Na segunda-feira do Burning Man 2015, a primeira coisa que fiz quando acordei foi organizar minha barraca, que montei na madrugada anterior às pressas, no escuro, me sentindo ridícula com a lanterna na cabeça.

Burning Man? O que é isso mesmo? Entenda.

“Organizar”, na verdade, era um pretexto pra eu postergar o máximo possível o ato de abrir o zíper do casulo quentinho e tão familiar que era a minha barraca e adentrar no mundo completamente novo em que eu havia escolhido me inserir pela próxima semana.

Quando finalmente saí, já toda montada com um dos looks de playa wear que eu havia cuidadosamente escolhido e experimentado ainda em casa, fui obrigada a engolir toda a minha insegurança social e começar a conhecer o pessoal do acampamento e aprender como as coisas funcionavam naquele novo ambiente.

Meu castelo, santuário e porto seguro
Meu castelo, santuário e porto seguro

O acampamento já era um passo além do santuário que se tornou a minha barraca, mas ainda um microorganismo em si mesmo dentro do ecossistema que é Black Rock City.

Novamente, fiz de tudo pra postergar o máximo possível minha saída do acampamento, agora o perímetro estendido da minha zona de conforto: decorei e iluminei a bicicleta que aluguei, enchi todas as minhas garrafinhas com a água comunitária do acampamento, distribuí os pés de moleque e docinhos de leite que eu havia trazido, aprendi a mexer no fogareiro e fiz um miojo, até pedi pra me ensinarem a fazer café na cafeteira francesa. Mas não dava mais pra enrolar: era chegada a hora de desbravar Black Rock City pela primeira vez.

Montei na bicicleta e saí, com a primeira missão de encontrar os acampamentos de dois amigos que estariam lá. Foi bem fácil me familiarizar com as ruas e o sistema de localização da cidade, nunca fiquei perdida. Mas, como eu viria a descobrir bem rápido, não é nada fácil encontrar alguém num lugar com 70 mil pessoas e sem sinal de celular. Não encontrei nenhum dos dois.

As ruas de BRC ficavam lindas no pôr-do-sol
Ruas de Black Rock City

Era a hora de ir ainda mais além, sair das ruas da cidade e ir para o deserto aberto, a playa. Passei a tarde inteira pedalando de uma obra de arte para a outra, tirando fotos, observando as pessoas.

Eu me senti exatamente assim nesse primeiro dia: observando.

Parecia que todas aquelas pessoas estavam participando de alguma coisa muito legal, estavam envolvidas, incluídas em algo que eu só conseguia ver de fora. Me senti um pouco excluída nesse dia, como se eu não pertencesse àquele lugar.

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Voltei pro acampamento e pro meu casulo seguro e familiar com o pretexto de tirar uma soneca e ficar descansada pra conhecer a cidade à noite mais tarde. Acordei à meia noite, ainda cansada e morrendo de medo de sair. Overwhelmed era a única palavra em que eu conseguia pensar: significa ficar sem ação, ficar aturdida por ter que assimilar informação demais ou dar conta de responsabilidades demais. E todo mundo sabe que tudo é demais no Burning Man.

Voltei a dormir, um pouco triste por estar tão assustada em uma situação em que eu queria tanto estar. Fiquei me perguntando o que eu estava fazendo ali sozinha, e pensando que essa seria uma longa semana.

Na hora fiquei com um pouco de vergonha dessa decisão, mas no decorrer da semana descobri que foi ótimo me resguardar e me permitir esse tempo pra assimilar tudo. Por causa disso, eu simplesmente não tive o famoso playa breakdown, um surto que as pessoas costumam ter lá pela metade da semana por causa do ambiente extremo e situações psicologicamente desafiadoras.

Já na terça-feira de manhã, tivemos um evento no meu acampamento em que distribuímos mais de mil sanduíches de queijo grelhado.

Foi aí que eu senti as coisas mudarem.

Participar desse evento me obrigou a me abrir mais, e não só a conhecer melhor e ajudar as pessoas do meu próprio acampamento, mas também a interagir com pessoas completamente estranhas.

Jogando Twister com dois malucos de canga que apareceram no acampamento
Jogando Twister com dois malucos de tanga que apareceram no acampamento

E sabe o que acontece quando você chega em uma pessoa desconhecida e fala “oi”? Essa pessoa sorri e diz “oi” de volta, simples assim. A partir dali, eu deixei de ver tudo de fora e comecei a me sentir parte daquele grupo incrível de 70 mil pessoas.

Acho que é porque o deserto contribui muito pra loucura coletiva que é o Burning Man. É impossível estar com milhares de pessoas em um ambiente completamente alienígena ao que a gente está acostumado e não se sentir em comunhão. Quando todo mundo tá na merda, fica fácil se aproximar e ser amigo. Você tá ali torrando no sol e comendo poeira cada vez que abre a boca, mas de repente aparece alguém oferecendo queijo quente e você sabe que tudo está bem no mundo.

Era assim que as coisas aconteciam, você simplesmente chegava e dizia oi e fazia um amigo instantâneo.

Essa amizade poderia continuar ou não, mas realmente não importava.

FUCK YER DAY: o bom dia carinhoso dos "burners"
*UCK YER DAY: o bom dia carinhoso dos “burners”

Na noite de terça-feira, aconteceu a primeira grande tempestade de poeira. Eu tava com uma amiga do acampamento no meio da playa, ainda dava pra se localizar pelas luzes ao longe. Só que quando o vento aumentou e a poeira levantou, não dava pra ver nem a roda da bicicleta. Me perdi da minha amiga e logo encontrei um grupo de umas 5 pessoas, todas fechadas numa rodinha pra tentar se abrigar da poeira. Perguntei se podia me juntar, e eles me acolheram imediatamente. Um deles não tinha nada pra cobrir a boca, e eu tinha duas bandanas, uma que eu trouxe e outra que eu havia ganhado de um cara no bar 20 minutos antes. Dei uma das bandanas pra ele, ficamos todos felizes, a tempestade passou, cada um foi pro seu lado e eu nunca mais vi nenhum deles.

E era assim que a roda girava e as coisas aconteciam e o deserto providenciava. Você só precisava se abrir e dizer oi. A partir daí você recebe, aceita, agradece, oferece, entrega, desapega. Eu senti que é essa dinâmica que rege todo o evento, independentemente do que você escolha fazer dele.

Se você quer ficar pelado, ficar de sobretudo, dançar 24h ou tirar uma pira na piscina de ursos gigantes, ninguém vai te julgar por nada
Se você quer ficar pelado, ficar de sobretudo, dançar 24h ou tirar uma pira na piscina de ursos gigantes, ninguém vai te julgar por nada

Sim, porque ficou bem claro pra mim que é você quem faz a sua experiência.

O Burning Man tem de tudo, mas você não é obrigado a nada.

Pode ser uma grande rave 24h se você quiser, não faltam acampamentos de som e carros de som que são verdadeiras obras de arte nos cantos mais afastados do deserto.

Pode ser uma grande orgia se você quiser, não faltam acampamentos voltados para o poliamorismo, as relações livres, ou para a pura e simples pegação; inclusive existe o Orgy Dome, um acampamento que realmente promove orgias.

Pode ser um grande retiro espiritual se você quiser, não faltam sessões de meditação guiada, palestras sobre autoconhecimento e espiritualidade e muitas, mas muitas aulas de yoga. Isso sem contar em toda a espiritualidade ao redor do Temple.

Pode ser uma grande galeria de arte e desfile de moda a céu aberto, se você quiser. Não falta coisa linda e maravilhosa pra ver.
Pode ser uma grande galeria de arte e desfile de moda a céu aberto se você quiser, não faltam coisas lindas e maravilhosas pra ver.

Pode ser um grande playground se você quiser, não faltam acampamentos direcionados especialmente para crianças e muitas outras atividades em família.

Pode ser literalmente qualquer coisa, desde que você queira. Eu senti essa vibe no geral. Você pode fazer e ser o que você quiser, até o limite do respeito ao espaço do próximo. Oportunidades estranhas vão surgir, e você pode aceitar ou não. Se não aceitar, tudo bem, ninguém vai insistir nem te julgar por nada.

Mais pro final da semana, um veterano do meu acampamento, dizendo que não existe jeito errado de viver o “burn”, me perguntou:

Qual é o seu?

Refleti um pouco e percebi que o meu burn eram as coisas esquisitas e criativas que as pessoas faziam e as interações improváveis que aconteciam por causa disso.

Foi nessas que eu comi nachos com guacamole de um carrinho de controle remoto que surgiu do nada.

El Guaco: uma dádiva que o deserto providenciou
El Guaco: uma dádiva que o deserto providenciou

Mergulhei numa piscina de ursos de pelúcia gigantes.

Comi um comprimido que zuou minha língua e fez tudo o que eu comia ficar extremamente doce: limão puro, picles, azeitonas, cerveja. Horrível.

Recebi uma leitura de runas e um hot dog de uma senhorinha mística e contei meu segredo mais íntimo pra ela.

Ganhei um algodão doce feito na hora por uma senhorinha nua quando voltava do banheiro químico.
Ganhei um algodão doce feito na hora por uma senhorinha nua quando voltava do banheiro químico.

Comi uma fatia de bacon fresquinha e crocante que me foi servida em bandeja de prata no meio da rua enquanto eu andava de bicicleta nua com outras 500 pessoas nuas no Naked Pub Crawl. Sou vegetariana, mas quem recusaria?

Vi meu rosto como ele realmente é num espelho invertido e saí chorando.

Tomei banho de espuma em uma tenda de circo com todo mundo dançando nu e Android Jones discotecando. O “ingresso” era contar seu desejo mais profundo num bilhetinho.

Assisti a um nascer do sol que parecia de outro planeta. Entre muitas outras bizarrices maravilhosas.

Também saí chorando do nascer do sol no Temple of Promise
Também saí chorando do nascer do sol no Temple of Promise.

Perdi alguma coisa?

Com certeza, perdi coisa pra caralho. Hoje vejo as fotos bombando nas redes sociais e me pergunto “onde que eu tava nessa hora?”

Eu tava olhando um tatu gigante passando na rua na hora em que o Ronaldo tava andando de segway.
Eu tava fazendo amigos, tomando cerveja e olhando um tatu gigante cheio de gente dançando passar de boas na rua na hora em que o Ronaldo tava andando de segway.

Muita obra de arte que eu nem sabia da existência, muito DJ famoso que eu nem sabia que ia. Mas isso faz parte do appeal do Burning Man. Tem 70 mil pessoas fazendo coisas incríveis em 20 km2 de evento. É impossível ver tudo. E se a gente não aceitar isso, acaba não vivendo nada por completo.

Tinha dias em que eu simplesmente me sentia em um feriado na praia com meus amigos. A grande diversão era sentar na sombra, na “varanda” do acampamento, só tomando cerveja, conversando com o pessoal e vendo os maluco passarem na rua. Eu poderia, eu mesma, estar fazendo mil coisas malucas em vez de estar sentada ali, “fazendo nada”. Mas cada momento é valioso. Não é todo dia que você vê uma pirâmide Illuminati cheia de gente bombando house music passando na sua rua.

Alô freguesia, é a nova ordem mundial que está passando
Alô, freguesia, é a nova ordem mundial que está passando

Não é uma viagem fácil nem barata de se fazer. Todo o planejamento para que eu pudesse simplesmente sobreviver foi bem cansativo. O dólar a R$ 3,50 (na época que comprei) certamente não ajudou. Por todos esses motivos, eu fui com a mentalidade de que essa seria minha primeira e última vez. Mas vocês acreditam que eu tô morrendo de vontade de voltar?

Ah, e antes que me perguntem: não, não tinha banho. <3

Só lencinho umedecido pra tirar a poeira.
Só lencinho umedecido pra tirar a poeira.

Se você quer ver mais:

Eu recomendo me seguir no instagram, já tem muita coisa lá e vou continuar postando fotos e contando causos até enjoar.

Mas o que vai explodir sua cabeça mesmo é a cobertura do coletivo brasileiro de fotografia I Hate Flash. Muuuuita foto, muuuuita coisa louca e gente bonita.

Eu também escrevi no blog da Aldeia Coworking contando o que eu aprendi sobre colaboração no Burning Man.