspondente.

O sofá do Javito e a vista. Rolava até um mar lá no fundo.

O sofá do Javito e a vista. Rolava até um mar lá no fundo.

Ele pediu desculpas porque estaria muito mais ocupado no trabalho naquela semana do que ele tinha pensado, e não poderia nos acompanhar em muitos passeios. Me entregou a chave da casa dele pra gente usar a semana toda e saiu trabalhar. Fiquei ali parada com a chave na mão, eu e a Patricia olhando uma pra outra com cara de “oi? quê?”, e naquele momento eu finalmente entendi de coração do que se tratava a comunidade, e qualquer insegurança que eu pudesse ter tido desapareceu.

Não se trata de se hospedar de graça, como muita gente pensa. Não se trata nem de ter um guia nativo da cidade. Trata-se de algo muito mais humanamente básico: confiar nas pessoas.

A gente podia estar com receio de dormir na casa de um completo estranho, mas ele também tinha exatamente os mesmos motivos para ter receio de hospedar duas completas estranhas. Mesmo assim, ele confiou a casa dele, com tudo o que tinha dentro, à gente. E, da mesma forma, a gente confiou a ele nossa segurança e nossas coisas de valor.

Já no processo de procurar onde ficar tem que existir confiança. Forjar boas recomendações de outros usuários no seu perfil é bem difícil, o que já daria uma boa garantia de que a pessoa é do bem, mas você ainda tem que confiar que tudo aquilo que foi dito é verdade, entrar em contato com a pessoa e confiar que ela vai estar lá na hora e lugar marcados.

Vivendo no Brasil a gente desenvolve uma desconfiança de tudo pra se manter seguro. Já falei um pouco sobre isso quando contei dos mochileiros vendendo pulseirinha no posto pra bancar a viagem. Adivinha qual era a reação das pessoas a eles? Desconfiança, claro. Dá pra culpar? Num país em que você é assaltado por um estranho que te aborda casualmente perguntando as horas no ponto de ônibus, não, não dá pra culpar. Aconteceu comigo e adivinha? Isso mesmo, parei de dar informações na rua.

Essa reação de defesa automática pode, sim, nos deixar mais seguros. Mas essa segurança só pode existir dentro da zona de conforto e, como já sabemos, é fora da zona de conforto que a magia acontece.

É entregando as chaves da sua casa pra duas mochileiras, é topando ficar na casa de alguém que você só conhece por um perfil na internet, que a magia acontece.

Música e dança medieval na Plaza del Rey

Música e dança medieval na Plaza del Rey

No nosso caso, a magia veio na forma de um evento de música e dança medieval que acontecia todas as sextas-feiras na Plaza del Rey, e depois comer tapas e tomar claras (um tubão de cerveja com Sprite, uma delícia) no boteco mais encantadoramente sujo e deliciosamente gorduroso que os catalães amam. A gente não sabia da existência de nada disso e continuaria não sabendo se tivesse ficado num hostel por medo de confiar no Couchsurfing.

Nós e o Javito tomando claras

Nós e o Javito tomando claras

O ponto é que a verdadeira magia não é apenas se abrir pra experiências novas num lugar novo dentro de um contexto mais relaxado como uma viagem de férias. A magia da coisa está no fato de que, depois dessas experiências, você começa a se sentir cada vez mais à vontade para aplicar essa confiança na sua vida cotidiana e nas suas relações. Afinal, se você pode ceder as chaves de casa pro cara da internet, pode confiar que o vendedor de pulseirinha não vai te fazer mal algum. E isso também é esticar um pouquinho mais os limites da sua zona de conforto.

Essa semana até dei informações pra duas pessoas que me pediram ajuda na rua 🙂

Quer saber mais?

Sobre o Couchsurfing

Se você tem dúvidas sobre o que é a comunidade, como ela funciona e, principalmente, como participar, recomendo que você leia o completíssimo post “Couchsurfing e todas as dúvidas que você tinha“, da Ana Freitas, do blog Olhômetro. Um guia com todas as informações práticas que você precisa para uma boa experiência.

Se quiser, também pode ser meu amigo e deixar uma referência bem linda 🙂

Sobre confiar

A maravilhosa Amanda Palmer deu uma Ted Talk bem emocionante sobre o ato de pedir e o ciclo da confiança em estranhos. O que você dá, você recebe. Ela também fala rapidamente sobre o Couchsurfing na palestra, e vale muito a pena ver.

Assista aqui com opção de legendas em português.

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4 Comentários

  • Responder
    Vanessa
    6 de abril de 2014 às 15:24

    Ano passado usei o Airbnb, que apesar de ser pago (valor ridiculamente baixo) envolve o mesmo princípio: confiança.
    Fiquei em 6 cidades europeias, e na primeira fiquei com um pouco de medo, mas todos nos receberam tao bem que na ultima casa, em Barcelona, ja estavamos tao a vontade, realmente abertos para a experiencia.
    Tive a impressao que ficando na casa das pessoas a experiencia e’ maior, mais profunda.
    Nas proximas viagens pretendo usar de novo, e recomendo sempre.

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      6 de abril de 2014 às 15:40

      Oi Vanessa! Que legal a sua experiência! Ainda não usei o Airbnb, mas tudo o que ouvi falar foi positivo nesse sentido. Mesmo que você esteja pagando pela hospedagem, ainda precisa confiar que não está caindo num golpe, e o proprietário precisa confiar que você vai cuidar bem da casa dele. Isso realmente torna a experiência muito mais profunda do que ficar num hotel, onde só existe uma relação extremamente profissional e totalmente impessoal com os funcionários.
      Um dia ainda vou experimentar o Airbnb 🙂

  • Responder
    Rafael Leick
    29 de setembro de 2014 às 16:09

    Adorei o post. Couchsurfing é sempre uma experiência maravilhosa!!!
    Quero começar a surfar também, porque sempre recebo gente. rs
    bjs

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      29 de setembro de 2014 às 20:01

      Rafa, eu sou o contrário! Sempre surfo e agora quero começar a receber hahaha
      É sempre uma experiência maravilhosa mesmo, eu recomendo pra todos! 😀

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