Estados Unidos

Burning Man: O que é

Desde que eu finalmente bati o pé e decidi que 2015 seria o ano em que eu iria ao Burning Man, depois de alguns anos pesquisando e lendo tudo o que podia, tem sido difícil explicar o que exatamente acontece lá.

A definição básica é que o Burning Man é um festival de contracultura, um experimento social de arte, comunidade, autoexpressão e autossuficiência. Acontece no final de agosto no deserto de Black Rock, no estado americano de Nevada, durante 7 dias, reunindo cerca de 70 mil pessoas.

A percepção que as pessoas têm é outra. Muita gente acha que é um grande festival de música eletrônica, como uma Tomorrowland ao cubo. Tem quem ache que é um antro de perdição, nudez e libertinagem sob o efeito de psicotrópicos. Recentemente, pegou uma fama de ser onde os ricões do Vale do Silício se divertem.

Eu não vou dizer que o Burning Man não é nenhuma dessas coisas, primeiro porque ele meio que é todas essas coisas ao mesmo tempo e segundo porque eu ainda não fui e tudo me parece tão surreal que corro o risco de proferir grandes besteiras apenas olhando de fora.

Mas vou contar pra vocês um pouco do que eu já descobri porque quero que vocês fiquem com vontade de me acompanhar em mais esse rolê.

The Man

O nome Burning Man (“homem em chamas”) vem do ritual que é a base do festival desde seu início, em 1986. Um homem de madeira gigantesco (o Man) é erguido bem no centro do evento. Ele observa a todos durante a semana e, no sétimo dia, é queimado com grande celebração.

O Man, diz-se, representa ~o sistema~. E quem não quer queimar o sistema, né, mores?

Os 10 princípios

A ideia toda do Burning Man é ser uma ~sociedade alternativa~, criando uma cidade temporária no meio do nada que permite que as pessoas realmente vivam essa utopia, nem que seja só por 7 dias no ano. Foram definidos 10 princípios para guiar esse ideal, e eles são as regras de ouro que regem toda a convivência e criação que envolve o evento, não só nessa semana mas durante todo o ano.

São eles:

  • Inclusão radical – Todos são bem-vindos, sem exceção. Todas as raças, todos os gêneros, todas as ideologias, todas as idades (sabia que tem muita criancinha e velhinho no Burning Man?). Na prática, porém, o ingresso é super caro, chegar lá é caro, e ainda vai uma boa grana nos preparativos. Desse jeito fica um pouco difícil ser radicalmente inclusivo e o festival tem, sim, uma vibe bem elitizada.
  • Doação – Todos são incentivados a doar ou presentear as pessoas com o que cada um puder: comida, bebida, arte, música, itens de sobrevivência, aulas de yoga, aconselhamento, um abraço. Não é escambo, ninguém espera nada em troca. É doação.
  • Desmercantilização – Sendo uma economia de doação, não existe comércio no Burning Man. As únicas coisas que podem ser compradas são sacos de gelo e xícaras de café. Não tem nenhum isopor com cervejinha e água pra vender, não tem camiseta do evento, não tem souvenir.
  • Autossuficiência radical – Você está no meio de um deserto escaldante e seco, bem longe da cidade mais próxima. Sua única obrigação é sobreviver por conta própria. Você é o único responsável pelo seu bem estar, e é você quem tem que levar tudo o que vai precisar, desde toda a água que você vai consumir (40 litros é o recomendado por pessoa para os 7 dias), toda a comida, abrigo, ferramentas, itens de segurança e primeiros socorros, até uma estrutura que faça alguma sombra, porque nem árvore tem pra você ficar embaixo. Ir mal preparado e contando com a boa vontade dos outros é mal visto na comunidade.
  • Autoexpressão radical – O Burning Man é o lugar para ser quem você realmente é, livre dos padrões que a sociedade impõe. Está permitido ficar pelado, usar fantasias malucas, fazer performances, arte, o que você quiser. O limite, como sempre, é o respeito à liberdade individual do próximo.
  • Esforço comunitário – Uma das coisas mais valorizadas é a cooperação e a colaboração. Todos precisam colaborar entre si para criar um evento fantástico.
  • Responsabilidade civil – Parece oba-oba, mas não é. Sendo uma grande comunidade, é preciso respeitar o próximo e as regras de segurança e boa convivência. Responsabilidade civil também significa que todas as leis do mundo default também se aplicam ao Burning Man.
  • Não deixar rastros – Importantíssimo. Não existem lixeiras no festival, tudo o que você leva, todo o lixo que você produz, deve ser levado de volta. Depois do evento, o deserto tem que estar exatamente nas mesmas condições em que estava antes, como se nada tivesse acontecido. Isso significa que não pode nem jogar água suja no chão porque isso pode danificar o solo. Cada lantejoula, cada grãozinho de glitter, cada serragem, cada cinza que cair no chão, tudo precisa ser recolhido.
  • Participação – Não existem espectadores. Todos são incentivados a trabalhar, ajudar, criar algo, se divertir, e divertir o próximo. Participar, não observar.
  • Imediatismo – Viver o presente, o aqui e agora, coisa que é tão difícil fazer no nosso dia a dia.

Black Rock City

Pense numa cidade espontânea de 70 mil habitantes no meio do deserto. A organização do evento define as ruas, mas habitá-las é tarefa dos burners (como são chamados todos os participantes do festival). As pessoas chegam, montam suas barracas, estacionam seus trailers ou motorhomes, e desmontam tudo e vão embora depois de 7 dias.

A cidade tem serviços de uma cidade como outra qualquer: atendimento de saúde, policiamento, saneamento (ok, banheiro químico, mas tá valendo), enfim. Tem até um aeroporto municipal de verdade, com o código 88NV. E o papel da organização do evento é mais ou menos esse.

Todo o resto, os acampamentos, os bares, os DJs, as instalações de arte, tudo é construído pelos participantes no espírito da doação, do esforço comunitário e da participação. São 70 mil pessoas construindo um festival em comunidade. Entendeu por que tem um milhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo?

Arte, música e locurada

O festival não tem line-up, não tem atrações pré-definidas. Quem faz do Burning Man o que ele é são os participantes. As pessoas se reúnem em theme camps (“acampamentos temáticos”) com o propósito de doar alguma experiência à comunidade.

Alguns acampamentos montam bares e levam rios de cachaça pra distribuir pras pessoas. A galera distribui sanduíches, sorvetes, comida típica de onde vieram. Outros camps trazem DJs muito loucos pra tocar. Outros oferecem aulas de yoga, meditação, muito misticismo. Outros ainda criam obras de arte interativas e criativas pras pessoas participarem, como uma floresta. Organizam eventos malucos tipo um pub crawl pelado ou uma marcha dos coelhinhos, das bananas ou das mulheres barbadas. Projetam veículos mutantes absurdos que levam a galera pelo deserto.

E não são só os acampamentos. Pessoas normais como eu e você, no espírito da autoexpressão radical, usam essa oportunidade pra botar pra fora toda a sua criatividade e liberdade, e até o simples ato de estar presente se torna artístico.

É muita coisa, muita coisa mesmo. É impossível ver tudo em 7 dias, até porque tudo muda muito rápido. A meu ver, é isso que torna esse lugar tão especial.

Uma foto publicada por ARTonPLAYA (@artonplaya) em

Comunidade

O negócio é tão cativante pra tanta gente que muitas pessoas se esforçam para manter esse espírito vivo durante o ano todo. A comunidade de burners é muito forte, com vários grupos regionais no mundo todo. Também acontecem eventos paralelos como os gigantescos AfrikaBurn, na África do Sul, e MidBurn, em Israel.

Por aqui, o grupo Burning Man Brasil é quem vem trazendo essa cultura pra cá. Este ano, até obra de arte brasileira vai ter no deserto, o Projeto Mangueira.

Eu fui!

Sim, depois de um ano de intensa preparação, fico muito feliz em dizer que eu fui ao Burning Man 2015! E também já contei tudinho no post Burning Man 2015: Como foi. Corre ler!

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2 Comentários

  • Responder
    Juan
    17 de setembro de 2015 às 20:27

    Olá Maria, tudo bem?

    Permita-me fazer uma pergunta um tanto indiscreta… Vejo muitas pessoas “mochilando” por aí e sinto o mesmo desejo de desbravar o mundo também. Mas me fica sempre a pergunta: Como essas pessoas se mantém? Afinal, viajar é caro… Como arrumam tempo para trabalhar? Enfim, espero um dia conseguir!

    Boas viagens!

    • Responder
      Maria Thereza M.A.
      23 de setembro de 2015 às 17:07

      Oi Juan! Aí depende de cada um. Viajar não é tão caro assim, sempre tem opções pra tudo quanto é bolso e dá pra gastar bem pouco. Existe muita informação sobre viagens baratas, promoção de passagem, viagem de ônibus, troca de acomodação, coisas assim.

      Dá pra mochilar nas férias e trabalhar o resto do ano. Algumas pessoas escolhem trabalhar como freelancers, aí elas podem trabalhar enquanto viajam mesmo.

      Mas o mais importante é o seguinte: definir suas prioridades. Eu não tenho carro, divido apartamento de aluguel, evito fazer muitas compras, enfim, tento gastar o mínimo possível. Grande parte do que eu ganho ao longo do ano é investido nas minhas viagens. Se sua prioridade é comprar uma casa própria, por exemplo, aí talvez fique mais complicado mesmo fazer uma viagem bacana. Vai da escolha de cada um.

      Então minha dica é essa: defina a viagem como uma meta, coloque uma data e foque nisso, faça o que for preciso pra ela se concretizar. Pesquise, planeje, organize suas folgas/férias no trabalho, economize grana, pra quando chegar o dia você estar preparado. Se ficar pensando “quando eu tiver grana eu vou”, a gente acaba não indo, porque realmente nunca vai ser o momento perfeito. Eu passei 6 meses planejando meu mochilão; outros 6 meses planejando e economizando pro Burning Man. E vale tanto a pena!

      Espero que isso responda a sua pergunta e te incentive a definir sua viagem 🙂

      Beijos!

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