Peru

Arequipa e o mochilão de Schrödinger

Ruas do Monasterio Santa Catalina em Arequipa

Além de ser uma cidade linda onde eu facilmente moraria, Arequipa foi bem marcante no meu mochilão por ser o lugar onde aceitei receber companhia depois de 24 dias viajando sozinha. O Brian, o então companheiro de viagem e hoje grande amigo que conheci em Cusco (veja a história aqui), só ia chegar três dias depois de mim, então eu passei esses três dias na cidade numa espécie de mochilão de Schrödinger: eu estava sozinha e ao mesmo tempo não estava.

Agora tudo tinha que ser pensado por dois: escolher hotel pra dois, fechar passeio pra dois, decidir se devia visitar as coisas ali na hora ou esperar ele chegar pra ir junto com ele. Eu subi montanhas, trilhei caminhos e atravessei desertos nessa viagem, mas a expectativa de acolher outra pessoa dentro do meu momento especial de autoconhecimento foi o aprendizado mais empolgante, assustador e desafiador. Mas também, era pra isso mesmo que eu estava ali.

Combinamos de visitar o Canyon do Colca juntos quando ele chegasse, então eu passei esses três dias aproveitando a ciudad blanca e me preparando psicologicamente pra essa nova experiência.

Museo Santuarios Andinos

Eu queria demais ver a múmia Juanita e não poderia nunca ir embora de Arequipa sem visitá-la, então priorizei isso. Que pessoa maravilhosa, que história maravilhosa, que forma maravilhosa de contar. Fiquei muito emocionada.

Ela mora no Museo Santuarios Andinos, que fica próximo da Plaza da Armas, e você pode dar um oi pra ela de 1º de maio a 31 de dezembro. Você paga s/.20 pra entrar e pode visitar o museu sozinho ou fazer uma visita guiada na língua que você escolher. A visita é gratuita mas o guia pede uma gorjeta no final. Escolhi visitar com o guia porque gosto muito de saber a história das coisas, e valeu muito a pena.

Até o pátio é lindo na UCSM, universidade que gerencia o Museo Santuarios Andinos

Até o pátio é lindo na UCSM, universidade que gerencia o Museo Santuarios Andinos

Lá dentro, você assiste a um filme sobre a cultura e os rituais de sacrifício incas, o que ajuda a entrar no clima. Você aprende que a Juanita foi uma das múmias encontradas congeladas (daí o excelente estado de conservação) no topo de uma montanha. Ela tinha entre 12 e 14 anos e tinha sido preparada a vida inteira para ser um sacrifício, o que era uma grande honra entre as famílias nobres. O filme dá detalhes bem específicos do ritual que são bem desagradáveis e dão aquele arrepio ruim. Depois, o guia te leva por uma sequência de salas onde estão expostos os artefatos, roupas, e até brinquedos encontrados junto com as múmias.

Dentro do museu é super frio, e o lugar todo é meio escuro, uma penumbra que colabora pra vibe meio lúgubre do lugar. Afinal, você vai conhecer uma múmia. Uma múmia criança. Dá até um pouco de medo, mas é aquele medo que fascina. Sério, não percam.

O museu não permite tirar fotos, então segue uma imagem de divulgação da Juanita:

Múmia Juanita. Foto: Eduardo Vessani/UOL

Foto: Eduardo Vessani/UOL

Monasterio de Santa Catalina

Este era outro lugar que eu fazia muita questão de conhecer em Arequipa. Eu fazia tanta questão que acabei decidindo por não esperar o Brian chegar para visitarmos juntos, porque não queria correr o risco de nos separarmos por qualquer motivo e eu acabar ficando sem a visita. Se fosse o caso, eu poderia visitar de novo com ele.

Ruas do Monasterio de Santa Catalina em Arequipa

Ruas do Monasterio de Santa Catalina em Arequipa

Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. Passei uma tarde de sol deliciosa caminhando pelo mosteiro, visitando as salas, fotografando a arte, observando o jardim, absorvendo as cores. Deu pra colocar os bracinhos de fora, coisa rara no frio andino de junho que eu tinha pegado até então. Quando cansei, fiz uma pausa pra descansar e comer os alfajorcitos tradicionais arequipeños feitos pelas irmãs enclausuradas e vendidos na lojinha de artesanato do mosteiro.

Descansando perto do jardim do Monasterio Santa Catalina em Arequipa

Viajar sozinha requer uma câmera com bom timer e de preferência um tripé pra não sair assim tortinha 🙂

No final, subi no mirante pra ver os vulcões que rodeiam Arequipa: o Misti, o Chachani e o Pichu Pichu.

Vista dos vulcões a meio caminho do topo do mirante no Monasterio de Santa Catalina em Arequipa

Vista dos vulcões a meio caminho do topo do mirante no Monasterio de Santa Catalina em Arequipa

O lugar é de muita paz, muito silêncio em pleno centro da cidade. É impressionante. As irmãs que vivem ali enclausuradas fazem voto de silêncio, então é natural que este seja um espaço totalmente propício à introspecção. Estar sozinha me permitiu não proferir nenhuma palavra durante a tarde toda, e isso teve um impacto muito profundo na minha experiência do lugar. De fato, ir acompanhada e ficar o passeio todo conversando e compartilhando aquela paz com alguém querido poderia ser muito gostoso em outra ocasião. Mas naquela hora, pra mim, o silêncio foi perfeito.

A entrada por s/. 40 é um pouco salgada, mas vale muito a pena. Você pode obter mais informações no site do Monasterio de Santa Catalina.

Pelas ruas de Arequipa

Fui embora do mosteiro no finzinho da tarde, as ruas brancas das construções de sillar  já estavam com aquela luminosidade linda do sol se pondo. Caminhando de volta pro hostel, percebi que eu vinha fazendo esta cara o dia todo:

Selfie da felicidade solitária nas ruas de Arequipa

Eu juro que essa selfie não foi posada

Foi a primeira vez na minha vida em que eu me encontrei plenamente feliz em estar sozinha, sorrindo sem motivo algum e com o coração leve. Naqueles dias, eu precisei me preocupar com os aspectos logísticos de ter outra pessoa comigo e acabei tirando um pouco o foco do que eu sentia. Então tomar essa consciência depois de ter passado um dia de introspecção solitária no mosteiro foi um momento muito marcante e emocionante.

Num outro dia, caminhando perto da Plaza de Armas no meio da tarde, eu estava com muito calor, muita fome e muita sede. Nem lembro o que eu estava fazendo ou pra onde eu estava indo, mas lembro da sensação incrível de simplesmente entrar no primeiro bar que apareceu, sem perguntar a opinião de ninguém. Naquela hora, consciente de que logo não estaria mais sozinha, valorizei muito mais essa pequena liberdade. Pedi um ceviche e uma Arequipeña e fiquei assistindo um jogo qualquer da Copa que estava passando na TV. Os dados da foto me dizem que isso foi em 26 de junho de 2014.

Uma cerveja antes do almoço em Arequipa

Uma Arequipeña e o onipresente MILHO

Depois o Brian chegou e logo no dia seguinte partimos para o Canyon do Colca. Do jeito que eu contei essa história parece que não curti viajar com ele, mas a verdade é que eu adorei. Passado esse meu medo inicial de incluir outra pessoa na minha vida, foi tudo muito divertido e houve momentos incríveis que nunca teriam acontecido se eu estivesse sozinha. Sou imensamente grata por esses momentos e é deles que eu vou falar no próximo post. Só não era o que eu queria para aquela viagem e, dentro do que eu me dispus a aprender e vivenciar, mudar meus planos por outra pessoa naquela hora simplesmente não parecia certo no meu coração.

Parece uma coisa simples, mas admitir isso pra mim mesma representou uma grande mudança de padrões na minha vida. E eu precisei viver esses dias de limbo, de estar sozinha e ao mesmo tempo não estar, pra me ouvir e entender mais claramente como eu me sinto estando sozinha e como eu me sinto estando acompanhada. É um aprendizado que eu levo até hoje e um dos motivos pra eu recomendar sempre, pra todo mundo, mas em especial pras mulheres: viaje sozinha. Vai mudar a sua vida.

Que história é essa de #mochigrinação?

Em junho e julho de 2014 fiz um mochilão passando por Bolívia, Peru e Chile. Fui sozinha e sempre por terra, que era pra mor de passar mais tempo comigo mesma praticando duas coisas que estavam fazendo falta na minha vida: a espontaneidade e a abertura. Leia o post introdutório da série para mais detalhes sobre a idéia inicial e o roteiro, ou acompanhe todos os posts pela tag mochigrinação.

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1 comentário

  • Responder
    Celeste Baumann
    17 de março de 2017 às 11:42

    Que bom que voltou a escrever, você me deixou morrendo de vontade de conhecer Arequipa, desde o último post! Texto lindo, como sempre. 🙂

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